domingo, 29 de agosto de 2021

[As danações de Carina] A paciência feminina vista pelo lado prático

Carina Bratt

‘A paciência não é a alma do negócio. É o próprio negócio’.
Ari Toledo.


NÓS, AS REPRESENTANTES do belo oposto, grosso modo, sexo frágil, sabemos tudo sobre a paciência feminina. Tipo a paciência de Jó. Santo Agostinho, ensinava que ‘não há lugar para a sabedoria onde não há paciência’. Agarrada neste gancho, darei alguns exemplos rápidos e práticos da nossa Santa Paciência. Tenho certeza de que as minhas amigas e leitoras concordarão plenamente comigo. Senão vejamos. Os homens se gabam de saberem tanto, sobre tudo, porém, raramente conservam a simples praticidade da modesta adivinhação. Nós mulheres, ao contrário não conhecemos nada de ‘História’. No cotidiano, apenas como exemplo, temos o divino dom de inventarmos as mais bonitas e inspiradoras historinhas saídas do fundo de nossos corações.

Por outra visão mais abrangente, não manjamos, ou não deciframos os elementos mais duros e complexos da ‘Matemática’. Mas percebam: os nossos cálculos não falham e nem as contas que fazemos, às vezes, às pressas, nos deixam nas mãos. Os homens se engrandecem afirmando que conhecem profundamente os números e as suas intrincadas variantes e nós, não ficamos para trás. Tiramos de letra, de cabeça, os cálculos das contas mais cabeludos, enquanto os homens erram e o fazem feiamente por ignorância ou distração. Já dizia, com muita propriedade, o matemático Oswald de Souza que nós ‘não temos a menor ideia dos intrincados caminhos da ‘Álgebra’ e, assim como ela, somos uma verdadeira incógnita’’. E é a mais pura verdade.

Na ‘Física’ empregamos, sem nenhum tipo de constrangimento, todos os princípios para conseguirmos os fins que temos em mente. Em ‘Geometria’ o mesmo espetáculo ocorre. Sabemos lidar com as linhas partindo do Comprimento, Área e Volume e não nos embaralhamos com a ‘união dos termos’, ao oposto, somos o majestoso ‘Triunfo das Curvas Perfeitas’. O mesmo se dá com a ‘Trigonometria’. Transformamos os senos, os cosemos e as tangentes em verdadeiros brinquedinhos de crianças. Muitos incautos juram, de dedinhos cruzados, que nada sabemos da tal ‘Analítica’ ou ‘Descritiva’. Eles se olvidam que nós, sem nenhum obstáculo transpomos, de olhos fechados e descrevemos fatos os mais diversificados e tidos como extraordinários.

No contrafluxo de toda esta balela, uma leva (de doutores metidos a espertalhões), bate os costados e apregoam que ignoramos a ‘Química’. Por conta de nossa esperteza, somos uma valência em ‘Exercícios por Compensações’. Nossos beijos têm a química única e perfeita, e cumprem o seu papel de fazerem os homens perderem o tino e não só ele, o espaço onde se encontram. Mesmo tapa no rosto, gritam a bel prazer que não conhecemos nada de ‘Topografia’. Em contrapartida, eles deslembram que discernimos, ou percebemos, de pronto, o terreno onde estamos metendo os sapatos. Os homens, por ‘seus turnos’, ainda que conhecendo magnificamente as delineações pormenorizadas de um pedaço de chão, se afundam em brejos, pisam em falsos desvãos e falhas e, pior, erram os caminhos mais simplórios para saírem de vez, dos atoleiros.

Falam, comumente de boca cheia, que nós, mulheres, somos verdadeiras burras e toupeiras em ‘Geografia’. Geografia é matéria de vagabundo – afirmava o escritor José Mauro de Vasconcelos em seu livro ‘Arara Vermelha’. Apesar da nossa suposta e grandessíssima burrice, neste seguimento, sabemos onde ficam os vulcões, os mares, as ilhas, as torrentes e os borbotões, os lençóis d'água e os portos considerados seguros. Darei um salto mais amplo, se me permitem e afirmo, sem medo de errar: nada sabemos de ‘Náutica’. Será? Saibam, nobres cavalheiros, dirigimos ou pilotamos as embarcações de nossos lares, admiravelmente. Como um todo, pugnam, ainda, os ‘maiorais’ de meia tigela, que ignoramos a ‘Balística’ e, de roldão, a ‘Tática’.

Mal sabem os bobinhos de plantão, ‘pela aí’, que ao aplicarmos o esquema e as estratégias na conquista do ‘eterno inimigo, seja ele diário ou não, voamos longe’. E nos desenrolamos de qualquer embrulhada de maneira firme e maravilhosa. 0 mesmo se sucede com a ‘Geodésia. A bem da verdade, nos transformamos na mais segura sismografia capaz de registrar os menores movimentos sísmicos à distância. Em sequência, face a uma grandiosa corrente de engraçadinhos, se concluiu que não definimos, com a precisão devida, as teias da ‘Eletricidade’. Ledo engano! Eles ignoram ou fingem, que somos um dos melhores elementos deste fluido, levando em conta que agimos como Pilhas.

Mesmíssimo soco nas ventas, viramos o ‘Magister dixit’ em telegrafia sem fio, e trago este ponto à baila, apenas a título de curiosidade. A ‘Ciência do Rádio’ poderia ser, para nós, uma incógnita. Entretanto, nos tornamos ou nos transformamos na mais potente estação emissora de ondas curtas e não só curtas, longas e médias também. Se eles, em paralelo, esbravejam por aí, que desconhecemos a ‘Mineralogia’, mais uma vez deixam robustamente patenteada que ignoram que nos tornamos excelentes garimpeiras, notadamente na exploração do ouro, do ferro e do sal. Algumas de nós nunca estudaram ‘Geologia’, mas tenham em mente: sabemos onde existem as terras férteis. No quesito ‘Línguas’, nenhum homem por mais culto que seja, não nos leva no bico, ou na lábia. Apenas pensam que nos engambelam.

Desnecessário dizer que, em ‘Gramática’, não vislumbramos apenas os substantivos, os artigos e os pronomes. Quando direcionamos a coisa para o lado do exercitado, ou do experiente, todos os varões, sem exceção, se curvam e se tornam obsoletos diante de nós. Finalmente, na linha da ‘Filosofia’, se resolvermos elevar a matéria para patamares mais altos, a lógica, a moral e a metafísica, notadamente a metafísica, ponham fé, amigas, não haverá nenhum rapazola (por mais estudado que seja), chegará aos calcanhares dos nossos infindáveis méritos e sapiências. Resumindo, temos, de fato e de direito uma paciência sem limites. Lembremos de John Quincy Adams. Ele, num de seus célebres pensamentos profetizou que a ‘Paciência e perseverança tem o efeito mágico de fazer as dificuldades desaparecerem e os obstáculos sumirem’.

Por isto, caríssimas e amadas leitoras, concluindo todas as nossas Danações de hoje, oportuno citar Machado de Assis. Ele escreveu, em O Alienista, que ‘suportamos com paciência a cólica dos outros’. A paciência feminina, a nossa paciência de Jó, vai além da sua aparência frágil e débil. Ela se expande como o vento, para além dos horizontes. Se alastra por céus e mares, se difunde em todas as situações. Apesar dos dissabores e das provações, das intempéries e das adversidades pelas quais passamos, em nossa vida no dia a dia, jamais deveremos deixar de lado ou no esquecimento, a grande lição de Jó, conhecido na literatura rabínica como o ‘profeta dos gentios’. Exercer a sua paciência sempre, a nossa paciência, aconteça o que acontecer. Não importam os percalços e os estorvos que nos aguardam. Avante e, para cima!

Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, no Espírito Santo. 29-8-2021

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