quarta-feira, 25 de agosto de 2021

O colo de Cuomo

Manuel Rezende

Imagine que se está a demitir do seu cargo como Governador do Estado de Nova Iorque no meio de um escândalo de abusos sexuais e comportamentos predatórios. A imprensa local, até então muito amiga e compreensiva, deitou de fora as garras e prepara-se para estilhaçar a sua reputação política até à última réstia.

E é assim que, de repente, um grupo de fanáticos barbudos desce das montanhas e toma de assalto um pequeno país numa paragem remota e esquecida do mundo, derrotando no entretanto a maior potência militar da história da civilização. Não há muito melhores formas de conseguir distrair o grande público do sarilho em que se meteu.

Estamos a falar, claro, do governador Cuomo [foto], ítalo-americano, importante membro do Partido Democrata e senhor indiscutível do Estado de Nova Iorque até há uns dias. Cuomo, que era visto pela imprensa de esquerda americana (e como tal pelas suas sucursais portuguesas SIC, TVI e RTP) como o grande opositor de Trump, o herói do combate à pandemia, o modelo das virtudes do político do Novo Milênio, inclusivo, progressista, respeitável, não “problemático”, revelou-se, afinal, um homem com bastantes esqueletos no armário.

No relatório que o Ministério Público entregou quando formalizou as acusações contra o ex-Governador Cuomo, pode-se ler que Cuomo incentivava que as secretárias assistissem a reuniões importantes sentadas no seu colo.

O ambiente de trabalho nestas reuniões é considerado “hostil”, de acordo com a brigada dos bons costumes que lidera esta caça às bruxas típica da Nova Esquerda. Contudo, não deixa o mesmo relatório de referir que nenhuma das participantes se sentia maios ou menos oprimida por se sentar no venerável colo do senhor Governador durante as tais sessões.

A senhora que coordena estas acusações, a delegada pública Letitia James, comanda a campanha de difamação pública e jurídica do senhor Cuomo sustentando os seus argumentos no facto de o ex-governador ter comportamentos deveras badalhocos. A Letitia está a cavalgar a besta infernal do Politicamente Correto porque quer se tornar a próxima governadora de Nova Iorque, claro.

Já a esquerda americana, agora que prova do seu próprio fel, começa a se questionar se os ventos de mudança propagados pelo movimento #metoo não se terão tornado autênticas rajadas de sarilhos.

Vejamos bem, sentar no colinho do governador pode não caber na cabeça de alguns, pode ser visto como uma falta de decoro, uma quebra de protocolo, um atentado à estética e à ética, um comportamento feio, grotesco, bárbaro.

Mas num mundo que já só acredita no fácil, no pornográfico e no aberrante, o que é que isso importa? Aliás, até pode ser que as cavalitas do senhor governador ajudem as meninas secretárias a entreterem-se melhor durante aquelas aborrecidas reuniões políticas.

Título e Texto: Manuel Rezende, o Diabo, nº 2329, 20-8-2021

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