sexta-feira, 20 de agosto de 2021

[Aparecido rasga o verbo] O terceiro testículo

Aparecido Raimundo de Souza 

PASCOALINO SETEMBRINO DE JESUS foi de tudo nesta vida de meu Deus. Lanterneiro, vidraceiro, porteiro, macumbeiro, coveiro, sapateiro, amansador de burro brabo e, no tempo do quartel, corneteiro da tropa. Sem falar no período das vacas magras, quando amargava os dias como camelô, vendendo copinhos de água, calcinhas de nylon e perfumes baratos nas calçadas da Central do Brasil, garantindo o café com pão dos três filhos do primeiro casamento com a Crisaldina e, ainda, o leite em pó e as fraldas da recém-nascida raspa de tacho arranjada numa pulada de cerca com a Matilde ‘Boca-de-onça’. 

Pascoalino só não roubou, nem matou. Isso nunca! Aliás, era tão inofensivo que, se uma mosca dessas bem chatas ousasse pousar num repentino e lhe tirar o sossego do sério, sequer levantava a mão para enxotá-la. Homem humilde e pacato, cumpridor de seus deveres, vivia tranquilo e alegre. A vizinhança inteira de Brás de Pina e Parada de Lucas o adorava, principalmente os moleques que se deslocavam das comunidades próximas para uma peladinha no campo do Olaria, na Rua Bariri. Devoto incondicional de Nossa Senhora das Cabeças, aos domingos, chovesse, ou não, dava os ares da graça na igreja do padre Gregório, na Rua Belisário Pena na Penha Circular, com quem, depois da missa, se reunia para disputar uma partidinha de buraco nos cafundós da sacristia. 

Na quinta feira à noite, meteu na cabeça responder um anúncio de jornal no centro da cidade. Intencionava um servicinho que garantisse a carteira assinada, vale transporte e convênio hospitalar. Imbuído nesse propósito, dia seguinte madrugou. Contudo, perdeu a pernada. Chegada a vez de ser atendido, a vaga acabara de ser preenchida. Restava, pois, o longo caminho de volta. Foi então que aconteceu o encontro. Defronte a Candelária, quando atravessava a Presidente Vargas, um rapaz de boa aparência, vestido num elegante terno preto de bom corte, as faces imbuídas num pesadelo recorrente, o interceptou. 

O mancebo não teria mais que vinte e dois anos. Ao deter os passos de Pascoalino mostrava perturbada inquietação e agito descomedidos. Na verdade, a angústia do elemento escondia um motivo justo. Iria casar e precisava de voluntários para testemunhar esse evento. Arranjara dois, mas faltava a derradeira e essa se tornara difícil, quase impossível. Muito prestativo e vendo a situação caótica do indivíduo, se prontificou, de imediato. O que deixava a vida de solteiro, se enchendo de uma eufemia inesperada, prometeu, em reciprocidade do favor, um suculento lanche no bar da esquina mais próxima, em troca da perda de tempo com a abertura de firma, reconhecimento de papéis e demais incômodos causados. 

As coisas corriam às mil maravilhas. Tudo nos conformes. Entretanto, no momento em que o cidadão do cartório convocou o Pascoalino para a colhida das assinaturas, tremenda e inusitada confusão criou vida e forma.
— Seu Pascoalino Setembrino de Jesus?
— Presente — gritou a figura, recém cassada às carreiras.
— Conhece seu Nicanor Dal Col Vieira e a senhora Dionísia dos Ambrolhos?
— Não. O seu Nicanor Dal... Dal o quê...?

—... Dal Col Vieira...
— Ah!, eu o conheci ali na Presidente Vargas ou mais precisamente em frente ao ponto onde eu pegaria o meu ônibus para voltar para casa. Caminhava pensando em meus problemas, e o distinto me parou e pediu para assinar uns documentos. A senhora Dionísia estou vendo agora, pela primeira vez.
Nicanor interveio, o rosto vermelho como sangue jorrando de machucado aberto. Parecia na iminência de explodir:
— Não tem problema, meu amigo. É só para constar nos livros. Praxe. Coisas da burocracia, entende?

— Perfeitamente, mas compreenda a minha posição. Não posso mentir para o representante da Lei. A verdade, sempre a verdade, a qualquer preço. Afinal, nunca lhe vi antes de hoje. Nem a moça ai, a dona Dionísia...
— Isso não vem ao caso. É só assinar... só assinar... depois o lanche... esqueceu do lanche?
O representante do cartório bedelhou à imitação de um falso pigarro:
—... Continuando, seu Jesus...

— Pascoalino Setembrino de Jesus. Minha mãe escolheu o nome. Nasci no dia de nosso Salvador Jesus Cristo, aos vinte e cinco de dezembro. Se acaso tivesse vindo mulher, mamãe colocaria Maria... Maria de Jesus. De qualquer forma, seria de Jesus...

— Cavalheiro, entenda — vociferou o atendente. — Para nós, esses fatos não têm a menor relevância. O senhor, juntamente com a dona Bizantina Charneca Lyra e dona Walfrida Dá o Bérgamo, foram convidados para assinarem no processo de casamento civil... ou melhor, nos proclamas de Nicanor Dal Col Vieira e dona Dionísia dos Abrolhos.

A futura companheira de Nicanor Dal Col Vieira deu um tremendo salto da cadeira que assustou aos que estavam sentados ao seu entorno. Berrou:
— Ambrolhos, Ambrolhos, com ‘M’.
O serventuário, de cara feia e louco para atender aos demais que aguardavam, passava a impressão de querer fuzilar qualquer que se colocasse ao alcance das suas mãos.
— Ratificando: Ambrolhos. Dionísia dos Ambrolhos. Certo? Pois bem! Como dizia antes de ser interrompido, o senhor, seu Pascoalino, será o terceiro testículo... mil desculpas... a terceira...

Foi realmente a gota que faltava para transbordar o copo. E, não deu outra. Pascoalino perdeu as estribeiras:
— Espera ai, meu prezado! Posso até assinar a papelada para o seu Nicanor Dal... Dal... para o seu Nicanor se arranjar com a namorada, noiva, amante ou sei lá que apito estes dois vão tocar depois que saírem daqui. Mas veja bem: ser ou me passar pelo que o senhor falou ai, nem que a vaca tussa. Pode ir recolhendo o seu cavalinho da chuva..
Sem ligar para o pedido de desculpas do auxiliar que gritava, enraivecido, mil desculpas em vão, ao tempo em que agitava os papeis a serem rubricados, Pascoalino deu meia volta apressado, em direção à porta de saída.

Apavorado, Nicanor, suando por todos os poros (apesar dos aparelhos de ar condicionado ligados a todo vapor) pulou na frente da criatura, tremendo feito vara verde:
— Pelo amor de Deus, meu querido. Espere. Não se vá. Careço da sua ajuda. Até imploro se for preciso, mas não me vire as costas...
Pascoalino, igualmente chateado vociferou:
— Para ser testículo? Esqueça! Continuo inflexível na minha determinação. Fui!
Nicanor, todavia, voltou à carga, os olhos em pranto sentido:
— Não é testículo, é testemunha. O filho de uma égua errou a fala. Está lhe pedindo que esqueça o incidente. Olhe só para a fuça do coitado...

Pascoalino, entretanto se fechara em copas. Estava irredutível:
— Não quero nem saber. Ele falou testículo, testículo, testiiiiiiiiiiiiculo, com todas as letras. E pelo que me consta, esse troço é o...
—... É o...?!
—... Saco. Ou melhor dito: aquelas glândulas que ficam situadas no... no... o senhor sabe... no... na base do pênis.
— Aquilo é o escroto...
— Que diferença isso faz? Não quero ser testículo, nem coisa que o valha.


Neste clima de tensão e nervos à flor da pele, se achegou ao bate boca a Dionísia, tão ou mais injuriada que o futuro consorte:
— Nicanor, meu querido, arranja outro. Pelo visto, este senhor é um... um... um saco... um tremendo saco!
Pascoalino aproveitou o gancho da beldade e se abriu, desabafando o que não aguentava mais suportar:
— Está vendo? Sentiu o lance? Até a sua futura cara metade acha que tenho aparência com bola de pinto. E eu... eu só queria lhe ajudar. Cooperar é uma coisa, porém, passar por ‘culhões’ o negócio descamba para o vexatório e, então, a história passa a não dar pé. Ademais, bote reparo: sou espada, ou melhor, facão... facão...

Fazendo ouvidos de mercador e sem dar mais um pingo de trela aos nubentes e, obviamente aos demais que lotavam a recepção, a maioria dos presentes rindo a mais não poder, em face do rumo jocoso que a conversa havia tomado, Pascoalino não aceitou as desculpas do seu interlocutor, tampouco se importou com as desculpas do rapaz que cuidava dos papéis, que ele entendeu como ‘esfarrapadas’. Sem mais delongas, pediu licença a todos, mandou um sonoro ‘boa tarde, fiquem em paz’ e deixou, correndo, o interior do prédio onde funcionava o tabelião.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha no Espírito Santo, 20-8-2021


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Quem sai aos seus não degenera 
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Parada indigesta 

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