sexta-feira, 15 de outubro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Mal súbito

Aparecido Raimundo de Souza

O LADRÃO PINTOU do nada. Saiu de um beco escuro e ganhou a avenida. Viu o velhinho sozinho, no ponto de ônibus. “Que diabo — pensou com as suas ideias tresloucadas —,  que diabo fazia, aquela hora, o infeliz, desacompanhado, sem vivalma  por perto?”

Quase meia noite. Ninguém na rua. Só a indefesa e pobre criatura,  frágil e desprotegida, em pé, olhando o vazio da noite estrelada, feito um fantasma errante.  Na mão esquerda, uma sacola de plástico, onde, talvez, só tivesse o cartão do SUS, ou o passe livre...

Aquele assalto seria mel na chupeta.  Ah, seria! O meliante não pensou duas vezes. Sequer se deu ao trabalho de espiar se vinha alguém. Partiu pra cima. Se aproximou, de mansinho, e encostou o revolver trinta e oito no ouvido do infeliz. Não teve tempo sequer de dizer ao ancião: “Perdeu, perdeu”.

Tampouco se deu ao prazer mórbido de repetir a batida e repisada frase: “passa tudo, vovô, ou terei que mandar a sua pessoa visitar Papai do céu mais cedo...”.

Em vista do inesperado, tremendo e assustado, o ancião se deixou cair como uma folha  desprendida de uma árvore invisível ao sabor de um vento ameno, em meio à calçada fria.

Sofreu, na hora, se soube depois, um ataque fulminante do coração. Por conta própria, o idoso simplesmente bateu com as doze. Nos seus olhos, apesar do susto e do terror momentâneo, uma calma silenciosa deixava transparecer que partia feliz. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza. De Sertãozinho, Ribeirão Preto, interior de São Paulo. 15-10-2021  

Colunas anteriores: 
Gatos espelhados versus jacarés famintos 
Como portal para outra dimensão 
Hora do rush 
[Aparecido rasga o verbo] Pivô 
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