terça-feira, 5 de outubro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Hora do rush

Aparecido Raimundo de Souza

O BARRETO ALVARENGA
casualmente encontrou, no ônibus, de volta para casa, seu amigo Orestes Cachoeirinha sentado num banco junto à janela. Ao vê-lo tentando disfarçar (em vista de um pacote que trazia nas mãos), deu um jeito de sentar ao lado. Depois de muito malabarismo, pulando feito macaco, de galho em galho, conseguiu. Não controlando a curiosidade que o invadia, tratou logo de interpelar o companheiro, para que lhe disesse que embrulho era aquele.
— Que negócio está escondendo ai, véiii?!
— Não sei Barreto. Achei aqui no canto do banco.
— Será que alguém perdeu...?
—... Ou esqueceu, vai se saber!

— Por que não abre?
— Pirou? Tem muita gente aqui dentro. Olhe à nossa volta.
— Tá. E dai?
— Daí que tenho vergonha.
— Achado não é roubado.
— Se achado não é roubado, esquecido é o quê?
— É merecido. Com certeza. Isto vale para quem achou, claro. No caso, você.
— Sim. Não há dúvida. Mas diga lá: olhando assim, o que acha que possa ser?
— Pelo tamanho, um vidro de perfume.
— Não tem cheiro de perfume no papel.

— Um CD do Pabllo Vittar?
— Não creio!
— Uma caixa de lenços?
— Lenços não pesam tanto.
— Uma embalagem com doces?
— Também não.
— Por que não?
— Porque já chacoalhei. Não faz barulho.
— O que sugere?
— Mano, não parei ainda ainda para pensar. Quem sabe um brinquedo, uma lâmpada...
—... Embrulhado assim, pra presente?

— E dai?
— Na moral, mano. Quem daria uma lâmpada para alguém num embrulho de presente?
— Sei lá. Hoje em dia tem doido pra tudo. Um tio meu, o Zebedeu, se lembra dele? O Mané deu de presente à minha sobrinha Sidnéia, no aniversário dela, um cachorrinho dentro de uma lata de biscoitos.
— Credo!
— Minha sobrinha entretida com as outras quinquilharias, não abriu na hora. Esqueceu. Quando resolveu ver do que se tratava, se deparou com o pobrezinho morto...
— Que loucura!

— Pior de tudo foi no instante em que se tirou a tampa da lata...
— Posso imaginar! O bichinho deu um pulo e latiu?
— Não seja burro, véiii. O bicho estava sem vida, mortinho da silva. Faço referência, claro, ao fedor insuportável.
— Que barbaridade! E a pobre criança, o que fez?
— Sidnéia jogou a lata na lata de lixo. Acredita que até hoje, quase um mês depois, quando vou visitar meus tios, sinto o cheiro do animal e, claro, da lata?
— Sinal que os sensores do seu nariz “é dos bons”.
— Engraçadinho. Perde a pose, mas não perde a piada.
— Na mosca, mano, na mosca...

Ambos os amigos caíram em estrondosa gargalhada. Barreto Alvarenga, sem perder o foco do objetivo desejado, voltou à carga, insistindo veementemente.
— Mas vamos lá, Orestes. Ninguém está olhando. Aproveita e abre a parada.
— Quando descer eu descubro o que é, na moral.
— Mas você tem noção que saltarei antes e queria ver o conteúdo? Estou curioso...
— A curiosidade matou o gato.
— Não sou gato. Abre o trem logo.
— Abre você...
— Eu não. Você que achou, que se vire. 

— Não acabou de dizer que está curioso? 
— Muito. Quase me estapeando e me mordendo...
— Então?
—... Mesmo me corroendo por dentro, prefiro que você tenha a iniciativa. Afinal, quem achou é que deve se dar ao prazer...
— Eu passo a vez. Tome, vai em frente...
— Nem morta. Quero dizer, nem que a vaca espirre. Abra você...
— Por favor, faça as honras.
— Obrigado. Abre logo, droga. Estou com o coração à saltar pela boca.
— Deixe estas moças em pé ao nosso lado descerem...
—... Abra logo. Pelo amor de Deus.

O Barreto Alvarenga tanto perturbou a paciência, que, por fim, o Orestes Cachoeirinha tomou coragem e começou a desembalar o suspeitoso achado. No minuto seguinte, o assombro dos amigos se transformou em trágica pilhéria. Os que viajavam colados, caíram em acirrada gozação. O conteúdo do embrulho: um baita pênis de silicone, de cor preta, acondicionado numa caixa transparente. Envergonhados, os rostos vermelhos pela comoção da coisa encontrada, Orestes jogou o troço no chão. Ato contínuo, ele e Barreto se levantaram e desceram na primeira parada. Bons quilômetros antes daquela onde deveriam deixar, de vez, o coletivo.

Ausentado os moços, o espetáculo não parou por aí. Seguiu a todo vapor. Para aumentar o vexame (agora das beldades que seguiam fundeadas nas barbas dos dois amigos), os demais acotovelados que, igualmente, acompanharam o desenrolar da cena patética mergulharam em ruidosas e chinfrinadas gargalhadas. Piadas e comentários os mais desagradáveis e escabrosos mudaram de rumo e se fizeram direcionados às pobrezinhas e indefesas. De repente, do nada, rolaram, numa fanfarronice impiedosa e lancinante, gracejos insensíveis e barbáries perversas, que durou, furdunçamente animada, e em alto uivo e glamour, até o derradeiro ponto final.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da cidade de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. 5-11-2021

Colunas anteriores: 

Um comentário:

  1. Texto com cenas hilárias. E, como sempre, o machismo imperando. Percebam que após o desembrulho do 'achado', nenhuma alma se levantou em favor das moças que ficaram reféns das selvagerias hediondas e desordenadas de passageiros amalucados e boçais. Nenhum dos presentes teve a ousadia, ou pôs em prática, a coragem, a honradez, ou a dignidade de se levantar em socorro das pobres e indefesas jovens. Aparecido escreveu um texto cômico, engraçado, para arrancar risadas. Todavia, as suas linhas traduzem, infelizmente, a nossa realidade nua e crua no dia a dia do cotidiano. A crônica mostra, de forma clara e concisa, a pobreza de espirito, a irracionalidade e o 'acentuamento' cada vez mais galopante da imbecilidade humana. Eu mesma estou cansada de presenciar cenas como as descritas em a 'Hora do rush'. Uma realidade fria, brutal, desonesta, avacalhadora, que cria vida, vida e forma, na decorrência do dia após dia, no vai-e-vem das conduções. O tempo dos cavalheiros, dos homens sérios, foi para o ralo da idiotia, da desinteligência, dos curtos e tapados de espírito. Tempo bom em que se via o tato, o carinho, o senso prático. Sou nova, quase na casa das 'maduras' que pensam duas vezes antes de dar um passo. Venho (e me orgulho, estejam todos e todas) conscientes, de um período onde havia respeito, consideração, deferência e a reverência se fazia gritante. A 'Hora do rush' nos leva a meditar numa série de mimos e elegâncias que se perderam em algum lugar do passado.
    Carina Bratt
    Ca
    de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo ES

    ResponderExcluir

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-