terça-feira, 19 de outubro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Insossa

Aparecido Raimundo de Souza

VOCÊS QUE leem as minhas crônicas já perceberam o quanto as pessoas perdem a noção, quando a gente educadamente solicita um pedacinho de papel para escrever alguma coisa urgente? Pois é! Aconteceu comigo, meus caros. Domingo passado, num restaurante chiquérrimo, em Cravinhos, cidade próxima de Sertãozinho e Ribeirão Preto, interior de São Paulo, enquanto aguardava o prato que escolhera no cardápio, ao garçom de cara redonda e barba por fazer, fui até o caixa e pedi à moça que me arranjasse um pedaço de papel para escrever.

A jovem, com um sorriso sem graça, de quem comeu alguma coisa e não gostou, me entregou, uma folhinha tão pequena, tão minúscula, que mal consegui escrever meu nome, e-mail e o número do telefone para entregá-los a uma senhorita que havia se sentado na mesa ao lado, e, a gente (enquanto esperávamos as nossas refeições), entabulou uma amigável e amável conversa. A bela (não a do caixa, da mesa ao lado, sempre é bom repetir), me disse se chamar Doralice. Tinha vinte e seis anos, se formara  professora de educação física e preparava, em sua academia, perto dali, crianças de ambos os sexos para apresentações em programas de televisão.

Papeamos por um bom tempo, o que levou a criatura, a certa altura, e a convite meu, passar a mão em suas coisas e dividir comigo o mesmo espaço da mesa. Depois de satisfeitas as nossas barrigas, despedimos com tudo o que tínhamos direito, ambos com os olhos cheios de coraçõezinhos pulsantes e, nas palavras, a promessa de logo nos falarmos, outra vez, por telefone. Voltando à criatura do caixa, e seu ridículo pedacinho de papel, menor que o de uma bala de chupar, tal fato me deixou muito irritado e pê da vida.

A partir de então, passei a carregar, na bolsa, à tira colo, e também na mala de viagem, uma caderneta para não me estressar novamente diante da insensatez das pessoas e da burrice delas, quando a gente pede um pedacinho de papel para agendar alguma coisa de última hora. Depois do caso passado, juro por tudo quanto é sagrado, me subiu, pelas ventas, uma vontade quase anormal, infrequente —, diria —, de (na hora de pagar a conta) devolver à fulaninha insípida  e sem o sal preciso para temperar seus modos, sentada no caixa do estabelecimento, como uma pamonha, o diminuto papelzinho.

Na verdade, o meu impulso, não outro senão o de sugerir, com toda educação e polidez, que ela enfiasse o dito pedacinho de papel solicitado em seu volumoso (e que volumoso!) nariz. A  meu resumo, a desinteressante era bonitinha, contudo ordinária, mais ordinária que bonitinha, sem tirar nem pôr, em vista da tirinha de papelzinho que me obsequiara. Sem dúvida alguma, a desgranhenta se parecia, em todos os sentidos, com a versão feminina do Luciano Huck. Por educação, engoli a vontade. Dei meia volta e deixei definitivamente o local.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza. De Serrana, interior de São Paulo. 19-10-2021

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Como portal para outra dimensão 
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