terça-feira, 19 de outubro de 2021

[Estórias da Aviação] Um Miami para não esquecer

José Manuel

Corria o ano de 1983, plácido, gostosamente, como tudo naquela época, ao sabor da vida, sem preocupações, sem cobranças, sem boletos, apenas a vida curtida em seu esplendor, e como deve ser.

Nessa época estava me divorciando, precisava urgente de "ares" novos para respirar, e resolvi ir morar no meu trailer em um camping no Recreio, paraíso havaiano em pleno Rio de Janeiro.

Já estabelecido naquele lugar paradisíaco, fui fazer um voo cujo chefe de equipe não conhecia e se chamava KELMER, que segundo a Filomena, com esse nome, era um "alemão" maranhense que ela conhecia de outros carnavais.

Nossa empatia foi imediata, pois ele também estava se separando, e adorou saber que eu morava num camping.

Não muito tempo depois daquele voo, estávamos solteiros e cada qual em seu trailer, respirando aquele gostoso ar marinho, as delícias do mundo solteiro ao nosso alcance e com a visão do mar a alguns metros da nossa nova base.

Foi uma época inesquecível mesclada de grandes capitais europeias, americanas, o bucolismo de uma praia quase selvagem, gastronomia ao ar livre e, de roupa, apenas o nosso uniforme de voo, de vez em quando, sendo o calção de banho nosso uniforme cotidiano.

Algum tempo depois, continuava fixo com o Kelmer nos voos, para cima e pra baixo, quando num determinado voo uma comissária chamada Maria Irene saiu de São Paulo com as malas de voo e se instalou no meu trailer e na minha vida até hoje, pondo um fim na minha perene vagabundagem!

Foi uma época muito prazerosa em tudo e por tudo. Acabamos os três ficando em tripulação fixa, a fim de facilitar nosso deslocamento ao aeroporto, de uma área tão remota àquela época.

Paraíso à parte, com o Kelmer estavam fixos na primeira classe do DC-10, eu, a Irene e eventualmente um ou outro fixo.  O Luiz Passos, o Cesar Bugre e o Odilon foram fixos conosco, cada um a seu tempo e posição.

Infelizmente não me lembro de toda a tripulação, mas com certeza jamais esqueceria o nosso Comandante naquele Miami. Uma lenda da aviação Variguiana! O indefectível HOLST [foto].

Era um voo corriqueiro de sete horas e meia, RG 806, como tantos outros que habitualmente fazíamos e como sempre o grandão DC-10 estava lotado, até os jump-seats, mas aquilo para nós era mais que diversão, era um prazer.

O voo corria mansamente como sempre, serviço de jantar quase terminando, quando o interfone soou na estação 1L.

O Kelmer atendeu e saiu correndo, pois uma passageira estava batendo e cuspindo em todo mundo lá na econômica. A partir desse momento o que sucederia seria surreal e hilário.

Ao chegar à zona de conflito, o Kelmer presenciou um tapa que a passageira acabava de dar em outro passageiro e ao tentar acalmar a situação também levou outro tapa. Ato contínuo, passou por nós na primeira classe, como um raio, entrando no cockpit para falar com o comandante.

Segundos depois, sai o Comandante Holst da cabine de comando, tipo The Flash em direção à econômica, com o Kelmer atrás e nós três só observando e claro, atônitos pela situação insólita que se desenrolava.

Dois minutos após retorna o Comandante Holst furioso pois tinha sido atingido por impropérios e quase, quase, outras coisas da passageira indomável.

Decisão tomada, a passageira foi amarrada pois não havia outro jeito para segurança do voo e eu fui lá trás ajudar a contê-la, pois o Kelmer e o Comandante não queriam ver a mulher nem pintada de ouro.

Enquanto tentava acalmá-la conversando tranquilamente, ela com um olhar de ódio soltou uma cusparada em minha direção, gritando "I HATE YOU".

Resumindo, naquele voo vários apanharam, vários levaram cuspidas, a econômica se transformou num pandemônio durante a noite e a passageira foi recebida em Miami pela polícia e por paramédicos.

Nossa impressão foi a de que havia ingerido no jantar algum tipo de barbitúrico que ocasionou um estado de euforia psicótica.

Depois, já no hotel, rimos muito com toda aquela situação ao mesmo tempo séria e divertida.

No dia seguinte a volta tranquila para o paraíso, pois a praia nos aguardava com aquele cheiro de mar, sol e uma vagabundagem deliciosa.

Se pudesse voltar àquela época, ontem já estaria lá.

Saudades do Kelmer, meu companheiro de camping e do voo.

Assim como do Comandante Holst, uma das nossas maiores lendas.

Foram embora cedo demais, nos deixaram aqui com muitas saudades e a aviação nunca mais foi a mesma!

Título e Texto: José Manuel – Varig saudosa Varig, outubro de 2021

Anteriores: 
12 de abril de 2006 – o dia em que meu mundo desabou 
Um passeio pela Varig nos anos 70 
A Varig... Luanda & Cabul 
O bebê do Grosman (2ª parte) 
Os quadros do Grosman (parte I) 
Confira (e anote) o dia da sua coluna preferida 
Passageiros rebeldes 
Voo Solo - Jacarepaguá - RJ
Retidos no aeroporto
Sem regulamentação 
O cafezinho 
Água Mineral no Serviço de Bordo 
O início da Varig e o pensamento de Ruben Berta 
[Estórias da Aviação] O mau elemento 
O meu primeiro voo 
Pousos com peso de decolagem 
Aviadores 
Político ananscático tentou constranger a filha do escritor emérito 
Churrasco na cobertura 
A Junta Disciplinar 
Drama em Zurique 
Lockheed 188 Electra PP-VJW 
[Estórias da Aviação] Visibilidade zero em Toronto

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-