sexta-feira, 8 de abril de 2022

A arrogância professoral e a cultura do diploma

Um professor não pode usar seus títulos acadêmicos para monopolizar a fala em nome da ciência e desqualificar o outro


Rodrigo Constantino

O “argumento de autoridade” normalmente costuma ser uma confissão de impotência intelectual. É quando os argumentos não se sustentam por conta própria que alguém precisa puxar da cartola seus títulos acadêmicos, dar a “carteirada” do diploma. Quando isso ocorre num debate entre adultos, demonstra sinal de fraqueza de quem banca o especialista acima de todos. Mas quando acontece numa escola, entre um professor e um aluno, aí é simplesmente algo inaceitável e execrável.

Foi o que vimos nesta semana na Escola Avenues, em São Paulo, que custa aos pais quase R$ 200 mil por ano. Tenho um grande amigo com filhos lá, que gosta muito da escola, que via de regra tem bons professores, que respeitam a diversidade. Mas o professor Messias Basques humilhou um aluno que apresentava contrapontos ao discurso radical da convidada indígena contra o agronegócio. A título de curiosidade, o rapaz está certo no mérito da questão, e o professor, assim como os extremistas do MST, totalmente equivocado. Mas esse nem é o cerne da questão!

Um professor não pode tentar diminuir o aluno dessa forma perante os demais, usar seus títulos acadêmicos para monopolizar a fala em nome da ciência e desqualificar o outro. O que esse professor fez é patético, inadmissível, e não por acaso a reação nas redes sociais foi enorme. O povo se solidarizou com o aluno que contestou as narrativas dogmáticas da palestrante, endossadas pelo professor. Ele jamais poderia ser tratado dessa forma, muito menos por quem é pago para transmitir conhecimento objetivo e, acima de tudo, o desejo de aprender e buscar a verdade.

Esse lamentável episódio expõe duas grandes mazelas em nosso país:

1. o esquerdismo arrogante e militante quase hegemônico nas salas de aula, mesmo nas melhores escolas privadas;

2. essa nefasta cultura do diploma, que cega para o conteúdo, para a meritocracia, para a capacidade de argumentação lógica. Sobre o primeiro ponto, ao menos é alvissareiro que cada vez mais gente tenha reagido, lutado pelo espaço ao contraditório, pelo direito de se opor a essas “verdades” enfiadas cachola adentro pelos doutrinadores disfarçados de professores. Vou me ater aqui mais ao segundo ponto.

O diploma universitário, no Brasil, possui um status desmedido. A ideia, bastante alimentada pelo romantismo de esquerda, é que todos deveriam concluir uma faculdade. Mas nem todos nasceram para isso. Nem todos aproveitam da mesma forma esse instrumento. Pode ser perfeitamente possível que os recursos investidos em cursos técnicos entreguem um retorno bem maior a determinadas pessoas. Assim como pode acontecer de alguém com mestrado ou mesmo doutorado não passar de um papagaio de clichês ultrapassados.

A obrigatoriedade de diplomas não passa de uma reserva de mercado, típica de países corporativistas

No Brasil, acredita-se que formar milhares de sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, psicólogos ou mesmo economistas, todos bastante imbuídos das crenças marxistas, representa um passo mais importante rumo ao progresso da nação do que investir em cursos técnicos de caráter mais prático, alinhados às demandas do mercado de trabalho, ou então investir mais na área de exatas, sem “lacração” ideológica.

Essa é uma visão romântica, desconectada da realidade. Para vários jovens, os anos na universidade estudando sobre Marx ou Foucault representam pura perda de tempo (e normalmente são mesmo!). O que eles precisam é de cursos que tornem sua empregabilidade e sua produtividade maiores, para terem melhores oportunidades no mercado de trabalho, produzindo riqueza no sistema capitalista. Infelizmente, a área de humanas costuma focar na distribuição de riqueza apenas. Gente que nunca soube como criar riqueza quer controlar o mundo e avançar sobre a riqueza produzida pelos outros.

Quando o STF decidiu que não seria obrigatório o diploma de jornalismo, por exemplo, a reação foi imediata. Muitos jornalistas questionaram por que cursaram seus anos de faculdade se agora qualquer um poderia ser um jornalista, com ou sem diploma. O simples questionamento demonstra como vivemos na “cultura do diploma”, contrária à cultura da meritocracia. Quer dizer então que aqueles anos na faculdade tinham como meta somente o diploma, e não um aprendizado efetivo e útil?

A obrigatoriedade de diplomas não passa de uma reserva de mercado, típica de países corporativistas. O que importa é a qualidade do serviço prestado, a capacidade do profissional, e não o fato de ele ter ou não algum diploma. Ele poderia ser um brilhante autodidata, como era o filósofo Olavo de Carvalho perto de qualquer doutor arrogante em nossa decadente academia. Ele poderia ser um “drop out” de uma faculdade, como tantos empreendedores norte-americanos hoje bilionários.

Se o investimento de tempo na universidade for rentável, ou seja, se o diploma realmente agregar valor, então ele continuará sendo demandado e respeitado, sem a necessidade de reserva de mercado. Mas não há motivo algum para que o governo torne obrigatória a existência de um diploma. Isso apenas reduz a competição no setor, afastando possíveis profissionais competentes. A prática pode ser uma escola mais eficiente que a universidade. Vamos deixar os consumidores decidirem. Quem teme a competição?

Alguém se segurar nesse título medíocre contra um adolescente é mesmo prova de incrível fragilidade intelectual

Além disso, resta perguntar: se, para ser um poderoso presidente da República, não é exigido diploma algum no Brasil, e até alguém como Lula pode chegar lá, então por que deveríamos valorizar tanto esse título em outras áreas? Não é irônico que justamente os doutores arrogantes sejam os primeiros a declarar voto no petista semianalfabeto e com preguiça de ler? Lula, vale notar, não deve ser atacado por não ter concluído um curso universitário, mas, sim, por ser corrupto, socialista e ter praticamente destruído nossa economia. Dilma, seu “poste”, tinha diploma, era arrogante e achava que entendia de economia, e conseguiu causar estrago ainda maior que o antecessor.

PS: além da arrogância de cuspir títulos, há o caso de falsos títulos. Parece ser o caso desse professor autoritário. Um curso em Harvard não é necessariamente algo impressionante. Dá para obter um “certificado em estudos afro-latino-americanos” por apenas US$ 250 on-line, e pelo visto foi exatamente isso que o tal professor fez durante a pandemia. Alguém se segurar nesse título medíocre contra um adolescente é mesmo prova de incrível fragilidade intelectual, não?

PS2: a escola soltou uma nota acovardada, afirmando que o aluno discordou da palestrante de forma desrespeitosa, e que depois foi “corrigido” pelo professor, ainda que de forma “inapropriada”. Não há meio-termo possível aqui. O aluno tem todo o direito de contestar, e está lá para isso mesmo. O professor jamais poderia ter feito o que fez, que não se tratou de correção alguma, mas de uma tentativa de humilhação baseada em seus títulos inexpressivos. Apelo à autoridade não é algo aceitável numa sala de aula!

Título e Texto: Rodrigo Constantino, revista Oeste, nº 107, 8-4-2022 

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