quinta-feira, 11 de junho de 2020

Contos loucos dos moucos (XLIV) – Papillon

Tinha os pés imersos no pântano. A água chegava-me às coxas. Sentia os calcanhares a afundar. Diante dos meus olhos flutuava um enorme frigorífico. Lancei-me sobre ele, abracei-o, apertando-o fortemente com os braços, e deixei-me levar.

Veio-me à memória a última cena de Papillon, o filme com Steve McQueen inspirado no romance de Henri Charrière.

Também eu, como Papillon, parecia flutuar num saco cheio de nozes de coco, aproveitando as marés para fugir de Cayenne. Era um pensamento ridículo, mas por vezes não podemos fazer outra coisa senão acompanharmos os nossos delírios como algo que não escolhemos, como algo que sofremos e basta.

Tinha vontade de berrar, queria gritar, queria rasgar os pulmões, como Papillon, com toda a força do estômago, romper a traqueia, com toda a voz que a garganta podia bombear: “Malditos bastardos, ainda estou vivo!”
Roberto Saviano, in “Gomorra”

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