sábado, 16 de janeiro de 2021

O sinistro milagre português

Não houve milagre epidemiológico em Portugal. Mas na política, há um milagre: o conforto com que a elite do poder preside à crise epidemiológica, ao declínio económico, e à degradação institucional

Rui Ramos

Sim, temos dos piores números da epidemia na Europa: há vários dias que morrem em Portugal mais de quatro pessoas por hora com Covid. Sim, fomos dos países cujas economias menos cresceram no mundo nas últimas duas décadas. Sim, passamos, há vinte anos, pelo mais longe período de divergência em relação à Europa ocidental desde a II Guerra Mundial.

Sim, nunca na nossa história nos vimos tão dependentes do exterior, com uma das maiores dívidas da Europa, que só a política do BCE viabiliza. Sim, continuamos à espera do julgamento do primeiro chefe de governo, na nossa história democrática, acusado de corrupção e suspeito de conspirar contra o Estado de Direito. E sim, tudo isso aconteceu sob governos socialistas, que foram quase sempre os governos deste país nos últimos 25 anos. Mas enquanto a mortalidade sobe, eis que o partido que nos governa também sobe nas sondagens, à frente de todos os outros.

Quadro de David Teniers Li Le Jeune

Em abril do ano passado, falaram-nos de milagre a propósito da epidemia. Como vemos agora, não houve milagre epidemiológico nenhum. Mas na política, sim, há um milagre: está no aparente conforto com que a elite do poder preside em Portugal à crise epidemiológica, ao declínio econômico, e à degradação institucional.

Nos EUA ou no Brasil, vimos governantes justa ou injustamente responsabilizados pelas infecções e pelas mortes.

Em Portugal, com as suas emergências cheias de excepções para o PCP e com as suas embirrações ideológicas contra parte do sistema de saúde, o governo parece livre de errar e de vacilar sem quaisquer custos. Basta-lhe anunciar que as escolas ficam abertas para, no meio do descalabro, arrancar palmas a uma plateia aparentemente desesperada por arranjar motivos para aplaudir.

Milagre? Não há aqui milagre nenhum. O que há é poder, e um poder como a sociedade portuguesa nunca conheceu desde 1976. E não conheceu, porque nunca, como até hoje, um partido dominou tanto o Estado, e nunca o Estado dominou tanto uma sociedade cada vez mais enfraquecida e dependente. Por isso mesmo, é que ao poder socialista se pode aplicar o proverbial dito do quanto pior, melhor.

Quanto mais acentuada a estagnação económica e quanto mais devastadora a opressão fiscal, menos há na sociedade civil barreiras ao Estado e menos há no espaço público contestação ao poder socialista. Eis porque a pandemia foi, para o socialismo, um presente dos deuses. Fechou empresas, fragilizou outras, e submeteu ainda mais gente aos favores públicos.

Sim, temos um Estado falido, mas que, garantido pelo BCE, é agora, com as ajudas europeias, a grande fonte de dinheiro num país onde o que não foi estrangulado pelo fisco e pela regulação, acabou demolido pelos confinamentos. Perante isto, o que há de milagroso na ânsia com que se aplaude os donos do país, ou no medo de opinar contra eles? É que a oligarquia socialista não se distingue apenas pelo poder que acumulou, mas pela brutalidade com que o exerce.

O mês passado, o chef Ljubomir Stanisic atreveu-se a protestar, como se faz nos países democráticos. Ei-lo imediatamente exposto em escutas telefónicas comprometedoras, como acontece nos países não democráticos. Esta semana, soubemos que o Ministério Público passou a vigiar e a perseguir jornalistas a pretexto do mitológico“segredo de justiça”. Entretanto, os donos disto tudo nos pedem para estarmos muito preocupados com a democracia – nos EUA.

Em outros tempos, isto acabaria quando acabasse o dinheiro. Agora, porém, o BCE nunca deixará que o dinheiro acabe. Não haverá outra crise de dívida soberana como em 2010-2011. Aliás, mudanças de poder nunca são simplesmente um efeito de crises, como é costume pensar. São, acima de tudo, produto do dinamismo de uma sociedade.

Em 1979, a vitória da AD, após cinco anos de esquerdismo, não foi apenas consequência da austeridade negociada pelos socialistas com o FMI em 1978, ou do gênio de Francisco Sá Carneiro. Tudo isso contou, claro. Mas além disso havia uma sociedade que, embora mais pobre do que hoje, dispunha de focos de independência econômica, como a indústria e a agricultura que, no Norte, haviam escapado às expropriações e nacionalizações que o poder militar, por cálculo, conteve a sul. Mais: era uma sociedade mais jovem, que passara não apenas pela revolução de 1975, mas pela convergência econômica com a Europa nos anos 60, quando começou a comprar televisões e automóveis.

Passara a ter expectativas de ascensão social. Acreditava na possibilidade de viver melhor, o que muitos, aliás, tinham experimentado, enquanto colonos, nas cidades de Angola e de Moçambique. E claro, o horizonte da adesão à CEE justificava otimismos. Por tudo isso, cansou-se da estagnação revolucionária, e foi capaz de apreciar um líder político crítico do sistema e de votar decisivamente por uma alternativa, como fez em 1979 – a primeira vez, na história de Portugal, em que partidos da oposição chegaram ao governo por via eleitoral.

Uma sociedade envelhecida e dependente não tem os mesmos recursos para sustentar dissidências e alternâncias. Não por acaso, todas as forças políticas decaíram. Comunistas e neocomunistas desistiram das suas manifestações, greves gerais e contestação na comunicação social, e tornaram-se, através da geringonça, meras tendências dentro da holding socialista. Foi assim que tivemos o primeiro governo, desde 1975, que jamais enfrentou uma manifestação, nem paredes pintadas a mandá-lo embora. À direita, a crise e a tentação de colaborar é a mesma. Nunca a direita valeu tão pouco, nem mesmo em 1975. O PSD desespera do futuro do seu aparelho autárquico. O CDS foi arruinado pela facção que o dirigiu até ao ano passado. As fragilidades são tão grandes, que nem foram capazes de resistir à manobra socialista para, aproveitando a participação do Chega na nova maioria açoriana, tornar uma derrota dos socialistas num “problema” — da direita.

Fazer oposição, divergir das opiniões recomendadas pela oligarquia socialista tornaram-se opções de custo elevado. Thomas Jefferson disse que “nem toda a diferença de opinião é uma diferença de princípio”. Para os situacionistas – socialistas, comunistas, neocomunistas e os seus compagnons de route à direita – toda a diferença de opinião é necessariamente uma diferença de princípio, no sentido em que quem não concorda com o poder socialista, não é “democrata” e agora, como se viu nas acusações de António Costa a Paulo Rangel, também já nem é “bom português”.

Nada disto é novo em Portugal. O Dr. Salazar tinha o hábito de acusar toda a oposição de ser comunista e antipatriótica. Os atuais situacionistas seguem a velha cartilha: todos os seus críticos são, só por isso, “radicais”, “populistas”, potenciais “assaltante do Capitólio”. Com esta intransigência, sabem o que fazem: reduzem o debate político à questão de saber quem é “fascista”, e arrogam-se o direito de excluir do espaço público todos os que não estão nas listas dos “bons”.

Eis como a mortalidade pode bater recordes, o SNS pode entrar em colapso, o governo pode mentir, a imprensa pode ser perseguida, e toda a gente, mesmo à direita, continua demasiado ocupada a afligir-se com a “direita iliberal”. É significativo quando só uma candidata tresmalhada da área socialista diz o evidente, que é já termos no poder em Portugal uma espécie de Viktor Orbán (o qual não, não é claramente André Ventura). Eis o milagre português: é sinistro. E é triste.

Título e Texto: Rui Ramos, Observador, 15-1-2021

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