sexta-feira, 15 de abril de 2022

[Daqui e Dali] Os amores de Salazar

Humberto Pinho da Silva

O conceito que se tem de Salazar é de político solitário, déspota e por vezes impiedoso. Mas seria o estadista, realmente, assim?

Ou seria amoroso, mas cujo coração foi endurecido pelas constantes humilhações e afrontas sofridas na infância e adolescência?

Nesta despretensiosa crônica vou olvidar a vida política do estadista, abordando apenas a faceta amorosa, quase desconhecida, do antigo Presidente do Conselho (de Ministros).

Dos amores que se conhece, destaca-se talvez a primeira paixão pela prima Ida, filha de modestos lavradores.

A moça era formosa, loira e bastante elegante. Escreveu-lhe – talvez por timidez receou falar-lhe pessoalmente, – romântica missiva, declarando o amor que lhe brotara do peito. Confusa, aconselhada pelos pais, a cachopa recusou, receando não estar a nível de poder namorar um doutor...

Mas o grande amor, quiçá o mais sincero e mais arrebatador – foi pela filha do patrão de seu pai.

Conheciam-se desde a meninice. Eram amigos, e companheiros de infância.

Dessa inocente amizade germinou, entre ambos, um grande amor.

A mãe da menina tinha o rapaz em grande estima, e deveras admirava-o pela sua excecional inteligência. Criara-se em sua casa, sob sua proteção maternal, mas jamais poderia aceitá-lo como genro.

Certo dia de verão reparou no lânguido olhar do jovem, e principalmente no jeito enternecido como a filha lhe falava, e desconfiou que podia haver possível namorico.

Resolvida a cortar o mal pela raiz, chamou-o recatadamente, e de fisionomia carrancuda, disse-lhe:

"António: tu sabes como sou tua amiga. És inteligente e chegarás, por certo, muito longe. Mas é bom não esquecer: serás sempre, para nós, o filho do feitor... Não quero intimidades com minha filha".

Passaram-se vinte anos depois dessa severa reprimenda, que dolorosamente feriu o orgulho de Salazar. Dona Maria Luísa – mãe da menina, – telefonou-lhe.

Feita a ligação, pergunta-lhe cordialmente:

"Ainda se lembra de mim?"

"Perfeitamente, minha Senhora. Daqui fala o filho do feitor de Vª Exª..." – respondeu-lhe, ironicamente, o Presidente do Conselho.

É igualmente sabido o grande afeto que Salazar sentia por Christine Garnier – jornalista que Bernard Grasset enviou para o entrevistar.

Quando Jean-Francois, filho de Christine, foi entrevistado pelo jornalista do "Público", António Melo, (18 de abril de 2000), declarou que a mãe, quando lhe falava de Salazar, exprimia-se carinhosamente, como "notre ami", e que ambos trocavam correspondência e prendas. Pelo Natal, Salazar sempre lhe enviava vinho do Porto.

O estadista amou-a... mas à sua maneira; e ela, em recato, nutria por ele intensa amizade... para não dizer amor.

Salazar teve ainda outros amores.... Foi amado por muitas Senhoras da alta-roda. Entre elas, fidalga da mais elevada linhagem.

Segundo a irmã de Salazar, a Senhora Marta, o estadista foi em petiz, um menino pobre, que gostava de passear com o "Dão", cachorro da família. Raras vezes brincava. Era tímido e muito meigo. Se uma mana fosse castigada, ia logo beijar a mãe, pedindo-lhe que a perdoasse.

Sentia pela progenitora amor extremoso. Quando ela esteve em agonia, aflito, passou, de pé, a seu lado, nove dias seguidos, a ponto de lhe incharem os pés de cansado.

O homem que dizia: "Sou um camponês, filho de camponeses." Se não fosse inteligente e não o tivessem enviado para o Seminário, seria humilde camponês, como seu pai. Talvez tivesse sido mais feliz, no amor, e certamente levaria vida mais tranquila...

Salazar nasceu a 28 de abril de 1889. Era filho de pobre trabalhador rural, que administrava, como feitor, a Casa dos Perestrelos, em Santa Comba Dão.

Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, abril 2022 

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