sexta-feira, 15 de abril de 2022

[Daqui e Dali] Que ingratidão!...

Humberto Pinho da Silva

Durante longos anos que fui redator de jornal local, realizei numerosas entrevistas a figuras públicas: industriais, grandes proprietários, políticos e artistas de renome...

Durante a conversa, perguntei também a alguns milionários como conseguiram obter os avultados bens.

Grande parte, informaram-me que na realidade, o mérito – se mérito havia nisso – era devido aos avós, que começando de quase nada, com grandes sacrifícios e privações, acumularam, aos poucos, avultados bens.

Mas, ao interrogá-los como se iniciou a fábrica, a indústria, a casa agrícola, a maioria respondiam-me de olhos vagos, balbuciando:

"É uma boa pergunta! Sabe? Nunca tive o cuidado de saber. Vou tentar informar-me, junto de familiares, para lhe dar os dados que precisa."

Diretora de importante instituição, a quem fui recolher elementos para a biografia do tio. Benemérito, que fez fortuna na América, e como não tivesse descendentes, tudo deixou para se criar a fundação, olhou-me espantada, e apontando, com o indicador direito, solene retrato, ricamente emoldurado, pendente na parede do salão nobre, limitou-se a dizer-me:

"Meu tio..."

Nada mais conhecia que o retrato, mesmo sendo a responsável... De sorriso envergonhado, confessou-me que ia investigar…

Outra senhora, muito afável, sobrinha de ricaço, cujo pai herdara do irmão incomensurável fortuna, pouco conhecia desse tio, nem foto tinha. Se quis ilustrar o texto, não tive outro remédio, senão fotografar a lápide, que estava no cemitério!...

Certa ocasião coube-me entrevistar figura conhecida da cidade do Porto, para publicar curta biografia do pai.

Recebeu-me, amavelmente, no luxuoso gabinete, lamentando não poder ser-me útil, porque do pai, só conhecia o nome e pouco mais...

Argumentou que em criança o paizinho contava curiosas peripécias ocorridas durante a infância, na casa dos avós, mas nunca lhe prestara atenção. Não lhe interessava saber velharias, e cenas do passado...

Admirava-me, de início, que não soubessem, nomes, datas e curiosidades da vida dos ascendentes (pais e avós,) mas fui concluindo, estupefato, que estavam mais interessados nos bens que herdaram, que lhes permitia viverem folgadamente, que conhecerem, verdadeiramente, quem eram e o que fizeram os pais e avós...

Que pura ingratidão!...

Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, março de 2022 

Anteriores: 
Em ditadura ou democracia é mister ter "padrinhos" 
Instruir é o mesmo que educar? 
Uma parábola edificante 
Como está ou como passa? 
Silvério está com a neura 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-