sexta-feira, 1 de abril de 2022

[Daqui e Dali] Em ditadura ou democracia é mister ter "padrinhos"

Humberto Pinho da Silva 

Ao reler Érico Veríssimo deparei, em Olhai os Lírios do Campo, a passagem referente ao homem que desejava ir para o hospício.

Este, ironicamente, esclarecia que estava louco, nunca perdera o ponto. Só faltava ao trabalho por doença grave. Nunca aceitara gorjeta. Achava que o funcionário público tinha obrigação de atender todos com presteza. O que arranjou com isso? Nada. Os malandros subiram. Ele ficou.

O lúgubre desabafo desse inditoso homem ao Dr. Eugênio fez-me recordar, com mágoa, operário – que subiu a pulso na hierarquia de empresa – que conheci na última década do século vinte, que durante quase quarenta anos labutou arduamente, e no crepúsculo da vida profissional apartaram-no do cargo, por estar velho!... 

Foi o que lhe disseram, mas a verdadeira razão era colocar no seu lugar, trabalhadora militante do partido dos patrões. De olhos taciturnos e baços, dizia-me amarguradamente: "Quantas vezes trabalhei para além das horas obrigatórias, para que o serviço estivesse pronto à hora combinada. Não ganhava mais por isso, apenas recebia um muito obrigado... quando recebia! Os meus camaradas riam-se à socapa dessa dedicação e murmuravam entre si "ainda vai receber medalha de cortiça!...

Não ganhei de cortiça, nem de prata, nem de ouro... mas surpreenderam-me quando me louvaram pelos anos de lealdade.

Alegrei-me: afinal fui reconhecido!... Meses depois – três – o capataz, já falecido, chamou-me para informar que estava próximo de ser aposentado. Merecia, portanto, descansar...Teria, no tempo que restava, menos tarefas, portant,o redução de salário, mas devido à idade, compensa!...

Ainda levantei a voz em modesto protesto, mas o capataz-chefe, aos brados, abafando as minhas tímidas palavras de espanto, vociferando quase histericamente: "Foram eles!... Foram eles!..." (Eles quem?!)

Hoje, o taciturno homem, quando me cruzo com ele, na rua, vejo-o de passo compassado, rosto envelhecido e macerado, de semblante descaído e sorumbático, e fico a cogitar:  quantos, como ele, ainda julgam candidamente que – ser honesto, respeitador e cumpridor, basta para ser compensado?!

Esquecessem os ingênuos que nos nossos dias o sucesso não depende apenas da inteligência, dinamismo e dedicação. Para alcançar cargo iminente, em qualquer firma importante, além desses predicados, é mister ser militante de partido do poder, e, principalmente, possuir "padrinhos" poderosos.

Disse nos nossos dias, mas diria muito melhor: sempre assim foi, em democracia ou ditadura...

Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, março de 2022 

Anteriores: 
Instruir é o mesmo que educar? 
Uma parábola edificante 
Como está ou como passa? 
Silvério está com a neura 
Dois exemplos de lares desfeitos

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-