terça-feira, 26 de julho de 2022

[Livros & Leituras] Inquisição e Cristãos-Novos

Obra de António José Saraiva, redação concluída no verão de 1964. Edição em mãos: da Gradiva, julho de 2019.

«Alguns autores parecem dar como cousa óbvia a justiça, imparcialidade e isenção dos juízes inquisitoriais, e como fundamentadas, salvo prova em contrário, as acusações que constam das sentenças. […] É esta uma presunção temerária, porque o processo inquisitorial, como veremos, era secreto, sem apelo, e deixava nas mãos dos inquisidores o poder praticamente absoluto e arbitrário de condenar ou absolver. E por outro lado o Tribunal do Santo Ofício, que vivia sobre os bens confiscados dos réus e a quem convinha demonstrar que o Judaísmo se multiplicava, era parte interessada nos processos.»

Inquisição e Cristãos-Novos é, 50 anos após quatro edições fulgurantes, a melhor introdução a um universo kafkiano que o presente imita sob outras formas.

Leia aqui o Prefácio.

Durante a leitura deste livro, meu cérebro não conseguia fugir do STF, tal a aterradora semelhança entre o Tribunal do Santo Ofício e o Supremo Tribunal Federal, seiscentos anos depois!

Páginas 64 e 65:

“ (…) Não faltou quem se encarregasse de estimular e organizar esta transferência do ódio ao Judeu para o Cristão-Novo. Acima de todos, os pequenos clérigos, em que se distinguiam os frades dominicanos. Eles desempenham em Portugal como na Espanha um papel decisivo no desencadeamento dos progroms. Tal como em 1449, são eles que estão à frente da matança iniciada em 19 de abril de 1506 em Lisboa.

No decorrer de uma cerimônia religiosa na Igreja de São Domingos, um homem que participava no culto, no momento em que o povo gritava ‘milagre’ à vista de um resplendor que saía de um crucifixo, teve a ideia inoportuna de argumentar que se tratava apenas do reflexo de uma vela.

Foi logo taxado de “Cristão-Novo”, morto e queimado in loco. Dois frades dominicanos brandindo crucifixos excitaram os fiéis aos gritos de “heresia, heresia!”.

Durante três dias a cidade esteve nas mãos dos amotinados, que pilhavam as casas, atiravam mulheres e crianças da janela à rua e acendiam por toda a parte fogueiras onde ardiam vivos e mortos. Bandos de embarcadiços nórdicos de passagem por Lisboa participaram na pilhagem e no massacre.

Houve perto de dois mil mortos na cidade, segundo Damião de Góis, entre eles João Rodrigues Mascarenhas, cobrador de impostos reais, um dos homens mais ricos de Lisboa.
O Rei, ausente no Alentejo, reagiu com energia: pena de morte e confiscação dos bens para os malfeitores; castigos para os cúmplices passivos; punição coletiva da cidade com a abolição de alguns dos seus privilégios. Mandou queimar os dois frades provocadores, depois de lhes fazer tirar as ordens.

É isto pelo menos o que diz o cronista Damião de Góis, mas parece que afinal os dois frades escaparam na confusão, porque trinta e seis anos depois estavam vivos e participavam ativamente em Roma no negócio da Inquisição, ao serviço de D. João III.”

Recomendo a leitura.

Fettmilch Riot: The plundering of the Judengasse (Jewry) in Frankfurt, Holy Roman Empire on August 22, 1614

Vincent Fettmilch was a grocer and baker, who moved to Frankfurt in 1602, and is best known for leading a pogrom against Jews. His birth year is unknown. He led the Fettmilch uprisings (1612-1616), which lead to the storming of the Judengasse, (Jew’s lane) on August 22, 1614.

The Jews of Frankfurt were expelled for two years, until 1616, when the emperor intervened, retaking the city, and issuing an imperial ban on Fettmilch and his co-conspirators, Konrad Gerngross, a joiner, and Conrad Schopp, a tailor. Imperial soldiers guided the Jews back into Frankfurt, and Fettmilch was put to death in the Horse Market on February 28th, 1616.

This had been one of the last pogroms in Germany, until the rise of the Nazi party in the 20th century.

Para saber mais:
Cristãos-novos na Wikipédia
Inquisição, jesuítas e cristãos-novos em Portugal no século XVI 
Cristãos Novos e Cristãos Velhos em Portugal

Anteriores: 
O mistério do capital 
A mentalidade muçulmana 
O homem eterno, de G. K. Chesterton 
Em busca de sentido, de Victor E. Frankl 
Conflito de Visões – Origens Ideológicas das Lutas Políticas 
Amor de Perdição 

Um comentário:

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-