domingo, 24 de julho de 2022

[As danações de Carina] ‘Maracuteta’

Carina Bratt 

ASSIM DO NADA, sem saber que era eu... pior, sem saber quem era eu, você chegou. Veio de um espaço existente no oco do tempo, de um desvão aberto de lugar sem sentido nenhum. Surgiu, a sua figura máscula e esbelta, e se fez presente, se materializou, elegante e formoso e se engrandeceu no meu corpo. Sem que eu dessa ordem expressa, ou permitisse, você se aproximou afoito, destrambelhado e incontrolável. 


Não parou aí. Continuou vindo, chegando, se aproximando, cada vez mais forte e pressuroso, impaciente e afadigado, tão desesperado como um mendigo... e se lançou num resto de comida, como um viajante cansado, abatido, esfomeado em meio de um temporal de vacas magras, sem nada para mastigar o sorriso que apesar dos transtornos, insistia irrequieto e sem futuro. 

Todo você, eu percebi, caminhava ao deus dará. Sem prumo, sem direção ou norte. O sorriso cativante dançava ao sabor de um vento gostoso e ameno sequer dava tratos à bola. Persistia, incansável em seu rostinho de feições ‘meninescas’. Da mesma forma como você chegou, ato contínuo o seu todo poderoso se abrigou no refúgio da minha alma e se firmou lá dentro, memorável, intocável, senhor de si e pior, de mim. 

No minuto seguinte você me comeu todinha. Grosso modo, me traçou saboreando cada naco pelas beiradas, até que, de repente, agora mais irrequieto e sem controle, seu amor se quadruplicou. Me deixou sem forças, me fez vencida, os quatro pneus furados, me deixou doida varrida, sedenta, ganhada, conquistada, tipo assim, como uma canoa (imagine uma canoa) ao acaso de um oceano no meio de um mar infinito e olha que coisa interessante: me devolveu a identidade perdida. 

Se sonho ou realidade, se realidade ou sonho, ou os dois, não sei explicar agora, encarcerado no meu chão de piso irregular, você seguiu em frente. Se destacou entre ventos soprando forte, venceu contratempos e infortúnios, tempestades e temporais. Você passou ileso por mudanças bruscas do meu destino incerto e, vitorioso, alcançou o apogeu, a culminância do ápice saboroso do amor carnal que dormia em mim. 

Você fez isso entranhado na solidão que me definhava no embalar do pouco a pouco a vida sem motivo ou razão aparentes. A tristeza que havia ao meu redor, se desencantou das mágoas ocultas. Por fim, o sol radioso e belo, dissolveu as nuvens negras que pairavam sobre a minha cabeça. De repente, igualmente de repente também, assim do nada, do nada, assim... assediada pelo tudo, o encanto majestoso se desfez. 

Sério! Virou nada. A Fênix viva, voando daqui e dali alegre e saltitante, voltou às garras frias da morte. Caiu por terra a sua realeza esfacelada, arrebentada, decomposta, adulterada, completamente em pedaços. Não só ela: de roldão, se foi eu, você, nosso sonho edificado. Num piscar de olhos, tudo em redor e dentro de mim, virou borralha. A alucinação momentânea, a divagação, o surto apetitoso, tudo, tudo, sem tirar nem pôr, retornou, incontinenti, às cinzas.    

Título e Texto: Carina Bratt. Da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. 24-7-2022

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