domingo, 10 de julho de 2022

[As danações de Carina] Da ‘curtivação’ doente à falência séria da pobre ‘curtura’

Carina Bratt

ANALICE DA CONCEIÇÃO, minha amiga de academia, me disse na lanchonete, enquanto tomávamos um suco de laranja ao natural e (antes de começarmos as malhações), que na pracinha da igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Prainha, em Vila Velha, foi colocada uma geladeira. A dita estava de frente para a porta principal da entrada da Casa Paroquial, contígua às paredes do pequeno e majestoso santuário. Quase encostada a ela, o busto recém-construído de um prefeito vagabundo, que morreu vitimado pela Covid-19, logo que a pandemia teve início.

A tarde do mesmo dia, com tantos pontos de referências, não tinha como não encontrar o tal refrigerador. O congelante da marca Frigidaire 1958 é uma armação de compleição ‘gordachudinha’ bem antiga, pintada de vermelho, com a inscrição de ambos os lados. ‘Aqui curtivamos a curtura’. Calma, calma queridas amigas. Não errei ao ler. É ‘curtivamos’ mesmo, seguida da grafia igualmente descuidada da palavra ‘curtura’.

Acho que a pessoa que escreveu, o fez de forma correta (para ele), embora não tenha atentado, como deveria, ser o certo, para a língua portuguesa. O erro grosseiro e inaceitável foi de quem fez a pintura e assentou as letras.

A função dessa obesa dos tempos remotos, é a troca de livros. O interessado leva um que acabou de ler e pega outro que ainda não tenha tomado conhecimento do enredo.

Segundo a Analice da Conceição, existem títulos para todos os gostos: romances, poesias, ação, contos, crônicas, policial, autoajuda... enfim, a procura tem sido imensa. Costumam frequentar a ‘biblioteca’ alunos e estudantes das duas escolas locais, praticamente edificadas quatrocentos metros uma da outra.  A que encabeça a lista é a Escola Estadual de Ensino médio Godofredo Schneider e a Segunda o Colégio Marista, estabelecimento detendo o maior número de alunos em suas dependências.

Aos domingos, casais de namorados se sentam nos bancos espalhados para trocarem beijos e poesias, com pitadas de trechos compostos por Castro Alves, Ferreira Gullar, José Mauro de Vasconcelos, Paulo Coelho, Ariano Suassuna e tantos outros figuraços do nosso mundo literário. A gama de títulos é enorme e o leitor voltará satisfeito para casa. Aquando fui ver a coisa de perto, como disse, nessa mesma tarde, fiz a gentileza de deixar dois livros de Jorge Amado e passei as mãos em Luiz Fernando Veríssimo e Machado de Assis.

Uma semana depois retornei e a ideia se constituía em devolver o Veríssimo e o Machado lidos e pegar outros que ainda não tivesse pregado os olhos. Meu espanto, na hora da devolução, foi deveras tenebroso. Na praça, quase à entrada do Convento da Penha, o quadro se fazia depravado e horrendo: um bando de pombos, rapazes discutindo futebol e um amontoado de idosos jogando dominós e cartas de baralhos. Ao abrir a bolostrofe, quase caí de costas. Dentro, uma centena de cigarros (não os comuns), de maconha mesmo. Os conhecidos 'baseados'. Sem falar no cheiro forte do produto.

Num repente, euzinha me pus no lugar da infeliz. E também do ‘professor’ que ‘escrevinhou’ ‘curtivamos’ até a ‘curtura’. Tive a impressão que a velha geringonça imortalizada pelo cearense Belchior, em uma de suas lindas canções, deveria estar com os respiradores do nariz em pandarecos. Cheguei a imaginar, num breve momento, que não passou de uma rápida e rasteira piscadela, à minha pessoa, culminando com um olhar de tristeza e de dimensões infinitas seguida de uma agonia jamais sonhada. Grosso modo, uma senhora que no fundo, me pedia socorro. Estava claro que o seu corpo e as suas entranhas de geladeira maltratada, sofriam os horrores daquele insano deplorável. 

Concluí que a ideia da biblioteca ‘geladeiral’ merecia aplausos, todavia, o fim pretendido não correspondeu à ideia original de quem brilhantemente tivera a iniciativa de colocá-la em prática. Observei que o mal dessa chaga, 'a droga', virou um problema mundial que não tem mais quem dê jeito. De roldão, me veio à lembrança a Cracolândia no centro de São Paulo. Um espaço perdido, um território no meio da maior cidade do país, como o Vaticano, no coração de Roma, na Itália.

Claro que existe uma diferença gritantemente fenomenal: em Roma, na Praça de São Pedro, por detrás dos insondáveis muros das podridões das batinas e sacristias, a gente se depara com os sete pecados capitais, perdão, com os oito. Quase me esquecia do Papa. Na Cracolândia, além da falta de respeito à vida, ao semelhante, ao ser humano e a degenerescência na sua maior forma de expressão, engolimos a pouca vergonha dos nossos homens de governo, ou seja, amigas, damos de fuça com os políticos corruptos, safados e flibusteiros.

Em caminho paralelo, os nossos jovens, por sua vez, levados pela má formação familiar, ansiados pelas ‘desgraças da curiosidade’ e incentivados pelos ‘amigos e pelas turminhas das escolas’ e das peladas no velho campinho desativado em frente ao 38º BI e antiga estação das barcas para Vitória, se vejam e se achem perdidos em derredor de um quadro dantesco, terrificante e sem volta. Sem falar, queridas amigas, que a cultura, por ser rebaixada à ‘curtura’, não se propagou, como também a sua ‘curtivação’. Pode ser que, em decorrência disso, a geladeira da pracinha de Nossa Senhora do Rosário não tenha como alimentar os caminhos da retidão, ou, via outra, não consiga reunir forças suficientes para difundir e disseminar as auspiciosas sendas da nobre e devastada cultura.

Tenho em conta que o idealizado por alguém brilhante, pretendia fazer algo em troca de dias melhores, pelos leitores de primeira viagem, contudo, falhou. A Cultura, realmente, acabou mal das pernas, se fez em pandarecos. Se flagrou humilhada, desprezada, desacreditada, ‘maltrapilhada’, como sempre, da forma mais abrangente: se desintegrou literalmente em esdrúxula “curtura”.

Título e Texto: Carina Bratt. Da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. 10-7-2022

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