terça-feira, 16 de junho de 2020

[Livros & Leituras] Gomorra, de Roberto Salviano

“’A guerra de Camorra é uma guerra não declarada oficialmente, não reconhecida pelos governos e não relatada pelos repórteres. É uma guerra que sentimos dentro de nós. Quase como uma fobia. Um medo que se instala sob a pele.’

O cenário tem nomes glamourosos como Angelina Jolie, entre outras celebridades do jet-set internacional. Mas o glamour para por aí. Esta incrível e perturbadora viagem ao criminoso mundo dos negócios da Camorra começa e termina sob o signo das mercadorias, do seu ciclo de vida, de sua ‘linha de produção’.

As mercadorias ‘frescas’, logo que nascem — objetos de plástico, roupas de grife, videogames, relógios —, desembarcam diariamente no porto de Nápoles para serem armazenadas e escondidas em prédios propositalmente esvaziados de tudo.

Já as mercadorias ‘mortas’, vindas de toda a Itália e de boa parte da Europa, sob a forma de resíduos químicos, material tóxico e até mesmo cadáveres e esqueletos humanos, são clandestinamente ‘despejadas’ nas terras da região da Campânia. E lá contaminam, dentre toda a população, os próprios boss da Camorra, que constroem, sobre aqueles terrenos, suas mansões luxuosas e nababescamente absurdas — datchas russas, villas hollywoodianas, verdadeiras catedrais de cimento ornadas com os mais preciosos mármores —, que não servem somente para demonstrar a conquista do poder, mas também para revelar utopias delirantes, pulsões messiânicas e obscurantismos milenares.

Essa é a Camorra de hoje, ou melhor, o ‘Sistema’. De um lado, uma organização empresarial com impressionantes e até inimagináveis ramificações por todo o planeta, uma mancha cinzenta que está se espalhando como um vírus letal, na qual é difícil distinguir quanta riqueza é produzida diretamente com sangue e quanta por meio de fraudulentas operações financeiras.

De outro, um fenômeno criminoso profundamente influenciado pela espetacularização midiática, na qual os boss se inspiram para se vestirem e se deslocarem como estrelas do cinema e criaturas do imaginário coletivo — dos gângsteres de Tarantino às sinistras aparições de O Corvo, com Brandon Lee.

Figuras como Gennaro Marino McKay, Sandokan Schiavone, Cicciotto di Mezzanotte, Ciruzzo, o Milionário, se não carregassem nas costas centenas de assassinatos, poderiam parecer iguais em tudo a personagens inventados por um cineasta excessivamente criativo.

Neste livro cativante e rigorosamente documentado, Roberto Saviano reconstrói tanto as temerárias lógicas econômico-financeiras e expansionistas dos clãs do território napolitano e casertano, desde Secondigliano até Casal di Principe, como também as fantasias vivas que conjugam as lógicas empresariais com o fatalismo fúnebre dos samurais da Idade Média japonesa.”

“Sinto-me humilde, quase insignificante, perante a dignidade e a coragem do escritor e jornalista Roberto Saviano, mestre de vida.”
José Saramago

“A máfia representa um problema muito mais sério do que aquele que tive de enfrentar. Um perigo terrível ameaça Saviano.”
Salman Rushdie

O livro foi lançado em 2006, pela editora Mondadori. Traduzido e publicado no Brasil em 2009 pela Bertrand Brasil, o livro foi o sétimo mais vendido no Brasil em 2009 na categoria "não-ficção", conforme levantamento da revista Veja.

Em Portugal, foi lançado em 2008 pela Caderno.

Li a reedição de 2018 da Reverso para a revista SÁBADO/Cofina Media.

“Roberto Saviano [foto], jornalista e escritor, nasce em Nápoles em 1979 e publica Gomorra em 2006. Duas datas obrigatórias, dois anos cravados na sua biografia. “É inegável que na minha vida existe um antes e um depois de Gomorra”, o primeiro dos seus livros, logo best-seller internacional, editado em mais de meia centena de países, adaptado ao cinema – no filme realizado por Matteo Garrone, que em 2008 venceu o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes – e a série de TV (a caminho da quarta temporada).


Há mais de uma década que Saviano vive sob escolta, sempre em parte incerta, deslocando-se em carro blindado, acompanhado de cinco a dez carabineiros, escapando às garras impiedosas da Camorra, a organização criminosa que conseguiu denunciar, página por página.

Continua a publicar livros (A Beleza e o Inferno, ZeoZeroZero ou Os Meninos da Camorra, o seu primeiro romance), a escrever textos e artigos de opinião nas redes sociais e a manter colaboração regular em jornais italianos e estrangeiros, como The New York Times (EUA), El País (Espanha), Die Zeit (Alemanha) ou The Guardian (Inglaterra).

Galardoado com vários prêmios pelos seus livros e pelo seu empenho cívico, Saviano tem recebido, ao longo destes anos, expressões de solidariedade de consagrados escritores, desde os Nobel José Saramago e Mario Vargas Llosa a Salman Rushdie, britânico de origem indiana, condenado à morte pelo regime iraniano depois de lançar Os Versículos Satânicos (1989).
JP, 16-6-2020

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