domingo, 16 de dezembro de 2018

[Pensando alto] Secos & Molhados (I)

Pedro Frederico Caldas

Dança: uma expressão perpendicular de um desejo horizontal.
Bernard Shaw

Não se aproxime de uma cabra pela frente, de um cavalo por trás ou de um idiota por qualquer dos lados.
Provérbio judaico


Sob este título escreverei sempre que aborde mais de um assunto em pequenas doses. Se este texto recebe o título de Secos & Molhados (I) é porque pretendo escrever uma série. Não sei quando escreverei o Secos & Molhados (II). Não mando nos temas que escrevo, eles mandam em mim.

A DANÇA QUE NÃO DANCEI – Jovem, dançava algumas vezes com segundas intenções. Às vezes, com terceiras e quartas também. Ao chamar uma moça para dançar, sempre me sentia como o Lobo Mau se acercando de Chapeuzinho Vermelho. Parecia uma enceradeira rodando num cantinho do salão, ao som de músicas românticas que falavam de amor.

As mulheres não eram chamadas de “preparadas”, “cachorras” ou de qualquer outro termo depreciativo. Eram o objeto de nosso amor e afeto. Tudo era impulsionado pelo romantismo daqueles tempos. 

Passada minha fase de galã de fancaria, já casado, marcado a ferro, arreado, encabestrado e domesticado por Nêga, apareceu a dança dos meus sonhos, a lambada! Como morria de inveja ver o cabra agarrado na moça dando aqueles volteios em que as pernas e algumas coisas mais dos dançarinos se encaixavam! Ficava só olhando e suspirando: ah, se fosse em meu tempo!

Ilustração: Nei Lima
Mas, que nada!, os tempos são outros. Quando a dança acaba, apesar de todo aquele arrocho, o meliante sai numa boa, sem procurar disfarçar, como se aquela dança, tão lasciva, nada significasse para ele, como se estivesse enfarado, como se nada mais suscitasse os seus mais naturais e primevos desejos.

Nêga quando ler estas linhas vai me repreender com beliscões morais. Vou baixar a cabeça e me fazer de arrependido, como sempre. Depois, quando estiver sozinha, vai escorregar um sorriso no canto dos lábios e pensar: esse é o Nêgo safado de que gosto...

NOVILÍNGUA – Há um livro importante que bem retratou o sistema de controle do comunismo na União Soviética sobre as pessoas e a angústia de viver sob tal sistema. Trata-se da inspirativa obra de George Orwell intitulada 1984, que muita gente faz citações de segunda mão sem ter sequer manuseado o livro. Isso não importa.

Muitas vezes é melhor conhecer uma obra através de um bom intérprete do que se perder em seus meandros. Nessa obra, dentre outras coisas, o autor destaca aquilo que batizou de novilíngua, centrada na criação de palavras que representavam o oposto da realidade que, pela sintaxe, procuravam escamotear. Era a luva certa para o duplipensar. Por exemplo, a ditadura interna do partido era chamada de “centralismo democrático” e a maioria dos países comunistas adotaram o nome de “repúblicas democráticas”.

Fiquemos por aqui, mas um dia voltarei a esse tema. Como às vezes sou uma almazinha birrenta, há expressões com as quais implico e tento evitar. Vou-me centrar em uma delas. Quando Collor assumiu a presidência da república, sua equipe econômica, composta de jovens afoitos, era comandada pela ministra da fazenda Zélia Cardoso de Melo [foto abaixo]. Quase todos eles, principalmente ela, começavam qualquer debate ou entrevista com a expressão “veja bem”. Quem usa essa expressão assume uma espécie de ar professoral. É como se o interlocutor não estivesse à altura de quem fala e precisasse ser chamado aos eixos. Não dava outra, Zélia Cardoso de Melo compensava a falta de conhecimento em economia com o ar professoral que de tudo entendia e precisava chamar às falas aquele que não estava à altura de suas profundas meditações.


Esse termo grassou de tal forma que virou uma praga. Há muita gente que ao falar de fissão nuclear, camarão seco, física quântica ou moqueca de miolos, sempre introduzirá o tema dizendo: veja bem, a fissão do átomo...; veja bem, o camarão seco...; veja bem, a moqueca de miolos... E por aí vai.

O seu interlocutor, ao ouvir a introdução “veja bem”, já se põe intimidado como se fora incapaz de acompanhar o brilhante raciocínio em torno da quebra do núcleo do átomo, do ponto de cocção da moqueca de miolos, ou da intensidade dos raios solares na feitura complexa do camarão seco.

No debate, a esquerda acadêmica e seus seguidores pedestres adoram dizer “veja bem...”. Há uma outra expressão que domina esse mesmo arraial. Trata-se do “estou convencido que...”. Lula foi o seu maior propagador. Quando dizia “Estou convencido que as elites brasileiras odeiam ver o pobre comer iogurte”, a plateia delirava. Seus seguidores, mesmo os alfabetizados, entravam em frêmito. Se Lula estava convencido de alguma coisa, como os pobres mortais ousariam duvidar de suas profundas reflexões?

SEREI HOMOFÓBICO? – Essa palavra homofóbico está na categoria do que se pode chamar novilíngua. Pode dizer alguma coisa e pode não significar nada. Está na mesma categoria do termo “preconceito”.

A palavra preconceito perdeu seu significado. Na Rede Globo, com os seus artistas - aquelas figurinhas mais maravilhosas, generosas e corretas do mundo, quando entrevistadas -, preconceito não quer dizer mais nada porque passou a significar tudo, toda e qualquer opinião que se possa ter sobre qualquer coisa.

As palavras porra e preconceito são uma espécie de vírgula nos discursos vazios com que o rotundo Faustão preenche as tardes de domingo dos que precisam passar o tempo. Por sinal, se você está sorumbático ou sem saber o que fazer com o seu tempo, mande-o para o Faustão. Ele o preencherá com uma série interminável das palavras “porra” e “preconceito”.

Essa introdução é para falar de um tema que me preocupou. Quinta feira da semana passada, publiquei um texto intitulado “O Segredo da Confraria dos Últimos e os Homens que se Negam a Morrer”. Quando publico um texto, há os que comentam no próprio texto, no facebook, e há os amigos que me escrevem por messenger ou por e-mail. Um deles, por quem tenho muito apreço e admiração, me perguntou se não poderia ter soado um tanto preconceituoso ou, até, homofóbico. Depois de minhas explicações, ficou convencido de que não era nada disso.

Em outras palavras, fiz ver a ele que sou adversário de três posturas políticas que me parecem inadequadas, quais sejam, o politicamente correto, o multiculturalismo e a ideologia de gênero.

Disse que meu texto tentava afrontar ao mesmo tempo – o que não é fácil -, esses três temas. Ele sabe muito bem, porque pensa como eu, que os homossexuais só podem viver sossegados, respeitados e dar margem aos seus anelos em sociedades temperadas politicamente pelo conservadorismo. Isto porque os conservadores têm como base ideológica o respeito ao homem em toda a sua dimensão. Qualquer ser humano, para nós, é alvo de nossa constante preocupação e defesa. Consideramos o homem o centro do universo. Sem a presença do homem, o universo não faria sentido, não passaria de um amontoado de matéria e energia.

O homossexualismo não passa de um detalhe, uma preferência sexual que deve ser exercida sem empeço, sem repressões puritanas. Trata-se de uma condição humana, respeitável como qualquer outra. Por sinal, quando morreu um amigo meu, jornalista em Itabuna, declaradamente homossexual, abri uma exceção, pois não gosto de fulanizar meus textos, e fiz uma crônica sobre ele, talvez a maior homenagem que lhe foi prestada.

A verdade é que os homossexuais ganharam reconhecimento e respeito nas sociedades capitalistas, nos países que presam a liberdade e colocam o homem no centro de todas as coisas, que não o dissolvem no coletivo. Quem persegue homossexual é a esquerda radical e o islamismo. Já ouviram falar em passeata gay na Coreia do Norte, em Cuba, na Arábia Saudita, no Irã ou na China?

Antes que me chamem de sexista porque emprego a palavra homem como representação do ser humano, quero lembrar que um grande criminalista, salvo engano Roberto Lira (ou foi Nelson Hungria?) definiu poeticamente homem como “o gênero que abraça a espécie mulher”.

Ou então terei que fazer como o deputado alemão que levou um tempo enorme no parlamento saudando mais de quarenta tipos de gênero, numa das maiores e mais inteligentes gozações que já assisti. [Vídeo abaixo]

Finalizando, meu texto da semana passada não foi contra ninguém, foi uma homenagem aos heterossexuais, antes que seja proibido ser.
Um bom domingo para todos, héteros ou homos.
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, 23-11-2017


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2 comentários:

  1. Boa tarde senhor Pedro Caldas.

    Muito interessante o seu texto. Bastante criativo, por sinal. Gostei do "Parecia uma enceradeira rodando no cantinho do salão", seguido de "amontoado de boas intenções". A isto eu chamo de criatividade. Parabéns.
    Carina.
    Ca
    Belo Horizonte MG.

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    Respostas
    1. Obrigado pelas gentis palavras, Carina. Você me deixou feliz. Agora já sei que tenho uma leitora e, além disso, inteligente. Não precisa me tratar de senhor. Não passo de um garotão com uma longa estrada já percorrida. Um abraço.

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