sábado, 14 de novembro de 2020

Conheça a ONG dona da plataforma que criou um site usado pelo Sleeping Giants


Gazeta do Povo 

A Nossas.org é uma “rede de ativismo” que aglutina voluntários para fazer “pressão pública” por um “país mais justo e solidário”. Segundo o site da ONG, ela já contou com mais de 5,4 mil colaboradores que se dedicaram a projetos como o Programa de Mobilizadores, cuja descrição promete “treinamento em metodologias e tecnologias de ativismo”. 

A Nossas realiza uma série de programas focados em causas sociais. Alguns funcionam dentro da ONG, como é o caso dos sites Meu Rio, Minha Sampa, Minha Campinas, Minha Jampa e Meu Recife. Há também projetos que foram incubados dentro do Nossas, mas hoje funcionam de forma independente. 

O estatuto social da ONG é assinado pela fundadora do Minha Sampa e pela criadora do Meu Rio, Alessandra Orofino. Alessandra, que é diretora executiva e co-fundadora da rede Nossas, é responsável pela direção do programa de TV GregNews, apresentado por Gregorio Duvivier [foto], crítico do liberalismo e do conservadorismo. Ela também foi idealizadora e diretora de um vídeo apresentado pelo youtuber Felipe Neto – crítico ferrenho de pautas que se choquem com o progressismo – publicado no jornal norte-americano The New York Times em agosto deste ano. No vídeo, há pesadas críticas ao presidente da República Jair Bolsonaro e ao presidente norte-americano Donald Trump. 

Completam o time de líderes da ONG a diretora de projetos Enrica Duncan, o diretor de criação Rodrigo Arnaiz e a diretora de operações Virginia Rigot-Muller. O Conselho rotativo conta com a participação de Ana Carolina Evangelista, Ana Paula Lisboa, Branca Vianna, Roberto Andres, Felipe Estefan e Inês Lafer. A equipe é formada por 25 pessoas.

Doações milionárias 

Em seu site oficial, a Nossas informa que conta com doações de pessoas e fundações que acreditam em seu trabalho. De acordo com demonstrações contábeis, no ano de 2018 a rede recebeu um valor próximo a R$5,5 milhões somente em doações e contribuições. Quanto às receitas por serviços prestados a clientes, esse valor foi de apenas R$7,4 mil – isto é, 0,13% das receitas totais. Já em 2019, a entrada em doações e contribuições foi de mais de R$4,2 milhões, com entradas decorrentes de serviços prestados sendo referentes a menos de R$60 mil (1,4% do total). Por outro lado, o gasto com pessoal e encargos foi de R$2 milhões em 2018 e R$1,2 milhão em 2019. Os números demonstram que quase a totalidade de suas fontes de receita estão atreladas a doações, o que não é estranho quando se trate de organizações não governamentais. 

Ainda segundo os dados do balanço, a atuação da rede foca em criar projetos próprios por meio de uma equipe de profissionais remunerados com a receita vinda das doações. 

O cliente anônimo 

Um dos projetos incubados pela Nossas é o Bonde, uma plataforma de criação de ferramentas online para pressionar organizações. Os clientes compram a tecnologia que facilita o disparo massivo de e-mail contra os alvos escolhidos. O Bonde foi a tecnologia escolhida pela milícia anônima Sleeping Giants Brasil para tentar cortar todas as linhas de financiamento utilizadas pelo escritor Olavo de Carvalho, uma das vozes do conservadorismo brasileiro. 

No dia 26 de outubro, o Sleeping Giants colocou no ar o site Bloqueia Pag Seguro. A estratégia consiste em pressionar o CPP Investiments – um grupo de investimentos canadense que é acionista da PagSeguro – a retirar o valor de R$1,5 bilhão que possui investido na empresa caso a conta do filósofo não seja bloqueada. De acordo com o site, mais de 300 mil pessoas já participaram da campanha enviando e-mails para o CEO e para diretores da CPP Investiments.  

O Sleeping Giants parece ser um dos poucos clientes que não fazem parte da rede da Nossas. Procurada, a Nossas não respondeu aos questionamentos para tentar esclarecer a parceria com o Sleeping Giants. A Gazeta do Povo também perguntou sobre a participação de sua equipe de funcionários na gestão dos canais digitais do movimento e solicitou os nomes das fundações que contribuem com os valores que sustentam a rede de ativismo. A resposta será publicada assim que for recebida. 

Profissionais do anonimato 

A identificação da ONG Nossas é um dos poucos rastros deixados pelo esquema profissional de ocultação de dados adotado pelo Sleeping Giants. O grupo anônimo lançou mão de diversas estratégias para manter sua identidade em sigilo. O site está hospedado em um servidor estrangeiro, o que dificulta a obtenção de quaisquer dados de seus autores. Além disso, os desenvolvedores utilizam um serviço estrangeiro de proxy anônimo no registro do domínio para manterem suas identidades em segredo (no Brasil, há uma vedação legal ao anonimato, o que não permite a disponibilização desse tipo de serviço). 

Também não há nenhuma forma de contato revelada pelo grupo. O e-mail disponibilizado no site utiliza uma plataforma estrangeira que possui um sistema avançado de encriptação e tem os seus servidores localizados na Suíça. Isso significa que os dados dos utilizadores estão protegidos pelas leis de privacidade do país, tornando difíceis quaisquer formas de identificação. 

O código-fonte do site criado pelo Sleeping Giants Brasil faz menções (e utiliza a mesma estrutura) aos sites Meu Rio, entidade fundada por Alessandra Orofino, diretora do Nossas, e Minha Porto Alegre. Ambas as organizações fazem parte da ONG. De acordo com o site da Nossas, o Minha Porto Alegre foi fomentado pela ONG, mas hoje atua de forma autônoma “recebendo apoio em maior ou menor grau da equipe”. Por outro lado, o Meu Rio é gerido diretamente pela instituição. 

Ambos os domínios (meurio.org.br e minhaportoalegre.org.br) estão registrados no nome de Anna Enrica Duncan, que é Diretora de Projetos e Diretora Adjunta da ONG Nossas, de acordo com o site da entidade. 

Outro detalhe que chama a atenção: o perfil oficial do Sleeping Giants Brasil no Twitter, que tem mais de 400 mil seguidores, mas segue somente 190 perfis (a maioria perfis conhecidos com um grande volume de seguidores), segue a rede Nossas – conta acompanhada por apenas 2 mil usuários. 

A Gazeta do Povo também entrou em contato com a empresa Pag Seguro e com o filósofo Olavo de Carvalho solicitando informações sobre o ocorrido. Assim que as informações forem recebidas, a reportagem será atualizada. 

Título, Imagem e Texto: Gazetado Povo, 13h14 

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