quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Não, dr. António Costa, a culpa não é dos portugueses

O primeiro-ministro diz-se “muito surpreendido”, mas não devia estar: se tivesse reconhecido as fragilidades do SNS e feito o trabalho de casa no Verão teria preparado melhor o país para a segunda vaga 

José Manuel Fernandes 

As coisas não estão a correr nada bem, mas não foi agora que começaram a correr mal e não podemos repetir o erro de pensar que é calando as críticas que avançamos. Os números para Portugal são neste momento dos piores do mundo desenvolvido no que se refere a infecções registadas (como se prova no gráfico abaixo) e o número de mortos começa a ser alarmante. Estamos com metade dos mortos da Alemanha, que tem uma população oito vezes maior, e a Suécia – a famosa Suécia –, um país com a mesma população que Portugal e que também enfrenta uma segunda vaga de contaminação (3 a 4 mil novos casos por dia), o número mais elevado de mortes que registou foi 13 (dados até dia 6 de Novembro). Pior: nalgumas regiões do país, sobretudo no Norte, a taxa de contaminados por 100 mil habitantes é tão elevada que é difícil prever quando se conseguirá dominar a doença.

Vou ser franco e direto: olhando para os números e ouvindo o que têm dito os especialistas, a minha sensação é que a situação está fora de controle, as medidas que têm vindo a ser tomadas pecam sempre por tardias, atabalhoadas, atamancadas mesmo, e que são incompletas, para além de que já estamos a cruzar linhas vermelhas, apesar de ninguém o assumir. Ou poucos o assumirem. 

As linhas vermelhas de que falo é já haver médicos a escolher que doentes tratam, algo que foi revelado ao Observador pelo médico intensivista dos hospital Pedro Hispano Gustavo Carona, que fala de hospitais a trabalhar a 200%, 300%. Surpreendidos? Eu não. Quando na segunda-feira soube que a Ordem dos Médicos tinha divulgado as suas recomendações sobre como escolher quem tratar percebi o que vinha a caminho. E o que estava a caminho for anunciado dias antes por João Gouveia, presidente da comissão nacional da resposta em Medicina Intensiva à Covid-19, que também numa entrevista à rádio Observador disse que já estávamos “a passar a linha vermelha e que só esperava “não chegar a uma triagem de catástrofe”. Para quem não se lembra, essa foi a triagem que teve de ser feita nos hospitais da Lombardia durante a primeira e catastrófica vaga da doença. A triagem que deixava a morrer quem nem se tentava sequer salvar. 

Mas entretanto os dias foram passando e basta projetar no futuro próximo a consequência do número de infectados que estamos a registar hoje para perceber que “em 15 dias vamos ter 125 doentes por dia em Unidades de Cuidados Intensivos”, como referiu o pneumologista António Diniz, membro equipa criada pela Ordem dos Médicos para dar apoio à Direção-Geral de Saúde. 

Isto é o que está no nosso horizonte próximo, e aquilo que o nosso Governo decidiu foram medidas menos drásticas que as tomadas em países com situações muito menos graves, como a Alemanha ou o Reino Unido, para já não falar da Irlanda. Costuma-se dizer que em política o mal – ou o que é impopular – deve ser feito depressa e todo de uma vez. Exatamente ao contrário do que tem vindo a acontecer. Medidas a conta-gotas, discurso contraditório, necessidade constante de corrigir o tiro (recordo os mercados de levante, recordo as compras durante o recolher obrigatório, recordo o apoio aos restaurantes que só apareceu depois dos protestos, mas podia fazer uma lista bem mais longa). Isto para além de um discurso no limite do risível, como o apelo da ministra da Cultura para que portugueses vão a espetáculos numa altura destas. 

O primeiro-ministro, como sempre, acha que a responsabilidade é das pessoas – ele nunca é responsável por nada – e até se diz “muito surpreendido” com o que se está a passar, garantindo que a capacidade do SNS está controlada. “Por agora”, acrescenta, mesmo quando o “por agora” já passou por assistir a uma desgraça no hospital de Penafiel e atabalhoadamente atirar com parte do problema para Amarante, criando um surto num hospital que não estava preparado

Não é verdade senhor primeiro-ministro. A primeira responsabilidade é sua e é sua desde março. Há muita coisa que correu mal desde o princípio e só a cegueira e a propaganda têm impedido um maior escrutínio e, sobretudo e mais importante, uma correção de rumo. 

O primeiro erro foi achar que tínhamos o melhor SNS do mundo, ou quase, e que por isso estávamos preparadíssimos. Era mentira, é mentira. Basta pensar no seguinte: uma doença como a Covid exige capacidade hospitalar, porque exige separar estes doentes dos outros. O tempo de recuperação é maior. Logo o número de camas nos hospitais é crítico. 

Ora Portugal tinha um baixo número de camas hospitalares do SNS: apenas 2,25 por 1.000 habitantes. A média da União Europeia é 5,39. Mais do dobro. Mas atenção: quando falo de SNS falo das camas no Serviço Nacional de Saúde, que serão cerca de 24.000. Mas se pensasse em Sistema Nacional de Saúde e incluísse o sector privado e social, podia acrescentar mais 11.300 camas. Ou seja, quase um terço das camas hospitalares em Portugal não estão no sacrossanto SNS público. 

Qual foi o dogma — o dogma criminoso — da ministra desde o minuto zero da pandemia? Desconsiderar o sector privado e social. Desta forma desconsiderou um terço da capacidade instalada em camas hospitalares. Que não tinham de ser para doentes Covid – podiam ser para outros doentes transferidos dos hospitais públicos de forma a abrir vagas para os doentes Covid. Tão simples como isso. 

A pandemia chegou a Portugal em março. Estamos em novembro. Até agora não houve nenhuma conversa séria do Ministério com os operadores privados para programar o que quer que seja. Neste momento os privados nem sequer conhecem os planos da DGS para a Covid. O preconceito ideológico criou esta situação. A colaboração que já existe no Norte do país passa no essencial à margem do Ministério e da ARS: espantosamente é combinada diretamente entre hospitais públicos aflitos e grupos privados que ainda não sabem como vão ser pagos. 

Isto não é responsabilidade dos portugueses, senhor primeiro-ministro: é sua, que manteve à frente da Saúde porventura a mais incompetente ministra que por lá passou desde o 25 de Abril.

E quando agora se fala que os cuidados intensivos só aguentam mais uns dias é estultícia vir prometer que para o ano teremos o dobro de UCI’s a funcionar. Portugal entrou nesta crise com um número de camas de cuidados intensivos chocantemente baixo. Bem sei que somos um país pobre, mas estamos a falar de termos um quinto das camas de UCI da Alemanha e um décimo das dos Estados Unidos (per capita)

Ora criar camas de UCI não é apenas colocar ao lado delas aparelhagem mais sofisticada ou ventiladores (e desconfiemos sempre das promessas que nos fazem quando descobrimos que 253 ventiladores continuam sem funcionar). É necessário também que existam médicos especializados e enfermeiros especializados. Onde é que eles estão? Não existem, ou pelo menos não existem em número suficiente. E até sei de casos de alguns profissionais que durante esta crise emigraram, por terem recebido melhores ofertas de trabalho de outros países. 

Para além de que um intensivista leva anos a formar, eles não nascem do chão como cogumelos, por muitas conferências de imprensa que Marta Temido dê (sempre com poucas perguntas dos jornalistas, que é agora a nova regra). 

Mas há pior senhor primeiro-ministro, e isso é sua responsabilidade: o regresso às 35 horas tornou mais difícil a vida dos hospitais e mais complicado contratar enfermeiros. Os médicos que fogem do SNS, ou que já não acreditam no SNS, ou os que já não veem futuro no SNS, desacreditaram no sistema porque é impossível tornar atrativas carreiras quando tudo é centralizado, quando o mérito vale pouco, quando as promessas ficam sempre por cumprir, quando, quando, quando… Não nos venha com números que são areia para os olhos – verifique antes quantos concursos ficam desertos, quantos hospitais não conseguem contratar quem procuram, e não faça de conta que o problema é sempre dos outros. 

E depois, por fim, que confiança podemos ter em timoneiros que parecem andar às cegas, quando nem sabemos se nas cartas de marear têm as coordenadas certas? Perdi as contas às vezes que protestei pela pouca qualidade da informação que a Direção-geral de Saúde fornecia, mas é espantoso como ela tem conseguido piorar ao longo do tempo em vez de melhorar. É escandaloso – repeti-o até me doer a voz – que até aos cientistas e às Universidades fosse sonegado acesso à informação essencial, às bases de dados, que numa altura não crítica não se mobilizassem todos os recursos para estudar a doença e procurar compreender o que se estava a passar. Descobre-se agora que o estado de desconchavo da Administração Pública é tal que uma das poucas bases de dados que foi fornecida incluía homens grávidos, uma pessoa com 134 anos e dela tinham desaparecido mais de 4.000 casos. 

O natural seria que desde o início da pandemia existisse um gabinete de crise, que houvesse cientistas conhecidos e reconhecidos responsáveis por aconselhar o governo e por comunicar ciência. Mas não. Tudo ficou por conta das inenarráveis conferências de imprensa e, para efeitos de propaganda, inventaram-se as reuniões do Infarmed, até que as coisas começaram as complicar-se. Nessa altura deixaram de interessar e silenciaram-se os cientistas. 

No meio deste nevoeiro o primeiro-ministro diz-se agora “surpreendido” por uma “segunda vaga” que quase todos tinham anunciado, que começara antes noutros países e que em Portugal se desenvolve sem grandes barreiras, pois aquilo para que alguns tinham avisado – que não houvera nenhum “milagre português”, apenas um feliz conjunto de coincidências – nunca foi levado a sério pelas autoridades, que passaram o Verão sem prepararem devidamente o que aí vinha. 

Sabemos agora, por exemplo, que as estruturas de apoio de retaguarda já funcionam. É espantoso. Antes de tudo começar já sabíamos que além de o nosso SNS ter poucas camas, também tinha períodos de internamento demasiado longos – uma média de 9 dias. Por quê? Essencialmente porque os hospitais se substituem muitas vezes à Segurança Social e ficam com idosos que deviam ter alta, mas não têm a quem os entregar. É um problema antigo. É um problema que podia ter sido antecipado durante o Verão para libertar camas nos hospitais para a “segunda vaga”. Mas não. Chegámos a novembro, o céu caiu-nos em cima da cabeça, e agora lá anunciam que já há as tais estruturas de apoio. Por que só agora? E por que tão poucas? 

Não poderia o senhor primeiro-ministro ter posto a sua ministra da Saúde a falar com a sua ministra da Segurança Social? É assim tão difícil? 

Deve ser. Mais fácil é quando a população tem medo e fica em casa. É certo que isso tem um custo – associado às consultas, aos exames e às operações que têm ficado por fazer, tudo tem contribuído para um brutal aumento da mortalidade. Os mortos “não-Covid” de que ninguém fala, que não são notícia a não ser de quando em quando, mas que já serão quase 6.000. 

E resulta. O medo resulta. Este gráfico que encontrei aqui mostra que doentes graves já começaram outra vez a deixar de ir às urgências. Muitos irão diretos para as morgues. Nunca serão, portanto, um problema político.

Como já notei, até 22 de setembro só seis dos 21 países da OCDE tinham registado até um excesso de mortalidade superior ao nosso e todos eles por efeito do Covid. Em Portugal a explicação era outra. Agora, com a mortalidade Covid a juntar-se à mortalidade não-Covid, podemos ter pela frente o pior de dois mundos. 

E não, senhor primeiro-ministro, a culpa não é dos portugueses. 

Título, Imagens e Texto: José Manuel Fernandes, Observador, 10-11-2020, 14h54 

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