domingo, 8 de novembro de 2020

[Diário de uma caminhada] O primeiro-ministro deve-me um pedido de desculpas. Ou não é digno do cargo que ocupa


Gabriel Mithá Ribeiro

Ao classificar o CHEGA como de «extrema-direita xenófoba», o primeiro-ministro, António Costa, ofendeu-me não apenas na qualidade de vice-presidente do CHEGA, mas na minha mais elementar condição humana e de cidadão. Tenho a certeza absoluta de que, entre as minorias (raciais, étnicas, religiosas), não estou solitário neste sentimento. 

Descendo há diversas gerações de famílias migrantes (negros africanos, indianos com ascendência provável no Paquistão, sírios, agora com descendência miscigenada com os portugueses) e não posso aceitar quem confunde maliciosamente, na opinião pública, o princípio da defesa do «controlo da imigração» adulterando-o em «recusa da imigração», em «xenofobia», a coberto do exercício de um cargo de soberania, o de primeiro-ministro. 

Tenho obra publicada sobre o assunto e fico horrorizado por viver num país no qual até o primeiro-ministro colabora em processos de alienação mental impostos à sociedade que governa. Uma coisa é emitir opiniões subjetivas, outra é manipular grosseiramente o pensamento social, atentar contra o conhecimento social, contra a verdade. Tais atitudes já nem sequer são disfarçadas. Já nem sequer ficam a cargo das figuras anónimas dos partidos políticos. Já nem sequer são expostas por terceiras e segundas figuras da política e da governação. Essas atitudes invadiram o âmago do Estado, o âmago das instituições tutelares, o âmago da governação. 

Michel Wieviorka, sociólogo, escreveu que a intolerância, como o nazismo ou o racismo, apenas se tornou socialmente destrutiva porque saiu da Sociedade e invadiu e colonizou o Estado e as suas instituições, isto é, todos os perigos resultam quando se quebra a fronteira entre o Estado e a Sociedade. Dorido por causa da derrota do Partido Socialista (PS) nos Açores, com o episódio de ontem (07.11.2020) o primeiro-ministro, António Costa, não só enganou publicamente e de forma grosseira os portugueses, como conferiu a mais alta expressão pública a um sintoma grave de intolerância à diversidade social e política que há muito domina as instituições do Estado, como o ensino, e afins, como a imprensa. 

Se ao primeiro-ministro é exigível um pedido de desculpas público pelas palavras que proferiu, por seu lado a sociedade portuguesa deve autoquestionar-se sobre as razões do caldo de tentações totalitárias em que aceita viver. 

Como qualquer pessoa tem o direito de autodefinir e ser respeitada por isso mesmo, é ao CHEGA que compete explicitar qual a sua orientação moral, cívica ou política e não aos outros. Se os órgãos de comunicação social estão em muito vedados às mensagens do CHEGA pela voz dos seus próprios dirigentes, por pressões do atual Governo Socialista, o mínimo que se exige é que os órgãos de soberania respeitem as orientações formais das instituições, os cargos daqueles que as representam, os posicionamentos formais dessas mesmas instituições. Está tudo no site oficial do CHEGA. Não se entendem as posições da Igreja Católica pelos pecados dos seus fiéis, antes pelas posições formais do Vaticano. 

As instituições existem para evitar respostas reativas descontroladas, para podermos viver num mundo civilizado, mesmo que discordemos em quase tudo. Foi para isso que se fizeram as instituições políticas, é por isso que as mesmas têm de se legitimar e é por isso que têm de ser respeitadas. O CHEGA cumpriu e cumprirá todas essas exigências e não pode, em troca, ser institucionalmente humilhado por este ou qualquer outro primeiro-ministro que, valem, acima de tudo como modelos de funcionalidade institucional. Quanto mais alto é o cargo, mais assim tem de ser sob pena de degradar irreversivelmente todo o edifício institucional. 

Seria facílimo pegar num detalhe do Partido Socialista (PS), ou numa particularidade aleatória de um dos membros desse partido (como ser alegadamente corrupto e sabemos que há mais do que isso), depois transformar esse atributo em estereótipo para aplicá-lo a todos os socialistas, ao atual primeiro-ministro, aos membros do governo, aos militantes socialistas, aos votantes do PS, aos simpatizantes socialistas. Foi isso que o primeiro-ministro, António Costa, fez ao CHEGA, aos seus dirigentes, aos seus militantes, aos portugueses que votaram, votarão no CHEGA, aos portugueses que simpatizam com o Partido, à orientação oficial da instituição. Resumiu tudo isso a «xenófobos». Um atropelo institucional inqualificável. 

Não custa fazer insinuações insultuosas a partir de estereótipos ou generalizações abusivas que se apanham no ar, a via mais rápida de atropelar a dignidade institucional do cargo de primeiro-ministro, dos demais órgãos de soberania, das demais instituições. Se o primeiro-ministro, António Costa, não tem consciência da sua atitude, pelo menos que alguém lhe lembre que errou e que é urgente reparar esse erro através de um pedido de desculpas públicas. Caso contrário, não é digno de exercer o cargo que ocupa e degradará gravemente o valor social e cívico da instituição que representa. 

Pelos cargos públicos que ocupou e ocupa, e enquanto pessoa, António Costa deveria saber que quem, acima de tudo, define a nossa identidade somos nós, não são os outros. O contrário disso chama-se abuso identitário, chama-se violência simbólica, chama-se violação da dignidade e da identidade dos outros. Se já é ofensivo ver jornalistas e comentadores atropelarem todos os dias esse princípio tão elementar quando se referem ao CHEGA, passa a ser simplesmente intolerável ver tal comportamento legitimado e ampliado nos seus impactos por um primeiro-ministro que, no caso, deitou gasolina nos discursos de ódio contra o CHEGA. 

Há ainda um aspeto latente neste episódio que também me atinge pessoalmente. Tal como Joacine Katar Moreira ou Mamadou Ba, não é porque o primeiro-ministro, António Costa, é também um pouco mais bronzeado que tem o direito de instituir uma cerca sanitária em torno da identidade das minorias para fazerem delas o seu curral de votos. 

Quem não respeita as minhas escolhas políticas associando-as à «xenofobia» ou ao «desprezo pelas minorias», isto é, ao desprezo por mim mesmo (mais os meus familiares, amigos, entre outros), simplesmente não respeita as minorias enquanto tais. Se não se retratar e, pior, se insistir, quem faz isso tem de assumir que considera que existem pessoas, entre as minorias, que por causa das suas escolhas são «deploráveis», «desprezíveis», «traidoras». É o que sempre fizeram os inimigos da liberdade. 

Em vez de acabar com a farsa insultuosa em que vivemos no interior das minorias, em que uma parte oprime a outra, o primeiro-ministro evidencia uma insensibilidade inacreditável face à complexidade humana, existencial, social das minorias. É por isso que não percebe que existe uma manipulação política violenta imposta às pessoas das minorias, parte delas destratadas até ao fundo da sua alma. 

António Costa talvez um dia descubra que entre os seus parentes próximos há votantes no CHEGA. Espero que eles, depois, lhe expliquem o que é a dignidade pessoal, a liberdade individual, o pluralismo social que, se não existe no interior das minorias e se não é respeitado enquanto tal, não vivemos numa sociedade livre. 

A ninguém é permitido, e bem!, fazer insinuações, muito menos públicas, sobre as opções dos homossexuais, sobre as opções religiosas de quem quer que seja, sobre pessoas que mudam de nome, sobre escolhas profissionais, sobre opções clubísticas, sobre opções musicais, sobre cortes de cabelo, sobre se as pessoas fazem ou não fazem tatuagens, sobre mil e uma variantes que definem a identidade de cada indivíduo, sobre aquilo que sustenta a sua dignidade. Por que razões um primeiro-ministro pode fazer insinuações grosseiras que, pelo cargo que exerce são intimidações, sobre uma parte das minorias e que atingem a dignidade de pessoas como eu? 

Escolhi o CHEGA, entre outras razões, porque todos estes atropelos são desumanos e têm de ter um fim. Só me resta aguardar pelo pedido de desculpas do primeiro-ministro, António Costa. 

Título e Texto: Gabriel Mithá Ribeiro, Vice-Presidente do CHEGA!, 8-11-2020 

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Um comentário:

  1. Caríssimo professor, me desculpe pela rudeza, mas vai esperar… sentado!

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