terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

[Estórias da Aviação] As ervas da ira (parte I) – Um sonho quase desfeito

José Manuel

Foram várias as ervas daninhas, que apareceram no meu "quintal " como a me desafiar. A segunda erva da ira ocorreu exatamente no meu primeiro voo para BHZ (Belo Horizonte), logo no primeiro mês de trabalho, coisa que jamais poderia pensar que ocorreria.

Éramos sempre dois comissários no Avro.

Tudo era novidade e para minha surpresa e júbilo fiquei hospedado logo de cara no melhor hotel de BH, o Del Rey. Eu e o colega ficamos no mesmo andar em quartos contíguos.

O Comandante tinha nos convidado para jantar no próprio hotel, e no horário combinado lá estava eu conversando e jantando, enfim, travando os primeiros contatos com um mundo novo e deslumbrante para mim. O jantar foi ótimo com as experiências sendo absorvidas, mas o referido colega não compareceu, o que achei bastante estranho pois a minha visão de sociabilidade era outra.

No dia seguinte, bem cedo desci para o desjejum e fechei a porta, deixando meus pertences dentro do quarto. Em seguida retornei para a higiene adequada e vestir o uniforme.

Uma vez pronto, e ansioso, pois não queria me atrasar logo no primeiro voo, ao sair do quarto, por absoluto desconhecimento de regras, e inocência de copetinho, deixei a porta do meu quarto entreaberta para facilitar o serviço da camareira, ou assim pelo menos entendia.

Ato contínuo, desci ao lobby, entreguei a chave na recepção e fiquei aguardando a tripulação descer.

Em seguida rumamos para o aeroporto na indefectível kombi azul e branca, e decolamos de volta ao Rio.

O voo corria normalíssimo, e eu adorando tudo o que se passava, apenas notei que algo não ia bem, apesar da pouquíssima  experiência, pois faltando apenas vinte minutos para o pouso, o Comandante (in memoriam)  apareceu na galley dizendo que havia recebido um rádio do despacho de BHZ, com a informação de que material de conforto, tipo lençóis, fronhas e cobertor do meu quarto haviam desaparecido, mas que ele não  acreditava,  por termos conversado muito no jantar e ter me achado uma pessoa sociável, educado, enfim uma pessoa agradável,  tivesse feito aquilo.

Perdi o meu chão momentaneamente e foram segundos infinitos até que eu reagisse e tomasse a iniciativa de mostrar a minha mala.

Meu colega continuava impassível ao meu lado até que o Comandante solicitou que ele abrisse a sua mala.

A cena não poderia ter sido mais constrangedora e repugnante pois o meu quarto todo estava dentro daquela mala.

O colega, que nem sei se devo chamá-lo assim, depois que desci, aproveitou a minha bobeada entrou no meu quarto e fez uma festa digna de Agatha Christie, com a rouparia que eu havia dormido!!

O Capitão me agradeceu, pediu desculpas e retornou ao cockpit sem dizer uma palavra.

Ao pousarmos no Santos Dumont os passageiros foram desembarcando e dois seguranças e uma kombi da empresa aguardavam o ex-tripulante, ao pé da escada.

Uma cena que por mais que queira, nunca saiu da minha cabeça pois o meu futuro, em minutos, foi do céu ao inferno, sem escalas.

A minha sorte foi o hotel ter telefonado ao despacho e este ter passado o rádio a tempo, pois se isso tivesse ocorrido após o desembarque e o abandono da aeronave, não estaria aqui escrevendo as minhas memórias.

Título e Texto: José Manuel – exorcizando, mas ainda sinto arrepios quando me lembro que por vinte minutos não perdi meu emprego e meu futuro maravilhoso. Também aprendi mais em apenas vinte minutos do que em todos os meus vinte e poucos anos até então. Janeiro 2022

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Os números esquecidos, a realidade e as consequências 
As ervas da ira. (Prólogo) 
O voo 100, o apartamento e Lisboa 
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A chegada do Jumbo e o bullying finito 

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