domingo, 10 de outubro de 2021

[As danações de Carina] Diferença entre escrever e orar

Carina Bratt

ESCREVER É COMO se ajoelhar para orar. É você e Deus. É o Pai Celeste tomando conhecimento das suas fraquezas. Através dos joelhos dobrados, em oração, você se abre ao Criador e se entrega de forma total. Da mesma forma em que você se senta na frente do computador, para escrever, você se abre de corpo inteiro para um espaço que existe no escondido de dentro de você.

É o momento secreto que só você e com você à tira colo, tem o direito de penetrar. Ao Eterno você pede. Ao escrever, você traduz o que Ele lhe assopra através de um canal direto, sem medianeiro ou intercessor. A isto, se dá o nome de dom. O Onipotente lhe dá o dom todos os dias. E não só dá, renova, aviva, restaura, aprimora, aperfeiçoa. O dom de escrever não é privilégio de muitos.

Assim como os outros dons que o Soberano oferta para outras pessoas, como o ser um matemático, saber lidar com os números, ao médico, para curar pessoas, ao engenheiro para construir prédios, ao professor para ensinar seus alunos. É dom. Já se nasce com ele.  Todavia, o Imutável o remonta, corrigi, aquilata, conserta. Assim é, pois o mesmo método para orar e escrever. Você precisa estar só. Sem ninguém, sem interferências, sem barulho, fechado a sete chaves num mutismo, como se o mundo inteiro girasse a seus pés e em torno de seu umbigo.

O mundo do escritor é como o universo do altista que se queda enrodilhado no seu inconsciente e esquece tudo o que rola à sua volta. Para o escritor, o mundo fora da sua escrita não tem significado, não tem sentido, não tem vida, nem cor. Na oração você invoca o Onisciente Maior. Na hora de escrever, você invoca a sua alma, o seu coração. O que estas duas coisas têm de bom, de excelente aflora em toda a sua magnanimidade.

E ao passo em que a alma e o coração se fundem, se entrelaçam, se atarracam, se cruzam e se acasalam, num voo direto, sem intermediário, com a sua mente, as palavras se levantam do nada e se abraçam e se confundem num amplexo livre e solto. Nesta hora, o brilho da crônica, ou as luzes de um romance, aos poucos, vão sendo construídos num ritmo persuasivo, enérgico, elucidativo, convincente e eloquente.

Na verdade, vão se aprimorando e pegando vida e forma, forma e vida, até a hora em que, transpostas para o branco do papel do computador (gostaram do branco do papel do computador??!!), o sorriso da felicidade brilha em nosso rosto, como se tivéssemos realizado um trabalho com a precisão de um sutil toque de pura mágica que a todos deixa com ares de assombro e contemplação, êxtase e estuporação.

Título e Texto: Carina Bratt, de Ribeirão Preto, São Paulo. 10-10-2021

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