sexta-feira, 23 de setembro de 2011

FC Porto x Benfica: uma rivalidade que vai além do futebol

Imagem: Jornal "O Jogo"
Emanuel Júnior
Quando entram em campo para disputar aquele que é hoje o maior clássico português, FC Porto e Benfica levam para o gramado muito mais que uma rivalidade entre dois clubes de futebol. Os dois clubes representam duas cidades e duas macrorregiões: Porto x Lisboa; Norte x Sul. Este clássico representa a eterna rivalidade entre as duas maiores cidades portuguesas e cada uma representa a sua região, o Porto muito mais identificado com o Norte do que Lisboa com o Sul, por razões históricas.
Quem olha para Portugal, sem conhecer bem a sua história, pode pensar que se trata de um país igual, que todos os habitantes são parecidos e que existe uma unidade nacional. Talvez por sua dimensão, Portugal passe essa impressão. Porém, desde os tempos mais antigos, Portugal convive com uma divisão fortemente marcada por suas duas grandes cidades e, atualmente, é no futebol que esta divisão aflora mais e se manifesta de forma mais acentuada.
A origem de Portugal está no Norte, o Condado Portucalense. Portucale vem de Porto de Cale, a cidade do Porto. Foi do Condado Portucalense que partiu a reconquista dos territórios do Sul, ocupados pelos Mouros (mulçumanos). Lisboa só viria a ser conquistada em 1147, oito anos depois da formação do Reino de Portugal por D. Afonso Henriques e quatro anos após o reconhecimento da independência de Portugal pelo Rei de Leão e Castela, através do Tratado de Zamora.
Durante a ocupação Moura, a cidade de Lisboa se chamava Al-Ushbuna e a maioria de seus habitantes chegou a adotar a língua árabe e a religião mulçumana da minoria invasora que se constituiu como elite. Até hoje, quando alguém do Norte quer provocar os lisboetas, refere-se a estes como os “mouros”.
A partir do reinado de D. Manuel I, quando Portugal começou a se consolidar como Império, viu-se o fortalecimento centralismo português. O poder central se encontrava na capital Lisboa e um Estado absolutista, evidentemente, limitava a autonomia administrativa dos municípios, por conseguinte, Lisboa gozava de uma posição quase que hierárquica sobre as demais cidades portuguesas. O Porto sempre foi o maior expoente do inconformismo.
Chegando ao Século XX, o marco da rivalidade Porto x Lisboa é o Regime Fascista de Salazar. A política autoritária do fascista Antônio de Oliveira Salazar adotou o centralismo econômico e concentrou em Lisboa não apenas o poder político e econômico como também cultural. Salazar, grosso modo, separou Lisboa do resto do país.
No futebol não foi diferente. O "Sistema Político Fascista e Centralista-Salazarista" foi claramente favorável aos clubes de Lisboa, principalmente o Benfica, que era o mais popular. O Regime Fascista se servia das conquistas dos clubes de Lisboa e, especialmente, do Benfica para enaltecer a sua grandeza e se aproveitar da alienação das massas, usando o futebol como um meio de “entretenimento” e um escape à fome e a miséria a que levou o fascismo.
Não é por acaso que o Benfica é conhecido por “encarnados”. O vermelho sempre esteve associado ao comunismo, que, por sua vez, era antagônico ao fascismo. Logo, o Benfica não podia ser referenciado como os “vermelhos”, jamais! Por isso os benfiquistas são “encarnados”.
O FC Porto era o único clube que conseguia, apesar dos pesares, fazer frente aos de Lisboa. Por essa razão, afirmava o mítico José Maria Pedroto que um título do FC Porto valia por dois ou mais do que o de um clube de Lisboa, uma vez que não se competia em igualdade de circunstâncias.
O FC Porto, portanto, assim como a cidade do Porto, tornou-se o foco de resistência, o símbolo do inconformismo, o baluarte do Norte.
Com o fim do Regime Salazarista, o retorno à democracia e, mais ainda, com a chegada de Jorge Nuno Pinto da Costa à presidência do FC Porto, o futebol português deu uma guinada ao Norte e, pelo menos no futebol, o Porto passou a concentrar o poder e as conquistas.
Como já foi dito, os portistas fazem questão de frisar a influência mulçumana em Lisboa e até hoje se referem aos benfiquistas como “mouros”, em tom pejorativo. Os benfiquistas, por sua vez, fazem referência à outra passagem da história de Portugal, e chamam pejorativamente os portistas de “tripeiros”.
Contudo, enquanto os benfiquistas se ofendem com a referência aos mouros, os portistas se orgulham do termo “tripeiros”. É que durante o período dos descobrimentos o Infante D. Henrique pediu aos moradores do Porto alimentos de todo tipo, ficando a população unicamente com as tripas.
Para os portistas, como bons portuenses e habitantes do Norte, essa passagem representa mais uma referência de seu nacionalismo e patriotismo, o amor e a entrega a Portugal.
Não à toa, a torcida Super Dragões entoa nos estádios “Tripeiro eu sou /E tenho o Porto no meu coração...”, além de puxar o grito “Quem bate palmas é tripeiro (palmas), é tripeiro (palmas), é tripeiro (palmas) ”.
No que tange às torcidas, essa rivalidade pode ser verificada nos confrontos entre os Super Dragões (FC Porto) e No Name Boys (Benfica).
Em 2008, suspeita-se que integrantes dos No Name Boys incendiaram um ônibus dos Super Dragões, que havia se deslocado a Lisboa para assistirem à decisão do campeonato português de hóquei em patins. Neste mesmo dia ocorreram confrontos violentos entre as duas torcidas, após emboscada dos No Name Boys aos Super Dragões na saída de Lisboa (fala-se que, supostamente, os benfiquistas contaram com a ajuda da polícia, isto é objeto de investigação por parte do Ministério Público português).
Do lado do FC Porto, até certo tempo os Super Dragões tinham um cântico não muito pacífico em referência a Lisboa. Cantavam com orgulho, especialmente nos jogos na capital: “Nós só queremos Lisboa a arder / Lisboa a arder / Lisboa a arder / Nós só queremos Lisboa a arder / Lisboa a arder...”. Já não cantam mais, porém não se pode deixar de fazer menção à tamanha demonstração de amor e apreço pela capital do seu país.
Enfim, a título de conclusão, podemos afirmar que quando Benfica e FC Porto entram em campo para se defrontarem, pisam no gramado não apenas para uma disputa de futebol. Benfica e FC Porto levam consigo a paixão e o ódio de duas cidades e uma rivalidade quase milenar.
O Benfica, clube mais popular de Portugal, vestido de “encarnado”, representa o centralismo português; a concentração de poder na capital Lisboa; o desprezo e a arrogância lisboeta em relação ao resto do país, em especial ao povo do Norte.
O FC Porto, como bem disse o seu presidente recentemente, é "o grande baluarte do Norte, cada vez mais esquecido e amordaçado", representando, portanto, o brio e bravura do Norte, inconformado e historicamente resistente.
FC Porto x Benfica, Benfica x FC Porto, é muito mais do que um simples jogo de futebol.
Título e Texto: Emanuel Júnior, publicado originalmente no blogue "Manufaturando Consentimento". Republicação gentilmente autorizada pelo autor.

Histórico de Confrontos
FC Porto e Benfica já se enfrentaram 213 vezes em toda a história. O equilíbrio entre os dois rivais é enorme, mas o FC Porto leva vantagem com 81 vitórias contra 79 do rival.


Em todas as competições:
Jogos – 213
Vitórias do FC Porto – 81
Vitórias do Benfica – 79
Empates – 53


Na Liga Portuguesa:
Pela Liga Portuguesa, o FC Porto tem ligeira vantagem sobre o seu rival: 60 vitórias contra 53
Jogos – 150
Vitórias do FC Porto – 60
Vitórias do Benfica – 53
Empates - 41


Hoje no Público; e no "i"
Edição: JP

8 comentários:

  1. Essa história do centralismo do Estado Novo está fortemente empolada: o regime corporizado por Salazar (que não era fascista, mas sim conservador autoritário, embora se tenha servido de alguns elementos do fascismo)era centralista no poder político, mas menos noutras dimensões. Havia mais poder empresarial na região do Porto do que há hoje. Quanto ao Benfica, é verdade que o regime aproveitou os seus Êxitos, mas nem por sombras o clube se pode identificar com o mesmo, até porque era um clube de massas, muito popular, com dirigentes conotados com a oposição e implantado em zonas onde até era maior a oposição ao salazarismo. O sporting era um clube mais elitista e os seus dirigentes ocupavam muitas vezes altos cargos políticos. O FCP não era (nem deixava de ser) "oposicionista", tanto que quando inaugurou o estádio das Antas, nos anos cinquenta, tinha a presença de Salazar e do presidente Craveiro Lopes.

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  2. Houve e há uma tendência para um certo revisionismo histórico que é de todo errado. E o modo como o texto está escrito denunciam isso mesmo, o que me faz redigir o seguinte testemunho.

    Poderia citar imensos exemplos que comprovam isso mesmo, mas como o anónimo bem expôs, o Benfica é e sempre foi um clube de massas de cariz popular, tendo sim o regime se aproveitado da excelente equipa/geração de 60, procurando tirar dividendos desses êxitos.

    Ao contrário dos seus grandes rivais, o Benfica esteve sem estádio próprio até 1954 - construído apenas com doações financeiras e trabalho próprio dos seus associados, sendo por duas vezes despojado dos seus campos, a última das quais em 1937 para a construção de um viaduto, na altura uma obra-fétiche do regime, sem que o clube fosse devidamente ressarcido por tal.

    Porventura consequências do facto de em plenas décadas de 30 e 40, o clube ser tido dirigentes conotados com a oposição, numa altura em que o hino oficial do clube se designava "Avante, Avante P'lo Benfica!", algo que o regime veio em seguida censurar devido à conotação comunista da palavra Avante.

    Ou como explicar o facto de em pleno festejos pelo fim da IIªGuerra Mundial - na qual o regime baloiçou entre uma colaboração numa primeira fase com as forças do Eixo e só no fim e desde 1943 em diante com os Aliados - a população sair à rua com as bandeiras dos vencedores do conflito, sendo as da URSS sido substituídas pelas bandeiras do clube, cuja uma grande extensão dos simpatizantes tinha afinidades políticas com o regime soviético.

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  3. (cont.) Aliás, como já referido, o Benfica gozava de maior apoio em zonas de forte implantação proletária e oposicionista. E muitas figuras gradas conotadas com a oposição, nos mais variados ramos, eram benfiquistas.

    Ao contrário dos seus rivais, durante o regime corporativista do Estado Novo, o clube era a única instituição de relevo, cujos orgãos sociais eram eleitos democraticamente em eleições directas, obedecendo às premissas dos próprios estatutos do clube.

    Algo que também explica o porquê do estádio do Benfica apenas ter recebido jogos da selecção nacional só 18 anos após a sua inauguração, ao contrário dos estádios dos seus rivais - entre os quais o das Antas, que curiosamente foi justamente inaugurado a 28 de Maio de 1952, no aniversário do golpe de estado militar que levou à instauração da ditadura que vigorou em Portugal por 48 anos.

    O Sporting, pela sua origem aristocrata e elitista sempre foi tido como o clube do regime. O acesso e aceitação como sócio do clube, obedecia a estritas regras de boa conduta e elevação moral e social. Isto em idos de 40 e 50. E beneficiou disso ao ter sido enviado como representante português à primeira edição da Taça dos Clubes Campeões Europeus, cujo envio era efectuado pelas autoridades competentes, isto ao desprezo do facto de ter sido o Benfica o campeão nacional na edição prévia a essa competição.

    O FC Porto, na sua génese tem uma data difusa de nascimento, mas a acreditar no revisionismo imposto há uns anos a esta parte - do ano 1906, aliás celebrados durante 70 anos, passou a ter uma data de fundação de 1893 aproveitando um honónimo clube que entretanto tinha sido fundado - não nego que seja um clube de génese mais popular que o seu bem mais aristocrata vizinho Boavista FC, mas convém pesquisar e verificar a curiosa história da agremiação portista. Assim como o porquê de terem criado rapidamente muitos inimigos por entre os clubes da sua zona. Por entre tomadas de campos - a célebre história dos "Andrades" - e por entre alargamentos administrativos feitos em cima do joelho, para não deixar o FC Porto fora das competições nacionais - o acesso até 44/45 dependia da classificação em provas regionais, razão pela qual em 39/40 e 42/43 o campeonato nacional foi alargado beneficiando o 3º classificado da associação do porto...o FC Porto. Explica em parte o porquê do Benfica ser a 2ª equipa com mais adeptos na zona do Porto, segundo um estudo feito há uns anos a esta parte. (cont.)

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  4. (cont.) A questão do centralismo vs regionalismo transporto para o campo desportivo é algo que realmente só começa a ser tido em conta e começa a ter peso mediático quando o actual presidente do FC Porto toma posse e começa uma guerrilha verbal contra um inimigo comum - Lisboa - procurando numa táctica à Maquiavel unir diferentes facções. Desunião essa que explica o porquê do Porto ter estado 19 anos sem ganhar um campeonato.

    Nada retira o mérito do clube nestes últimos anos - embora a supremacia tenha sido construída em bases bem dúbias e com base numa retórica bem inflamada (razão pela qual o clube não consegue sair do patamar de clube regionalista e afirmar-se como um clube nacional).

    Agora, e mesmo descontando a natural simpatia que o autor possa sentir pela cidade ou clube em questão, convém ter noção dos factos históricos e não desvirtuar ou incorrer em revisionismo históricos que nada têm a ver.

    Daí estas linhas que escrevo.

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  5. Agradeço a sua participação, Il Messaggero.
    Vou transformar este seu comentário numa postagem.
    Abraços./-

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