terça-feira, 20 de setembro de 2011

Os dias

Luíza Castel-Branco
Foto: Monica Constantino, agosto de 2011
Estou sentada na beira da vida à espera do comboio. Tenho a certeza de que virá um comboio, uma carruagem marcada com um sinal qualquer e eu saberei que é para mim.
Estou sentada à beira da vida e não vejo o comboio e espero por ele. Há tanta gente a passar, gente com pressa, gente feliz, gente com lágrimas. Estou sentada à beira da vida e não é um mau local para se estar. Os outros, aqueles que sabem para onde vão, os que não têm perguntas, e os que não sabem sequer que tal existe, todos eles enchem os dias e as horas escorrem e escorrem enquanto eu espero a minha vez. Estou sentada à beira da vida e aqui refugiada posso olhar sem que ninguém me veja. Por isso mesmo mergulho nos olhos opacos da multidão e sei as histórias todas que os vestem como uma segunda pele. Há muito barulho. Vindo de todos os lados. Um ruído permanente que envolve tudo e os passos apressados batem nas calçadas, no alcatrão, nas madeiras das salas das casas como cascos de cavalos.
Aqui sentada à beira da vida à espera, atenta aos pormenores, dou comigo a viver a vida dos outros, a sentir-lhes as dores como minhas e os risos, poucos.
Estou sentada à beira da vida à espera do comboio com a carruagem marcada.
Cada um tenta resolver os mistérios à sua maneira. Por mim, estou segura de que quando entrar no comboio, na carruagem marcada, tudo o que foi a minha vida vai ter uma explicação. Até lá, embrulho as minhas perguntas na saia rodada, aconchego-me melhor na beira da vida que é inclinada e a espaços tento descortinar lá longe os carris. Até hoje não vi a carruagem com o sinal mágico mas continuo aqui.
Título e Texto: Luísa Castel-Branco, Destak, 20-09-2011

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