sábado, 8 de janeiro de 2022

Por que as ditaduras não caem mais?

Da Venezuela à Coreia do Norte, tiranos permanecem firmes no poder, apesar de toda a pressão contrária


Dagomir Marquezi

Adolf Hitler se matou com uma bala na cabeça, num bunker de uma Alemanha destruída pela guerra. Benito Mussolini levou um tiro e seu corpo foi pendurado de cabeça para baixo, com sua amante Claretta, numa praça de Milão. Nicolai Ceausescu foi fuzilado no Natal de 1989, em Bucareste. Saddam Hussein, enforcado em Bagdá. Muammar al-Gaddafi, capturado numa tubulação de esgoto, espancado e morto em Sirte, na mesma Líbia que governou com mão de ferro. 

O cadáver de Benito Mussolini, ao lado do de sua companheira, Claretta Petacci e de outros fascistas fusilados, exposto em Milão, em 29 de abril de 1945, na Piazzale Loreto, a mesma praça onde os fascistas haviam exposto os corpos de 15 civis milaneses um ano antes, mortos por suas atividades de resistência. Foto: Vicenzo Carrese/Domínio Público

Ditaduras costumavam cair. E ditadores muitas vezes foram punidos pelos seus atos. Agora, aparentemente, eles permanecem em seus palácios para sempre. Quantas vezes já se anunciou que Nicolás Maduro cairia, como consequência da destruição que promoveu na Venezuela? Quantos analistas sérios não previram que as massas esfomeadas da Coreia do Norte derrubariam o regime comunista nesses quase 74 anos de tirania?

Pois Maduro continua firme no Palácio Miraflores, comendo seu filé-mignon e se lixando para a destruição do país, iniciada pelo antecessor, Hugo Chávez. Em Pyiongyang, o jovem bem nutrido Kim Jong-un toma champanhe cercado de miséria, com a certeza de que nenhum país vai mexer com seu regime, graças ao arsenal de armas nucleares e mísseis intercontinentais, que tratou como prioridades. 

O que mudou? A jornalista e historiadora americana Anne Applebaum (formada em Yale e pela London School of Economics) decidiu tentar responder a essa pergunta em um longo artigo para a revista Atlantic. O panorama que ela traça é preocupante.

Applebaum cita como exemplo típico dessas “novas ditaduras” o que aconteceu com a Bielorrússia. O país de 9,3 milhões de habitantes, que fazia parte da União Soviética, era administrado desde 2000 pelo “ex-comunista” Alexander Lukashenko, com sua política à base de paternalismo e promoção pessoal. Em 2020, ele venceu uma eleição (obviamente fraudada) com 80% dos votos.

No dia 9 de agosto, uma multidão de 1 milhão e meio de bielorrussos — 16% da população — saiu às ruas, farta de Lukashenko. Foi uma festa de cidadãos comuns, seguros de que o país ia se livrar do velho líder bigodudo. Policiais jogavam seus distintivos no lixo público. Jornalistas entraram em greve.

Protestos contagiosos

Nove dias depois, pousou na capital, Minsk, um avião a serviço da FSB — o órgão russo de segurança e repressão que substituiu a antiga KGB. O avião trazia uma equipe enviada por Vladimir Putin para ensinar a Lukashenko novas técnicas de controle e repressão. Os jornalistas em greve foram substituídos por russos (a maior parte da população entende a língua). Esses jornalistas, em todas as mídias, começaram a falar as mesmas coisas — numa coordenação semelhante ao “consórcio”, que conhecemos. Eles afirmavam que os manifestantes contra as eleições fraudadas estavam — surpresa! — a serviço dos imperialistas americanos e outros “inimigos estrangeiros”. 

Lukashenko seguiu as diretrizes que deram certo na Rússia de Putin. Em vez de realizar prisões em massa, os órgãos de repressão passaram a escolher alguns poucos alvos para serem presos, torturados ou mortos. Quem ainda pretendia protestar passou a ficar em casa, apavorado e apático, certo de que nada mais poderia ser mudado.

Segundo o artigo de Anne Applebaum, Lukashenko e Putin nunca se bicaram, “mas sabem que protestos democráticos podem ser contagiosos. Acreditam que, se forem derrubados, poderão ser presos ou mesmo mortos”.

Com a assessoria russa, Lukashenko preencheu aos poucos as cadeias com 800 prisioneiros políticos. Usou de tortura, estupro, rapto e assassinato para constranger qualquer forma de oposição. Hoje, não conhece mais limites. Sequestrou um avião irlandês para prender um jovem dissidente. Obrigou refugiados afegãos e iraquianos a invadir países vizinhos que dão trabalho ao ditador.

A Bielorrússia de Alexander Lukashenko é apenas um exemplo de como funciona essa rede de regimes que se apoiam mutuamente, e se tornam cada dia mais difíceis de serem derrubados. Segundo o artigo da Atlantic, o perfil dessas tiranias mudou radicalmente.

“Hoje em dia, autocracias não são comandadas por um bandido”, escreve Applebaum, “mas por sofisticadas redes compostas de estruturas financeiras cleptocratas, serviços de segurança (militar, policial, grupos paramilitares, vigilantes) e propagandistas profissionais. Os membros dessas redes são conectados não só dentro de um determinado país, mas em vários países. Empresas estatais corruptas fazem negócio com outras empresas estatais corruptas. A polícia em um país pode armar, equipar e treinar a polícia de outro. Os propagandistas dividem recursos — as fábricas de memes que promovem a propaganda de um ditador, por exemplo, podem fazer a propaganda de outro. E martelam as mesmas mensagens sobre a fragilidade da democracia e a maldade da América.”

Autocracia S.A.

Essas ditaduras, sempre conectadas a atividades criminosas, agem em rede. “Não existe uma sala supersecreta onde os vilões se reúnem, como num filme do James Bond”, prossegue Anne Applebaum. “Nem existe nessa nova aliança autocrática uma ideologia unificadora. Entre os modernos autocratas existem pessoas que se dizem comunistas, nacionalistas e teocratas. Nenhum país lidera esse grupo. Washington gosta de falar de uma influência chinesa, mas o que realmente une os membros desse clube é o desejo comum de preservar e aumentar o poder pessoal e a própria riqueza. Ao contrário das alianças militares e políticas de outros tempos, os membros desse grupo não agem como um bloco, mas como uma aglomeração de companhias — vamos chamá-la de Autocracia S.A. Seus elos não são cimentados por ideais, mas por acordos — para burlar os boicotes econômicos do Ocidente, ou para fazê-los pessoalmente mais ricos —, e é por isso que eles podem operar além de linhas geográficas e históricas.”

Nas ditaduras de hoje, essa preocupação com a própria imagem não tem mais importância

Essa rede, segundo Applebaum, permite que as ditaduras amigas apoiem umas às outras. A Bielorrússia hoje é um pária internacional. Seus aviões não podem pousar no resto da Europa. Seus produtos não podem ser vendidos nos EUA. Mas a China rega o país de dinheiro com um de seus maiores projetos de desenvolvimento. Os regimes do Irã e de Cuba são apoiadores entusiasmados de Alexander Lukashenko, e dizem que ele é vítima da “interferência externa”.

A Venezuela de Nicolás Maduro é outro exemplo didático dessa impunidade. O país está isolado da comunidade internacional. Mas recebe empréstimos e investimentos da Rússia e da China, além de facilidades da Turquia e tecnologia de repressão da ditadura cubana. “O tráfico internacional de drogas mantém o aparelho do regime bem abastecido de produtos de luxo”, segundo o artigo da Atlantic

Os mais velhos sabem que o regime soviético se preocupava e muito com sua imagem no mundo. Fazia de tudo para ganhar medalhas olímpicas e dar shows na corrida espacial. Nas ditaduras de hoje, essa preocupação com a própria imagem não tem mais importância. Elas se defendem com acusações rasas. Os inimigos do regime do Irã são “infiéis”. Os inimigos dos regimes de Cuba e da Venezuela são “imperialistas”. E ponto final. Tem muita gente no Ocidente que os apoia, alguns até de graça.

O pacote chinês

Já existe até um “modelo Maduro de governo”. Ele consiste em aceitar que o próprio país entre em falência com o colapso econômico e a miséria generalizada — desde que o regime permaneça no poder. Esse mesmo “modelo Maduro” foi adotado pela Síria de Bashar al-Assad e pelo Afeganistão dos talibãs. Deu certo até agora para todos eles, que reinam sobre ruínas. 

Um caso claro do que Anne Applebaum chama de Autocracia S.A. é representado pela questão da minoria muçulmana uigur, na China. Os uigures tinham uma rota de escape para a Turquia quando fugiam da perseguição implacável da ditadura chinesa. O presidente turco Recep Erdogan chegou a chamar o regime comandado por Xi Jinping de “genocida”.

Em 2014, Erdogan mudou. Passou a agir como um ditador dentro da União Europeia e a colaborar com os chineses, entregando os refugiados uigures aos seus carrascos. Em 2020, Pequim negociou com a Turquia um carregamento de vacinas contra a covid-19 em troca de um tratado que facilitasse a deportação de uigures. Mais ou menos o mesmo aconteceu em outros países islâmicos, como o Paquistão, os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e o Egito. Entre a solidariedade aos muçulmanos uigures e o dinheiro da China, eles nem piscaram na decisão.

“Para autocratas e candidatos a autocratas ao redor do mundo, o governo chinês oferece um pacote”, escreve Anne Applebaum. “Parece mais ou menos assim: concorde em apoiar a política da China em Hong Kong, Tibete e contra os uigures. Compre equipamentos chineses de vigilância. Aceite o maciço investimento chinês. Então, sente-se e relaxe, sabendo que não importa quanto sua imagem fique ruim aos olhos da comunidade internacional de direitos humanos, você e seus amigos continuarão no poder.” 

Applebaum conclui que os chineses não estão se limitando a fazer acordos de interesse mútuo com ditadores. Hoje, eles têm poder de decisão para impor sua vontade em estúdios de cinema e órgãos esportivos como a NBA.

A autora termina seu artigo na Atlantic com um alerta: “Se os americanos não ajudarem a levar regimes criminosos à Justiça, esses regimes irão continuar com um senso de impunidade. Continuarão a roubar, chantagear, torturar e intimidar não só dentro de seus países, como dentro dos Estados Unidos”. E do Brasil.

Título e Texto: Dagomir Marquezi, revista Oeste, nº 94, 7-1-2022

Um comentário:

  1. Em Brasília tem uma cambada de vadios e sem vergonhas que deveriam ser dependurados.
    Carina Bratt
    Ca

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