domingo, 10 de abril de 2022

[As danações de Carina] Somos como instrumentos de uma orquestra parada, à espera do maestro

Carina Bratt 

‘A Felicidade plena deve ser como um mal incurável dentro de nós‘.
Tompson de Panasco

O TAMANHO DO CÉU que me contempla, lá do alto, é igual aquele que espio daqui de baixo, ou mais precisamente da minha varanda. Sem tirar, nem suprimir ou 'desacrescentar'. Às vezes percebo um azul bonito e calmo, majestoso e inigualável... noutras, me deparo com nuvens densas e ameaçadoras me amedrontando o coração. Ao me encarar da sua imensidão infinita, esse céu deve saber quando estou feliz e quando não acordo com a cara esbanjando alegrias plenas para enfrentar as horas vindouras do meu cotidiano. Não entendo por quê, mas hoje, levantei da cama com o ‘pé esquerdo’.

Massamá, 28-4-2013, foto: JP
Nem sempre acontece. Mas, de quando em vez, sou vítima da sua sanha inconsequente. E quando o ‘esquerdo’ resolve dar às ordens, eu me sinto perdida num labirinto incomensurável. Possivelmente, por conta desse imprevisto, o transcorrer das horas se me apresentarão como se eu estivesse enfurnada num saco de gatos estabanados tentando abocanhar um único rato para acalmar a fome descomedida da primeira refeição. Nessas manhãs contrárias aos meus devaneios e de poucos amigos, a minha vidinha se faz medíocre e particularmente insossa. Tipo assim: tudo o mais parece não ter um sentido lógico e coerente.

É como se o peso do mundo quisesse desabar sobre meu esqueleto, todas as suas frivolidades. Em razão disso, quando me contemplo no espelho do banheiro, não percebo a recompensa do tempo que passei sob o chuveiro frio. Tampouco meu corpo se coaduna ao ambiente. Vejo tudo por uma ótica insensata e atroz. Minha visão se abre vagarosa e espantada para uma agonia ainda não vivenciada. A escova ao correr pelos cabelos, por exemplo, não mudará o perfil para aquela postura que eu esperava com ansiedade.

O batom de sempre não avivará a cor maviosa que eu pretendia para encarar o que virá a seguir, quando fechar a porta da sala e encarar o elevador do décimo oitavo ao hall no térreo. O dia de hoje, portanto, sem aumentar ou diminuir, promete ser irritadiço, acrimonioso, árdego e raivento, a partir do café que tomarei na padaria da esquina. Ok! Vencida essa etapa, suponho, 'antecedentemente', o segundo lanço será mais neurastênico e infeliz, azedo e anojado. Dito e feito! Ao regressar à garagem do meu edifício, para pegar meu carro, encontro o pneu dianteiro furado. Lembro que o sobressalente, faz dias, esvaziou...

Com a correria não tive tempo para fazer uma visita ao estepe no porta-malas. O desgranhado fez a gentileza de me deixar na mão semana passada na Marginal Tietê e eu me esqueci completamente de passar no Marcelo borracheiro e remendá-lo. Melhor esquecer e pensar no agora. No hoje. Sem maiores delongas, pico a mula. Corro, afoita, para o ponto de ônibus. O 'papa-filas’ até o prédio onde funciona a redação certamente será caótico. Virá cheio, abarrotado com pessoas saindo pelos bolsos do motorista, uma vez que os cobradores foram banidos das roletas charmosas e barulhentas.

Encaro, sem reclamar, entre tapas e pedidos de desculpas, um articulado super lotado, com braços e pernas entrelaçados num amplexo surreal. Desodorantes vencidos, advindos de axilas suadas, seguidas de vestimentas mal lavadas, agrupadas às bocas com hálitos bafejando as podridões dos dentes não escovados com esmero, tomam conta do quadrado onde consigo chegar sã e salva. Com tudo fechado, os distribuidores de ar condicionado precários, viajo, com os buracos do nariz em pé, mormente envolta no calor abafadiço de outras criaturas que se acercam em derredor de mim, igualmente sem ter para onde escaparem.

Apesar da máscara 'Covid-ana'-19 que uso, os espirros, em sequência arrancam fisionomias antipáticas querendo me arrancar o fígado. No mesmo agrupamento, uma raiva genuína brotada de passageiros insatisfeitos se aperta, se comprime uns aos outros, ensanduichando meu corpo magricelado ao de um gorducho de rosto amarelo-mostarda resmungando palavrões de um dicionário pornográfico aberto na sua cachola sem um fio de cabelo, destituída, outrossim, de uma gota de educação e polidez. Desta feita, me dou conta que não estou presa a um saco de gatos.

Me flagro aturdida, sem eira nem beira, entre bestas feras, os gestos ferozes como se quisessem devorar os passageiros numa abocanhada à imitação de King Kong intencionando mandar vê na Ann Darrow. Como um bombom derretido, quarenta e cinco minutos depois me despeço daquele mar de criaturas como almas penadas em meio a um inferno tormentoso e desordenado. Desço, suando em bicas. Aporto na calçada. À alguns metros à frente, a torre imponente da revista para a qual escrevo. Me apadrinha, essa visão, um sorriso cálido de boas vindas. A mulher sacudida que está dentro de mim, me avisa que preciso me recompor.

Chegar no pavimento onde funciona o cérebro da redação e me sentar diante do computador para escrever a matéria do dia seguinte à ser entregue ao editor, determina, para minha mente desalinhada, que ao menos eu passe pelo toalete e me refaça um pouco do trauma vivido dentro do buzu desconfortável. Os colegas jornalistas que cuidam de outros assuntos, se me verem com ares tresloucados e espalhafatosos, como se seu tivesse saído de um campo de guerra, obviamente cairão na gargalhada pensando que, nessa manhã de abril eu fui sumariamente abduzida por homenzinhos verdes para um planeta de malucos e abilolados da ideia.

O tamanho do céu que me contempla lá do alto ainda é o mesmo, igual quando pulei da cama, e, na sequência, me atirei para fora do apê. Nada mudou. O que fez (faz e fará) a diferença é e será o cenário, tal como o vejo agora. Calmo, sereno, tranquilo, apesar dos transtornos que me foram impostos. Procuro, a cada ‘matinar’, superar as agruras, anediando as mágoas e escabrosidades que teimam em vir, quando o ‘pé esquerdo’ faz questão de querer, ou tentar me estragar os encantos suntuosos do dia radiante. Procuro de todas as maneiras despertar para a vida, cada manhã, renascendo na vontade do Altíssimo.

Entendo que só o fato de me sentir viva, caminhar até a varanda, respirando e com saúde, é uma dádiva, uma conquista, um triunfo. A gente não deve transferir ou renunciar aos pontos considerados ruins. Mesma nota, jamais esmorecer, fraquejar, afrouxar ou se sentir traída pela má sorte, mesmo quando ela insiste em nos deixar para baixo. Todos os dias, eu saio do aconchego do meu lar para trabalhar. Parto, ávida de todos os rumos, me aquilatando renascida, renovada, dona de mim. E mais: me vejo vivificada, cheia do Espírito da Conquista. Por assim, me ponho avante, a cabeça erguida, os olhos e os sentidos interligados no Futuro. O Futuro é uma porta que não se fecha.

Essa Felicidade que apregoo, por seu turno, não é diferente da Felicidade que está ao alcance de vocês, minhas queridas leitoras de todos os domingos. Acreditem, ela tem a mesma isenção de uma Esperança que em mim, e, dentro de meu ser, me faz ser forte e poderosa, invencível, altiva, irresistível, vitoriosa, sobretudo vitoriosa para encarar os desencontros e desacertos dos costumes e hábitos catemerinos. Procurem, pois, seguir a minha fórmula. Não há nenhuma mágica nela. Lembrem: a Felicidade (a minha e a de todas vocês) se refaz, se renova e se remoça. Em epítome, EUZINHA SOU, E, CERTAMENTE TODAS VOCÊS SERÃO COMPLETAMENTE FELIZES. BASTA ACREDITAR... A FÉ AINDA REMOVE MONTANHAS.

Título e Texto: Carina Bratt. De Sertãozinho, interior de São Paulo, 10-04-2022

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