domingo, 1 de maio de 2022

[As danações de Carina] De um anjo Muritibano

Carina Bratt

‘How you die is the most important thing you ever do.’
Timothy Leary

PELA MINHA CURTA PASSAGEM por Salvador, na Bahia, tive contato com muita gente boa. Depois de revisitar a casa de Jorge Amado, na Rua Alagoinhas número 33, no famoso bairro do Rio Vermelho, fiz passeios ao Farol da Barra e à Ilha de Itaparica. Conheci de perto a praia mais bonita, ou a Praia de Ponta de Areia (não que as demais da bucólica Ilha não sejam). Tomei um dejejum na casa que a Ivete Sangalo alugou em Trancoso (a mesma que foi disponibilizada para a internacional Beyoncé) e, por fim, lanchei no frontispício do Elevador Lacerda, na Praça Cayru (Cidade baixa, abraçada ao ‘Mercado Modelo’).


Depois, parti para a Praça Tomé de Souza (Cidade Alta), no Centro Histórico de Salvador, onde crianças de uma escola local (a Estadual Odorico Tavares) recitavam versos de poetas da terra. Não trarei à baila os famosos. Discorrerei apenas versos de um desconhecido. Aliás, um ilustre desconhecido que nada deixa a desejar a Castro Alves, Firmino Rocha, Ruy Espinheira e José Carlos Capinam. Falarei do baiano CARLOS MACHADO, nascido em 1951 na pequena Muritiba, município distante de Salvador, a apenas 114 km. Fiz questão de gravar alguns textos, a meu entendimento, pérolas que me chamaram a atenção, exatamente por serem simples, e, ao mesmo tempo, de grande profundidade.


E é exatamente dele, CARLOS MACHADO, autor de ‘A Mulher de Ló’, ‘Tesoura Cega’, ‘Pássaro de Vidro’, e do infantil ‘Cada Bicho Com Seus Caprichos’, que trarei até vocês, minhas leitoras, e, igualmente à família ‘Cão que Fuma’, alguns de seus trabalhos, considerados pelo meu coração apaixonado e em festa constante, simplesmente I N I M I T Á V E I S.


PÊNDULO

o braço do pêndulo
nunca se agita 

apenas acena sem 
ênfase 
em compasso de 
despedida

PUNHOS

o tempo tem punhos 
de renda 
e toda a cerimônia dos 
carrascos 

na mão direita três 
punhais 
ponteiros de metais 
cravados 
na pele fria de cada 
hora que vai 

MARGARIDA

na margarida 
do relógio 

desfolho uma a uma
as pétalas do dia 

nesse jogo 
de sal e saibro 
toda pétala 
a mais é 
vida a menos 

e toda flor 
malmequer 

CÂMERA

uns preferem 
a morte discreta 
asséptica 
sem vexame 

outros apostam 
no alvoroço 
enxame 
de câmeras até 
o osso do nada 

timothy leary 
guru 
lisérgico não quis 
o analgésico 
do silêncio 

morreu em show 
cibernético 
câmera aberta 
para o olho 
poente 

Título, Imagens, Vídeo e Texto: Carina Bratt, de Santo André. São Paulo, Capital. 1-5-2022

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