sábado, 24 de dezembro de 2022

[Versos de través] Feliz Natal!

Natal

Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo Deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.


Fernando Pessoa, em ‘Poesias’



Natal Divino 

Natal divino ao rés-do-chão humano, 
Sem um anjo a cantar a cada ouvido. 
Encolhido 
À lareira, 
Ao que pergunto 
Respondo 
Com as achas que vou pondo 
Na fogueira.

O mito apenas velado 
Como um cadáver 
Familiar… 
E neve, neve, a caiar 
De triste melancolia 
Os caminhos onde um dia 
Vi os Magos galopar…


Miguel Torga, em ‘Antologia Poética’.


Último Poema

É Natal, nunca estive tão só. 
Nem sequer neva como nos versos 
do Pessoa ou nos bosques 
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr 
entre o fulgor dos cravos 
e os dióspiros ardendo na sombra. 
Quem assim tem o verão 
dentro de casa 
não devia queixar-se de estar só,
não devia.


Eugénio de Andrade, em ‘Rente ao Dizer’.


Falavam-me de Amor

Quando um ramo de doze badaladas 
se espalhava nos móveis e tu vinhas 
solstício de mel pelas escadas 
de um sentimento com nozes e com pinhas, 

menino eras de lenha e crepitavas 
porque do fogo o nome antigo tinhas 
e em sua eternidade colocavas 
o que a infância pedia às andorinhas. 

Depois nas folhas secas te envolvias 
de trezentos e muitos lerdos dias 
e eras um sol na sombra flagelado. 

O fel que por nós bebes te liberta 
e no manso natal que te conserta 
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia, em ‘O Dilúvio e a Pomba’.


Voto de Natal

Acenda-se de novo o Presépio no Mundo! 
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos! 
Como quem na corrida entrega o testemunho, 
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos. 

E a corrida que siga, o facho não se apague! 
Eu aperto no peito uma rosa de cinza. 
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade, 
para sentir no peito a rosa reflorida! 

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece, 
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida… 
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve: 
dentro de mim não sei qual é que se eterniza. 

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas! 
O calor destas mãos nos meus dedos tão frios? 
Acende-se de novo o Presépio nas almas. 
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.


David Mourão-Ferreira, em ‘Cancioneiro de Natal’


Anteriores: 

“O Pão Maldito”, de Guy de Maupassant (poema traduzido) 
The sorrow of love 
Eu sei que vou te amar 
Sobre um poema 
A velhice 
Tristeza 
Canções peregrinas 
na hora de pôr a mesa, éramos cinco 
Te amo e não te amo 

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