terça-feira, 20 de dezembro de 2022

[Aparecido rasga o verbo] Vento de través

Aparecido Raimundo de Souza

UMA CORRENTE de ar esquisita vinda de Cuba ou Venezuela soprou, assim do nada, de uma direção de tomada lateral, ou seja, um vento estranho, de cara feia, amarrada, baforou para a transversal da aeronave. Se eu não fosse um piloto mais ou menos esperto, ou não estivesse no cockpit de comando, com o avião todo pronto para aterrissar, atarracado na cabeceira da pista, quase tocando o solo, talvez não tivesse tido a ideia de arremeter imediatamente. Arremeter, aqui, no sentido de potencializar o motor à toda velocidade e ganhar o infinito de novo. Mesmo que não fosse um céu de brigadeiro.

Tal saída, bem sabia, carecia ser de pronto. Eficaz e sem mais delongas. Na verdade, se fazia tão premente e correta, prestes e urgente que não abria rotas de fuga para outra alternativa viável. Se deixasse passar o momento, correria o sério risco de ficar com a fuselagem dançando numa pista curta, grudado num balé clássico, com o manche e todos os demais instrumentos desafinados. Doidejaria (1) de voo às cegas, tipo capengando as apalpadelas. No pior dos azares, desequilibraria toda a estrutura e com o trem de pouso “despousado” me espatifaria como um cristal caindo de encontro ao não sei o quê.

Apesar da vasta (vasta, ou nenhuma??!!) experiência de quinze dias na cabine do jatinho executivo com capacidade para oito passageiros, veria o Erasmo Carlos e Gal Costa mais cedo. Eu voava num Learjet 45 Bombardier bimotor de médio porte e alta performance, prefixo PT-ADM. Foi uma musicata (2) de esguelha (3), ou de diagonal, que me desequilibrou o cangote da nuca, e insuflou em meus ouvidos a perceber uma situação inusitada. Cadê o coador do STF, digo, a biruta? Então sem ela para me indicar a posição do vendaval, precisei dar uma de doidão. Subi correndo, meio que cambaleante, ou acabaria sendo arrastado para um precipício horrendo e sem volta. Quem sabe desse com os costados das asas nas terras de Vladimir Putinho.

Necessitei ser forte ou seria, de fato, arrastado como uma folha seca ao acaso. E não saberia dizer onde teria parado. A carta de navegação foi para o raio que a fez partir de perto de mim. Talvez sobrevivesse às intempéries dessa aragem surgida do nada, ou via outra, não escapasse do evento não programado e até então nunca experimentado, ou no pior dos desastres, sucumbisse dando com a carcaça em algum covil de cobras cheio de lulas saídas de algum armário subterrâneo dos quintos de Caetés. Ou, ainda, em via secundária, último recurso, perdesse a vida. Nunca saberei o que uma ventania daquela magnitude causaria a um simples ser vivente inexperiente diante de um anélito (4) hostil e antagônico de natureza agressiva.

Um infenso (5) encanado, complexo, escuro, impenetrável, “caixa preta” tipo o curral dos “porcos-senado-câmara-stf-ste”, que não deixa margens a dúvidas e tem somente a intenção de destruir, de acabar com tudo. Além de simplório, totalmente bisonho, sem falar na minha natureza fraca e derreada. O fato é que me safei por pouco, e, graças a Deus, se hoje me pego vivo e inteiro, devo dar urras e vivas ao Eterno. Não fosse por obra do Divino, estaria, sei nem onde, talvez metido e enterrado num precipício repletado de galheiros sem volta ao planeta dos vivos. Não conheço o outro lado, admito. Não sei como é, ou deixa de ser. Para falar a verdade, não tenho a menor vontade de descobrir se por lá tem residência fixa algum renam dos tempos da CPI da Covid-19 ou outras merdas parecidas com as proezas de Che Guevara.

O chão mavioso e firme dos vivos, o que me acolhe agora, pode não ser bom, maravilhoso ou supimpa... - mas aqui, eu me sinto confortável, alegre, saltitante, irmanado e perto de pessoas que conheço e se alegram com a minha presença. O outro lado, o andar de cima, o seguir após sepultura, com ou sem Paraíso aquém primeiro de janeiro vindouro, pode ser acolhedor, gasalhoso (6), hospitaleiro, atraente, legal, maneiro. Apesar de todas essas vicissitudes, pilotando um avião imaginável, de nariz entupido, nem pensar... mais cômodo ficar aqui quietinho, no meu canto. O incerto, o duvidoso, o ambíguo me deixa nervoso. Me faz apartado. Divorciado. Resumindo: fora de mim... fora de meu corpo, sou carne apodrecida para atração de urubus. Se ao menos estivesse em Brasília... derrubaria a torre de televisão.

Notas de rodapé: 
1) Doidejaria – Variante de vagabundear ou endoidecer. 
2) Musicata – Musical ruim. Melodias odiosas tipo as de Pabllo Vittar. 
3) Esguelha – O olhar maroto, ou de viés, de todos os politicos brasileiros. 
4) Anélito – Bafo, hálito imperioso desde os tempos de Dilma e Temer. 
5) Infenso – Inimigos adversos. São encontrados na Câmara dos Deputados, e outras pocilgas existentes no Planalto Central. 
6) Gasalhoso – O mesmo que hospitaleiro. Apesar das putarias, apenas como exemplo, o Brasil ainda é um país aberto a todos os portos.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. 20-12-2022

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