sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

[Aparecido rasga o verbo] A Face de Cristo

Aparecido Raimundo de Souza

VEZ EM QUANDO (principalmente em dias de aproximação do Natal), a imprensa inventa historinhas para bois dormirem (não só bois, seres humanos também) e divulga, segundo alguns jornalistas imbecilóides, a nova e verdadeira face de Cristo. Seguindo uma velha estratégica de contestar as tradições e pisar nos ovos e nos calos do santo do pau oco, o Mingau, perdão, o papa, seus inimigos continuam por aí à solta, sempre prontos a propagarem as “novidades”, sem nenhum fundamento de verdade. Afinal, senhoras e senhores, como seria Jesus Cristo? Alguma vez os prezados leitores pararam para refletir sobre essa tão profunda indagação?

Quando os evangelistas redigiram seus textos, o foco desfocado de sua atenção passava longe da anatomia de Jesus Cristo. Antes se fixaram no fato de que o verbo de Deus se fizera carne, nascendo de mulher, conforme as Escrituras. Naturalmente, registraram suas palavras e os “sinais” miraculosos que realizara, com realce para sua Ressurreição. Algum tempo iria correr antes que a devoção popular se preocupasse com a aparência humana do Filho de Maria e de José.

Segundo Georges Gharib cidadão especialista em Mariologia (Mariologia, é o estudo aprofundado acerca da Virgem Maria, mãe de Jesus Cristo), em seu livro “Os Ícones de Cristo: História e Culto” pela Editora Paulus edição 1977, 290 páginas, aprendemos que “a imagem de Cristo, aparecida desde os tempos mais antigos na arte cristã, antes de chegar à perfeição incomparável que hoje conhecemos, teve de percorrer um longo caminho através de contextos históricos complexos e dependências culturais de várias espécies”.  De fato, já nas catacumbas romanas (Século III e IV, a imagística dos cristãos criou cenas de Magos, a ressurreição de Lázaro e cenas de Paixão).

Para tanto, foram superadas as proibições do Antigo Testamento quanto à produção de imagens, diante da realidade esmagadora da Encarnação do Verbo, com o Filho do Altíssimo assumindo um corpo que poderia ser visto, ouvido, tocado e... retratado.  Para Georges Gharib, a “idade de ouro de Justiniano” (Século VI e VII d.C) foi a fase da arte cristã que melhor refletiu o “humanismo” dominado pela figura de Cristo. Cresce, então, o esforço para encontrar as feições e os traços corporais do Mártir do Gólgota da história.

Havia duas “fontes” para fornecer tais informações: As “Aquiropitas” e o santo Mandilion de Edessa.  Vamos explicar em rápidas pinceladas ambas as palavras. “Aquiropitas”, eram chamadas as imagens (pinturas) que, literalmente, não tinham sido produzidas por mãos humanas, como a Aquiropita de Camuliana, na Capadócia. Nos mesmos passos do Credo, o santo Mandilion se constituía num autentico retrato de Cristo, impresso miraculosamente em uma toalha (em árabe “mandilion”), por Ele mesmo, e enviada ao rei de Edessa, Abgar pouco antes da Paixão e Morte de Nosso Senhor. Por volta do ano 30 d.C, Abgar V, toparca de Edessa, doente de lepra e da gota serena e crônica, sabendo da fama de Jesus, como taumaturgo, enviou lhe um intermediário, de nome Ananias, com dupla tarefa: entregar-lhe uma carta e fazer-lhe o retrato.     

Ananias era pintor. Não pintava como Salvador Dali, nem Daqui, tampouco como Claude Monet ou Vincent van Gogh. Mas dava lá suas pinceladas. No encontro, Jesus pediu água para lavar o rosto e uma toalha, na qual imprimiria a sua própria imagem. Ao receber a tolha e uma carta ditada por Jesus, Abgar se viu curado, com exceção de um pequeno ponto de lepra na testa. Após a Ascensão de Cristo, tendo recebido o batismo cristão, Abgar se viu completamente curado. O santo Mandilion escapou as inundações e as invasões inimigas e seria transladado para Constantinopla em 944 d.C. 

Em 1204, quando Constantinopla foi saqueada pelas tropas latinas (tropas estas que entraram na cidade latindo com ferocidade jamais vista), da Quarta Cruzada, o Mandilion desapareceu. Criou perna. Virou poeira. Entretanto, foi reconhecido o tempo suficiente para que várias gerações de monges iconógrafos chegassem a estratificar uma imagem padrão do rosto de Cristo. Um desses modelos é o “Cristo Pantocrator”, isto é, como leciona a professora Dra. Wilma Stegall de Tommaso, em seu brilhante trabalho “CRISTO PANTOCRATOR: A ORIGEM E SUA DIVULGAÇÃO NO BRASIL” (disponível para baixar, na Internet).

Pantocrator se traduz segundo explica a Dra. Wilma, por “Todo Poderoso”.  Em razão disto, o Pantocrator pode ser encontrado em cúpulas e absides dos templos cristãos, em selos e moedas, marfins e evangeliários. Em outras palavras, “é o retrato de um homem adulto, com aproximadamente trinta anos de idade, quase sempre em meio busto. Sua mão direita abençoa à moda grega e a esquerda, traz um livro aberto ou um rolo. Tem o rosto alongado, sobrancelhas arqueadas, olhos grandes e abertos, fixos no espectador. Nariz comprido, mas delicado, barba longa, bigode caído, cabelos ondulados que descem, em cascata, sobre os ombros. Na fronte, larga e alta, se destacam três ou mais cachos de cabelo. Suas vestes são típicas da Palestina: túnica, manto e sandálias”.   

De tempos em tempos, “gratia argumentandi”, surge um novo livro (cheio de hipóteses arbitrárias) que pretende revelar a “verdadeira história” de Nosso Mestre e primogênito do Senhor do Universo. É o caso do livro “Eu vi Jesus e beijei a sua face”, de Orlando Cajimoto Editora do Autor, Florianópolis, Santa Catarina, Edição 2018, com 165 páginas. Diz a criatura: “Jesus tem o rosto de um menino travesso. A mim me lembra a face angelical e ao mesmo tempo séria e destemida, de Tom Welling, o Clark Kent da série “Smallville”. Sua rapidez em decidir pelo certo e errado, a sua honestidade acima de tudo, a bravura, a tolerância, o destemor e o  prático senso de justiça. Me espelho nele e tenho Jesus no coração, ainda que ele não saia voando por ai”.

Mesma patacoada, possivelmente querendo partir para o “animus jocandi”, Lucilia de Almeida Albertino, em “Meu rosto inesquecível: Jesus de Nazaré” Editora Nós da Católica, Edição 2005, da pitoresca cidade de Amargosa, na Bahia, em seu frunchético opúsculo de 68 páginas retratou o Menino Deus desta maneira: “Oxe, mainha! Jesus é um pedaço de mal caminho. Tem o rosto de “João das Botas”, a voz melodiosa de Dorival Caymmi, a versatilidade romanesca de Jorge Amado e a inteligência ímpar de Manoel Augusto Pirajá da Silva, este derradeiro um dos maiores e mais conceituados parasitologistas mundialmente conhecido, além-mar da Bahia de São Salvador”. 

Alguns outros autores sugerem que a igreja “ocultou” a verdade sobre Jesus, ou optou por um modelo “Branco” (e, por isso mesmo, politicamente incorreto) do Messias. A desonestidade, ou melhor, a imbecilidade de alguns autores (como dissemos no inicio do texto, imbecilóides) vai ao ponto de apresentar os velhos evangélicos apócrifos (evangelhos não reconhecidos), encontráveis em qualquer livraria especializada, como a “Ultima Revelação” sobre Cristo, sonegada pela igreja ao conhecimento público.   

Entre cruzes e sepulcros, o fato é que Deus se fez homem. Num dado momento da história, na plenitude dos tempos, o Pai Maior escolheu um povo, uma tribo e uma família para ali nascer, entre nós, “Aquele que viria como, de fato, veio, para nos Salvar”. Este Ser Iluminado assumiu os hábitos e a língua daquele grupo humano. Viu o mundo com seus olhos. Se tivesse nascido na África, talvez fosse negro. Entre os esquimós, seria mongol, entre os brasileiros, jamais seria do PT. Preferiu os judeus. É, pois, o Cristo dos ícones. 

A todos os nossos amigos e leitores da Grande Família “Cão que Fuma”, um próspero e rico NATAL cheio de luz e fartura infinitas no dia mais lindo do ano.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 23-12-2022

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