sábado, 17 de dezembro de 2022

[Versos de través] “O Pão Maldito”, de Guy de Maupassant (poema traduzido)

Autor: Guy de Maupassant 
Tradutor: Silvestre Lima
Ano: 1901
Transcrição e atualização: Iba Mendes (2018)

Abençoado há um pão, — esse que sem alarde, 
Mas, com valor da terra é preciso arrancar. 
É o pão do trabalho, o que aos filhos, à tarde. 
O pai risonho traz, quando recolhe ao lar. 
Mas, outro há que nos deixa acre e eterno resquício 
Nos lábios, pão que o inferno espalha em profusão. 
Filhos, deste fugi, pois que é o pão do vício! 
Meus filhos não toqueis nesse maldito pão! 

Respeite se o infeliz que, já de forças falho 
Pelos anos, — nos pede uma esmola, a gemer. 
Despreze-se, porém, o que foge ao trabalho 
E ousa a valida mão a quem passa entender. 
Quem assim pede rouba ao que tombou na liça, 
Exausto e velho, e dorme esfalfado no chão. 
Vergonha a quem assim nutre o pão da preguiça!... 
Meus filhos, não toqueis nesse maldito pão!... 

Costureira gentil, mesmo, onde estás, marulha 
A onda, e chega-te aí mesmo a voz do sedutor.... 
Pobre criança, vá!... Não desprezes a agulha! 
Pensa que és de teus pais o seu único amor. 
No luxo torpe e vil, como acharás encanto, 
Quando a te maldizer teus pais expirarão? 
É o pão da desonra, amassado com pranto... 
Meus filhos, não toqueis nesse maldito pão! 


*** 

Autor: Guy de Maupassant 
Tradutor: Bento Ernesto Junior
Ano: 1901 
Transcrição e atualização: Iba Mendes (2018) 

Há um pão santo que na terra brota 
Regado aos poucos com o suor do rosto 
Pão do trabalho, que alimenta os pobres 
Dá-nos vigor, consolação e gosto. 
Mas outro existe que a infâmia amassa 
E o inferno serve descaradamente... 
No pão do crime não toqueis, meus filhos, 
É pão maldito que envenena a gente! 

Socorro ao pobre que, curvado de anos, 
Pede a quem passa piedosa esmola. 
Tristes velhinhos que a desgraça esmaga.... 
A caridade o próprio Deus consola. 
Mas, nunca o obreiro preguiçoso e mau 
A mão estenda aviltadoramente. 
É pão de crime! Não toqueis, meus filhos, 
É pão maldito que envenena a gente! 

Gentil criança, costureira escuta: 
Não sigas nunca as seduções do mundo; 
Ouve os conselhos de teus pais amigos 
Porque a desonra é um lodaçal profundo.... 
Todo esse luxo que te embriaga a vista 
Em si contém a podridão fremente. 
No pão do vício não toqueis, meus filhos, 
É pão maldito que envenena a gente!  



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