domingo, 18 de dezembro de 2022

[As danações de Carina] Lembranças das minhas babuchas de camurça

Carina Bratt

MEU PAI, por ser militar da ativa, mudava muito de um Estado para outro. Coisa de maluco beleza, à obstinação de Raul Seixas. Tanto podíamos estar no Rio de Janeiro, na Ilha do Governador, como em Brasília, num apartamento na W3 Norte, como em qualquer outra localidade onde existisse um quartel. Lembro que num desses infindáveis, deslocamentos, fomos morar no Quilômetro Dezoito, um bairro que ficava incrustrado entre Osasco e Carapicuíba, interior de São Paulo.  

Papai assumiu o 4º BIL Regimento Raposo Tavares (Aquartelamento Duque de Caxias), cuja entrada principal para a Vila Militar se fazia exatamente entre a passagem de nível das linhas férreas da antiga Estrada de Ferro Sorocabana, colada à Estação de Quitauna. Um mês antes, um amigo de meu velho, o senhor Élcio (que na época trabalhava na fábrica de Lâmpadas Osram do Brasil, na Avenida dos Autonomistas), se viu intimado a arranjar uma casa para que a nossa família se mudasse sem maiores problemas, como sempre, de mala e cuia.  

Assim se deu. O novo espaço se erguia numa rua pacata, lembro bem, ou melhor, Avenida Vitório Tafarello, número 715. Essa via não era calçada. Quando chovia, os carros ficavam atolados no barro, em face da enxurrada que descia de uma elevação próxima tomar conta de tudo. O novo lar se constituía numa construção simples e acolhedora. A cozinha grande, os quartos enormes e dois banheiros espaçosos. Nos fundos, um quintal relativamente dilatado (1) abrigava uma fundação menor, tipo uma quitinete aleijada, ou feita pela metade, pertencente ao mesmo proprietário.  

Nesse puxadinho se asilava uma mulher e marido com nada menos que quatro crianças.  Três meninas e um piá, variando praticamente às idades com os meus poucos janeiros. Havia um poço, onde mamãe e dona Marília (a albergada dos fundos) tiravam água puxada por um balde movido a corda e manivela. Logo fiz amizade com as meninas e praticamente quando não estávamos na escola, nos divertíamos com um rol infindável de brincadeiras sadias de uma infância que hoje não existe mais.  

Na Avenida Vitório Tafarello, muitas árvores frondosas faziam sombras acolhedoras. Em algumas, a gente subia, amarrava balanço, montava casinhas de bonecas, brincávamos de papai e mamãe, de pula corda, enfim.  Na avenida (de avenida não tinha nada), um bando de moleques que morava próximo, se juntava a nós, ao fluxo em que a vida passava lenta e majestosa ao sabor melodioso dos arredados tempos que se perderam nos redemoinhos do nunca mais. 

O que tinha de pombos! Na minha concepção, essas criaturas superavam os soldados comandados por papai. Bastava a gente sair no portão (fosse para brincar ou voltando da escola), as pequenas voadoras se achegavam em busca de comida. Tinham uma fome que não cessava. Costumávamos dar um tempo alimentando as beldades que, aninhadas às nossas estripulias, nem se davam ao trabalho de baterem asas em retirada. As barriguinhas falavam mais alto. E a fome, negra.  

Recordo um certo dia, voltando do grupo escolar, avisei uma avezinha morta. Penalizada, resolvi não deixar a infeliz jogada ao sabor de predadores. Próximo, num terreno baldio, moradores inescrupulosos jogavam lixo aos borbotões, o que ajudava a trazer urubus de bicos sequiosos por qualquer coisa que se fizesse sem vida. Convidei a Sandra e a Lívia (as duas dos fundos lá de casa) a me ajudarem a providenciar um enterro decente para a desditosa.  

Outras garotas se solidarizaram com a minha maluquice, trazendo roupas velhas e uma caixinha de sapatos para fazer a vez de um pequeno caixão. Hoje, essa ideia tresloucada, na hora em que escrevia meu texto, me fez dar boas gargalhadas. Cheguei a me debulhar (na sequência, e confesso, sem me importar com a vergonha), em lágrimas. Lágrimas e risos, amigas leitoras, em certas ocasiões, nos confortam a alma e nos tornam mais fortes. Em retorno aqueles idos, até poderia ser meio inconsequente e ilógico, abstruso (2) e sem nexo: enterrar uma pombinha falecida.  

Dentro de mim, todavia, um senso compartilhado de ‘amor maternal’ não me deixaria deitar a cabeça no travesseiro e dormir como se nada relativo ao passamento daquela ‘pessoinha’ desprotegida não tivesse sido presenciado pelas batidas descompassadas do meu coração. O cemitério improvisado se fez numa praça próxima, abandonada às moscas, por volta das vinte horas, quando somente se via ocupada por casais de namorados que ali se aglomeravam em bancos com assentos pela metade, para as trocas de caricias mais ardentes no melhor estilo de Chéri Colette (3).  

Depositamos o ataúde perto de um abacateiro. Depois de cavarmos a terra com garfos e colheres até onde a caixinha seria posta sem que ficasse às sanhas de abelhudos e o abrigo final da pombinha viesse a ser desumanamente violado, fizemos a cobertura, batendo com os pés.  Até onde sei, nunca foi. Pelos menos nos cinco anos em que papai permaneceu por aquelas paragens. Antes dos funerais batizamos a pombinha com o nome de ‘PAZ’.  

Não era uma ave de roupagem branca. O que valia, para nos, principalmente para mim, em particular: um nome. Em dias de hoje, creio, somente ‘O Mentalista’ vivido pelo ator Simon Baker, na pele do inoxidável ex-médium, Patrick Jane, com suas observadas deduções de alta precisão teria descoberto o local e trazido à baila, nosso inusitado e excêntrico ‘enterro’.  

Dentro de mim, essa lembrança tão distanciada, porém viva e pulsante da minha vida atual, pode não ser algo que se possa guardar num escondidinho, e, ao ser memorado, se alardear... - ‘Nossa, que loucura!’.  No fundo do meu ‘eu’ serve e sempre, indefinidamente, auxiliará como barômetro para avivar e abrilhantar, medindo, em tempo real, as minhas terminações mais preciosas e imorredouras de uma quadra que guardo envolta numa ternura casada de papel passado em cartório, dentro das minhas melhores e mais saudosas relíquias das quais nunca me desvanecerei (4). 

Notas de rodapé: 
1) Dilatado. Que está aumentado de volume. 
2) Abstruso. Fato ou coisa difícil e ser compreendido. 
3) Chéri Colette. Sidonie Gabrielle Colette, escritora francesa (1873- 1954). Autora de ‘A Ingênua libertina’ e ‘A Vagabunda’. 
4) Desvanecerei. Tudo aquilo que por um motivo ou outro, a pessoa quer fazer desaparecer para sempre. Variante de esquecer, olvidar. 


Título e Texto: Carina Bratt. Da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. 18-12-2022

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