domingo, 27 de novembro de 2022

[As danações de Carina] Eu só queria saber...

Carina Bratt

EM QUE PARTE DE VOCÊ ele ficou? Me diga, me esclareça. Preciso saber. Necessito dessa resposta. Careço dela para ontem, de maneira urgente. Ah, Você não sabe, não é mesmo?!   Eu sei que você não sabe. E você também sabe que eu sei que você não sabe. Pois é. Jogo de palavras. Discursos vazios, manifestos ocos, ilógicos, discordantes, destituídos de fundamentos coerentes e afinados, sonantes e harmoniosos.

Compreenda, lado outro, que em mim, dele, em mim, dele, nada restou. Nem um resquício (1) de saudade. Nada de nada para se guardar como lembrança, como recordação perene, infinda, e sempiterna, tipo assim, uma coisa rara, porfiosa (2), um brilhante consistente, uma joia imarcescível de valor inestimável e perpétuo. Algo mais específico e precioso que ficasse no ‘para sempre’ dentro de ‘nossa alma’, ou pelo menos, na minha. 

Por falar em alma, me lembrei Raul de Leoni que assim a descreveu: ‘Em teu delirante desalinho, crês que te moves espontaneamente, quando és na Vida um simples rodamoinho... formado dos encontros da torrente’ (3). Como se pode perceber, um delirante e desvairado desalinho, algo fósmeo (4), além do trivial, do corriqueiro, irmanado ao nosso sangue, grudado como chiclete em nosso DNA.

Todavia, se movendo espontaneamente embalado ao sabor dos encontros da torrente. De repente, não mais que isso, de repente, num piscar estagnado e abjeto de olhos, entre um minuto e outro, num segundo ligeiro e escorregadio, eu diria, tudo se transformou numa metamorfose ambulante, repulsiva, pavorosa e ignóbil. O amor foi para o espaço. Feneceu. A alegria, junto com ele, se partiu em mil pedaços.

Fragmentou. Virou algo intocável. Se fez pó cósmico se posicionando além do incompreensível. Em senda paralela, no meu peito se agigantou uma dor terrível e desfigurada ao compasso de uma nota musical despartiturada (5), fora do ritmo, ao tempo em que a maviosidade que andava sempre por perto criou coragem e voou. Bateu asas, se mandou de mala e cuia para um distante além galáxia se perdendo, igualmente, no infinito do imensurável sem retorno.    

E eu, meio que abestalhada, sem noção, ainda aqui, sigo insistindo, teimosa, obstinada, sequiosa por saber, por descobrir, por entender... e mais que entender, compreender: em que parte de você ele ficou? Dentro de mim, dentro de mim, reitero, restrugindo (6), nada restou. Nada para guardar como recordação, como um mimo que se põe numa caixinha, ou às vistas, dependurado num quadro pregado na parede da sala.

Em mim... em mim, de novo, reafirmo obstinadamente para que se lembre sempre... em mim nada restou... nada ficou para contar história... e eu... nessa altura do correr dos dias, dos meses, das horas, eu só queria saber onde ficou... droga, me responda, fale alguma coisa, não se cale, não se trave. Escancare a timidez, se abra, seja real, leal, autentico... onde ficou, por Deus, ONDE FICOU O MEU CORAÇÃO?!

Notas de rodapé: 
1) Resquício – Vestígio, migalha, indício. 
2) Porfiosa – Teimosia, persistência aferrada. 
3) Versos de Raul de Leoni – Do poema ‘Para A Vertigem’, no livro ‘Luz Mediterrânea’, São Paulo, Livraria Martins, 1959. 
4) Fósmeo – Indefinido, asnático ou misterioso. 
5) Despertiturada – Sem o conjunto que forma as diversas peças de uma melodia. 
6) Restrugindo – Tudo que é feito aos estrondos, ou que ressoa com grande alarido. 

3 comentários:

  1. No mesmo lugar de sempre, coração não sente emoções nenhuma.

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    1. Atualmente existem inúmeras emoções que podemos descrever, entretanto, vamos falar das 5 emoções básicas abaixo:

      Alegria – Esta emoção estimula a atividade CEREBRAL, inibindo pensamentos depreciativos e aumentando a energia da pessoa. Por meio da alegria conseguimos nos recuperar de momentos de tristeza, sentindo de imediato disposição e entusiasmo.
      Tristeza – Quando vivenciamos esta emoção, nosso metabolismo se reduz, causando de imediato uma perda da energia e do ânimo. A razão desta redução metabólica e de volição, é para que a pessoa possa ter um momento de reflexão CEREBRAL sobre sua perda ou frustração.

      Medo – Já percebeu a palidez no rosto de alguém tomado pelo medo? Isso se dá pelo fato de que o sangue é direcionado para os músculos ligados ao sistema esquelético. O medo é uma defesa natural, e ele possibilita que o indivíduo se prepare para fugir ou se esconder. Uma das estruturas mais antigas do cérebro, a amígdala cerebral, envia sinais de alerta para que o corpo possa agir no primeiro sinal de perigo INJETANDO ADRENALINA.

      Raiva – Fisiologicamente recebemos uma grande descarga hormonal CEREBRAL onde a adrenalina, o cortisol e a noradrenalina preparam o corpo para a batalha. Existe um evidente aumento dos batimentos cardíacos, deixando o corpo pronto para agir.

      Nojo – O nosso CÉREBRO percebe que algo ruim, seja cheiro ou sabor, está presente, nos protegendo de algo que poderia nos fazer mal. A expressão facial do nojo, ao enrugar o nariz e torcer a boca, sinaliza uma resposta evolutiva de proteção, para não sentir o cheiro de algo que poderia ser nocivo ou expelir um alimento que estaria estragado.
      (GOLEMAN, 2012)

      A ADRENALINA FAZ AUMENTAR OS BATIMENTOS CARDÍACOS.

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