domingo, 4 de dezembro de 2022

[As danações de Carina] Irmanados e à semelhança de um pequeno grande cachorro, venceremos toda a matilha que nos rodeia

Carina Bratt

ONTEM ACABEI DE LER um livro que se tornou a coqueluche da cabeceira de meu velho e saudoso pai. Aliás, era um dos muitos preferidos dele. O pai, quando gostava de um livro, se apegava a ele como um bebê sequioso ao bico de uma mamadeira. Claro que meu velho lia outros autores. Passado um tempo, voltava a se debruçar nas antigas páginas conhecidas e desgastadas só as deixando de lado quando as tivesse devorado de capa a capa.

Um pouco antes de ser internado (no hospital do Exército, meu velho se fizera militar de carreira desde tenra idade), de onde só sairia dias depois nos braços da morte, me pediu que levasse o opúsculo para que mais uma vez se deleitasse com as poucas páginas de uma história que ele rotulara de ‘suavemente perfeita’. Papai desta feita não conseguiu sequer abrir o livro. Quando deixou a UTI decidi tomar para mim o encargo de ser a guardiã dessa obra prima.

Desde sempre, o tempo vem passando e, então, esse livro se tornou o meu melhor amigo do peito. Nas minhas viagens com o Aparecido, entre os muitos títulos que carrego na bagagem, com certeza está o que papai amava como se fosse uma parte pulsante da sua vida. Ontem, como disse, logo no início das minhas ‘Danações’ desse domingo, acabei de concluir mais uma vez a emocionante história tão bem engendrada por Jack London. 

É a terceira vez em que me atenho a esse escritor fenomenal e intrigante, nascido John Griffith Chaney, aos doze de janeiro de mil oitocentos e setenta e seis, em São Francisco, na Califórnia e chegado à sepultura em vista de ter se entregue aos desprazeres e desconfortos do álcool, em Gren Ellen, aos vinte e dois de novembro de mil novecentos e dezesseis, quando gozava o albor dos quarenta anos.

Mais de cem anos depois, seu livro (o preferido de meu pai e, após o seu passamento para o andar de cima, se tornado o meu eleito também), continua a obra inimitável encantando e penhorando almas e mentes apaixonadas por uma ficção simples e bucólica, todavia repleta de amor a magia. Falo, evidentemente, de ‘O Grito da Selva’, publicado em mil novecentos e três.  Nele é relatada com uma profundidade envolvente, a vida corriqueira de um simples cãozinho doméstico, manso, simpático e sensível até dizer chega.

De repente, do nada o bichinho se viu arrancado meio que à força do seu cubículo familiar e pacato, para se tornar brabo e feroz libertando, de uma só vez, todos os seus instintos antagônicos e funestos. Por assim, de um simples totó de tapete de sala da fazenda de um juiz Miller, ao ser vendido pelo seu antigo dono a um desconhecido, se viu obrigado a se tornar brutal e alarvado (1) em face do chocante ocorrido em sua desvanecida existência canina, ou seja, o infeliz passou a purgar seus dias diante da árida paisagem do Ártico.

Buck, o herói de toda a narrativa, em face dessa mudança insana, abrupta e severa, passou a enfrentar uma matilha de lobos perigosos. Em dias de hoje, pasmem, amigas, em dias de hoje, sem tirar nem pôr, se assemelharia a nós (e quando menciono nós, faço referência direta a todos os seres humanos). Todos nós, ou todas nós, ‘entre aspas’ -, seres pensantes -, somos um pouco do pitoresco e manso Buck de London. Vivemos, como ele, aprisionados num canil gigantesco apelidado de ‘brasil’. 

Estamos rodeados de mil outras catervas (2) oriundas das mais diversas raças e ascendências. Todas, a bem da verdade, apodrecidas. Dito de forma mais categórica, a maioria desses vermes, trazidos de regiões e terras desconhecidas. Vegetamos um espaço ascoso (3) e emporcalhado em decorrência da abundância desenfreada de uma legião incalculável de animais parasitados. 

Nos tornamos uma espécie de tipologia estranha, ignóbil, estraçalhada, abodegada, nauseabundada por forças literalmente alienígenas.  Como o caseiro e dócil Buck, fomos arrancados do nosso habitat natural e jogados às feras. Passamos a respirar um ar podrido, fétido, improfícuo (4) e baldio (5). Como num terreno ocioso e clandestino, tipo a Cracolândia (apenas como exemplo ilustrativo), onde ninguém é de ninguém e todo mundo é uma ínfima fatia de toda a ‘comunidade nojosa e reprovável’.

Entendam, amigas, como ‘comunidade nojosa e reprovável’, um agreste sem eira nem beira, sem lei, sem ordem, sem as vicissitudes de uma vida limpa e transparente. Em oposto, matrimoniada de todas as degenerescências existentes. Fingimos encarar nosso lúgubre naco de chão arrostando (6) os dissabores a trancos e barracos, tentando de todas as formas nos mantermos respirando. Pois é, amigas. Levamos ao ‘salve-se quem puder’, empurrando para a barriga as águas desenfreadas das mazelas que a cada minuto que passa se nos apresentam desenhando horizontes de rostos e focinhos maquiados e incertos.

Nossas forças, a cada piscar de olhos, tendem a se tornarem fracas e paralíticas. Urge, pois, que nos demos as mãos. Para ontem. Em contínuo, nos entrelaçarmos agora, no minuto seguinte, para nos assemelharmos, ao menos em vontade e desejo, às forças do pequeno Buck para chegarmos com fôlego suficiente em algum lugar mais aconchegante que esse campo de guerra cercado de lobos em que vivemos. Tudo isso, obviamente, se quisermos ver um novo amanhecer. Um só, que seja. Ao menos um bocadinho que nos fascine a Esperança derreada com os raios fulgurantes de um NOVO PORVIR. 

Notas de rodapé: 
1) Alarvado – Surpreso ou irreverente com algo chocante que aconteceu. 
2) Catervas – Vadios e desocupados. 
3) Ascoso – Tudo o que provoca asco ou nojo. 
4) Improfícuo – Coisa inútil e fracassada. 
5) Baldio – Que não tem utilidade. 
6) Arrostando – Corajoso, ou aquele que não tem medo, que encara. 


Título e Texto: Carina Bratt. Da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. 4-12-2022

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