sábado, 28 de julho de 2012

Essa teia é nova mas é boa


Ernesto Ribeiro
OK, galera: tudo tem o seu lado bom e o lado ruim. Vamos por partes.

Teia Velha: A parte ruim é exatamente o que os cri-críticos intelectualóides mais elogiaram: a trama "séria" com o tal "romance adolescente" é uma porcaria INACREDITÁVEL no pior mau sentido possível. Mal escrita, mal dirigida, mal interpretada. A morte do tio Ben é patética. Nenhuma surpresa: a dramaturgia só podia ser um desastre, considerando que é a mesma equipe do draminha "idioteen" 500 Dias Com Ela — aquele filme cocozinho, do mesmo diretor cocozinho, com aquela atriz cocozinho, fazendo um personagem cocozinho. O roteiro é constrangedor de tão forçado, e não convence nem criancinha. Só mesmo num filme bobo as pessoas agem assim... É o caso de se perguntar se o ‘cineasta’ Marc Webb ganhou esse emprego só pelo sobrenome. Na hora de imprimir um tom de ‘seriedade, profundidade, complexidade’, o imbecil erra tudo como um velhote com a cabeça cheia de teia (web).
O tom exagerado, empostado, artificial das atuações estraga o esforço do elenco talentoso. Até da atriz principal. Ele só trocou os enormes olhos azuis da morena Zooey Deschanel pelos imensos olhos azuis da loira Emma Stone. Pior: a caracterização dela é prejudicada justamente pelo excesso de segurança, a voz grave demais e a dicção hiper-articulada de mulher adulta, aparentando 37 anos — totalmente deslocada num personagem adolescente que diz ter apenas 17 anos e ainda anda pelos corredores da escola abraçando os cadernos. É o primeiro filme em que a mocinha tem a voz muito mais grossa do que o mocinho.
Como eu disse: inacreditável.
A parte do filme que mais deveria conquistar a empatia do público é a menos convincente.

Teia Nova: A parte boa é surpreendentemente aquela em que ninguém esperava ser melhor do que a trilogia anterior: sim, a ação, a diversão, o espetáculo e o escapismo puro conseguem ser incrivelmente REALISTAS e ao mesmo tempo ESPETACULARES. Sem contar a revolução técnica e artística nos efeitos visuais e na qualidade das imagens EXTRAORDINÁRIAS, com tudo em maiúsculas mesmo. Você vai entender porquê. É ver pra crer.
Prepare-se para assistir ao primeiro filme com imagens em Altíssima Definição. A direção de arte e fotografia de John Schwartzman nos dão uma experiência de imersão inédita em termos de detalhismo e texturas. Numa cena de chuva, com a câmera enquadrando de cima em contra-plongé, podemos enxergar distintamente cada gota caindo. O uniforme colante parece uma pele de tubarão ultra-fina, onde distinguimos cada pontinho e saliência como se fossem os poros da pele humana respirando.
Mais? A trama central da origem é muito melhor resolvida, inteligente e instigante. É especialmente intrigante saber que o pai de Peter Parker era um gênio científico, biólogo geneticista cujas pesquisas científicas indiretamente resultaram na transformação do filho num ser sobre-humano; que a origem do herói e do vilão estão ligadas pelo mesmo evento assombroso; e que o velho desaparecido doutor Parker pode ser...??? O mistério continua, com ganchos dramáticos que nos fazem roer as unhas de ansiedade, esperando o próximo filme da série.
E a filosofia humanista é a mesma da trilogia anterior: o Lagarto nem se vê como um vilão.
O plano de dominação mundial dele é na verdade desejar sinceramente ajudar para o bem da Humanidade.
Os personagens agora são mais fiéis ao original dos quadrinhos. Todo aranhanólogo sabe muito bem que aquela Mary Jane boba dos outros 3 filmes era o exato oposto da ruiva piriguete que usava os rapazes e não se prendia a ninguém. Até admitiram o óbvio: criaram uma personagem novo e pintaram o cabelo dela de vermelho. Mas, não importa. Desta vez, temos o grande amor do nosso rapaz brilhando como a verdadeira mocinha: Gwen Stacy é um doce de coco e encantadora como se tivesse saído das páginas dos gibis.
Sim, todos os atores são muito talentosos. Sim, Andrew Garfield é um Peter Parker bem melhor, mais esperto e mais próximo do mundo real. Ele jamais seria um otário de recusar um emprego num laboratório da Oscorp, como fez o antecessor.
Ao contrário, o garoto é sagaz, malandro e corre atrás, até mesmo roubando a identidade de outro. E "traz o equilíbrio perfeito de rebeldia adolescente com rigidez moral e um oceano de culpa e responsabilidade." (Estadão). Ele chega a ser quase um sádico, arrebentando os criminosos. Claro que ele usa a super-força dele pra se vingar dos valentões que o espancavam. Claro que essa é a verdadeira vingança dos nerds.
Ironicamente, O Espetacular Homem-Aranha ganha a identificação do espectador justo quando só quer divertir. O momento mais engraçado, e o único que faz jus à fama do herói mais bem-humorado dos quadrinhos, é na estréia do uniforme, quando Spidey confronta um bandido e um policial igualmente idiotas. É de matar de rir. E o melhor é que isso não é o melhor.
A cena mais bela e poética do filme, icônica e realmente ANTOLÓGICA, que já entrou para a História do Cinema por sua beleza plástica e conteúdo humanista, é uma sinfonia silenciosa de gigantescas máquinas no céu noturno de Nova Iorque, movendo-se em perfeita coordenação, operadas por humildes trabalhadores da construção civil, em solidariedade ajudando o Homem-Aranha a alcançar o vilão e desobedecendo as ordens das autoridades arrogantes que querem prender o herói. É uma visão tão linda e arrebatadora quanto comovente e enternecedora. De inspirar lágrimas de admiração. É nesses momentos de VERDADEIRO cinema clássico, de adrenalina desenfreada e contemplação quase narcisística, que a obra-prima da Marvel Films justifica o seu título: absolutamente ESPETACULAR.
Título, Imagens e Texto (formatação original): Ernesto Ribeiro, 28-7-2012

Um comentário:

  1. Lord Jim das Teias, você é um espírito sensível, igual a mim. Estou emocionado. Muito obrigado.

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