terça-feira, 24 de julho de 2012

Os Balcãs e a intolerância religiosa

Carlos Guimarães Pinto
A destruição de igrejas ortodoxas no Kosovo, aqui apontada pelo Rui Carmo, e que já vem de longe, é um dos desastres culturais do nosso tempo. O Kosovo era o centro da vida política e cultural do império Sérvio entre os séculos XII e XIV, e muitas das igrejas e mosteiros destruidos faziam parte dessa herança cultural. A destruição desses símbolos do império Sérvio foi apenas mais um capítulo do círculo vicioso de ódio nos Balcãs, e em especial no Kosovo. Um dos episódios mais sagrentos deste ciclo começou a ser construído no século XIV, quando o apoio de populações sérvias entretanto convertidas ao Islão determinou a derrota na batalha de 1389 no Kosovo, uma das derrotas mais humilhantes da história da Sérvia. O Kosovo viria apenas a ser reconquistado já no século XX, mas nem essa reconquista permitiu que os muçulmanos bósnios deixassem de ter fama de traidores. Foi contra esse povo que seiscentos anos mais tarde, em 1995, as tropas de Mladic haveriam de levar a cabo o genocídio de Srebrenica, vingando-se sobre os descendentes dos traidores de 1389.
A culpabilização de toda uma comunidade religiosa pelas acções de alguns contribui para prolongar a exclusão e o sentimento de injustiça e o rancor, sendo um motor de radicalização. Eu não tenho ilusões de que o ciclo de violência e destruição terminará no curto prazo, mas não darei o meu contributo indivdual para o prolongar.
Título e Texto: Carlos Guimarães Pinto, O Insurgente, 24-7-2012

Festejando a independência do Kosovo, 17-02-2008. Foto: Getty Images

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