sábado, 21 de julho de 2012

Comovente relato (e mensagem) de ex-piloto da Varig

Carlos Mol
Caros Amigos, colegas de profissão, companheiras e companheiros de jornada:

Não sei bem o que me faz dividir estes acontecimentos com vocês, porém, tenho a certeza de que, até o final destas linhas, encontrarei os motivos.

Como acredito que para alguns, ou mesmo para todos, estes relatos possam ser desagradáveis, peço-lhes que, caso assim o sintam, não se violentem prosseguindo a leitura, pois, como ser humano que sou, sei que poucas vezes queremos nos “doar“, escutando a dor alheia. De toda a maneira ficam os meus sinceros votos de dias iluminados para vocês.

Desde meados de 2011 vinha sentindo dores na região lombar/anal, costumava por vezes comentar isto com os meus amigos Ricardo e Marco, na empresa onde trabalhávamos.

Logo nos primeiros dias de 2012, mais precisamente em 4 de janeiro, perdi o meu único irmão, Alexandre, atropelado por um ônibus, em São Cristóvão, Rio de Janeiro. Chegava em casa, em Teresópolis, quando minha mãe deu-me a notícia, e ao chegar ao Rio já fomos para o IML, onde estava o seu corpo. Durante o velório as dores que sentia passaram a intensificar-se, de maneira que em dois dias estava internado numa clínica em Laranjeiras, mesmo tendo direito a hospitais de melhor linhagem, mas a Unimed negou a minha internação, desrespeitando regras, causando-me dor e constrangimento. Tenho no momento, na Justiça, duas ações indenizatórias contra esta terrível instituição.


Cinco dias depois, durante os quais fui medicado com antibióticos e morfina três vezes ao dia, configurou-se o diagnóstico de extenso abcesso perianal, tendo sido operado pelo meu Compadre José Perrota, ex-Varig, ex-gerente da FRB (Fundação Ruben Berta), na noite do dia 11 de janeiro de 2012. Lamentavelmente, no dia seguinte, tive uma crise de taquicardia supraventricular e houve a necessidade de ser alocado na UTI por trinta e seis (looonngas) horas. Recebi alta hospitalar dias depois, porém, as dores não cessaram totalmente, fazendo com que nova busca se iniciasse, com a conclusão de que havia uma hérnia de disco. (Ah, aquelas malas cheias de produtos gostosos que eu trazia de fora, agravado, com certeza, pela enorme escada do Boeing 747 que voei durante os três anos na China…), tudo isto me veio à mente. Aquelas guloseimas costumavam complementar os vários jantares/churrascos que fazíamos para os amigos brasileiros e também para a Legião Estrangeira, no apartamento em que vivíamos em Shenzhen.

Fiquei quase dois meses de licença, sem remuneração nem complementação por parte do INSS, pelo fato de ser aposentado. Não causaria estranheza se não fosse pelo fato de ser obrigado a descontar para o tal instituto no contracheque recebido mensalmente, e quando deveria ter um complemento salarial o INSS alegou que eu não poderia ter dois “benefícios“. Lamentavelmente isto retrata bem o Brasil.

Segui as instruções do proprietário da empresa (Táxi Aéreo) em que trabalhava e depois de consultar o médico do trabalho, apresentei o atestado de capacidade laboral exigido. Em menos de dez dias eu estava demitido. Não querendo fazer juízo de valor, confesso que não entendi o ocorrido, mas é óbvio que tenho consciência da minha parcela de culpa no processo – mesmo sem ter a menor noção do que levou-o a tomar esta atitude.

Tratei de procurar recuperar-me da cirurgia anal, que ainda causava grande incômodo, quando meu cardiologista e compadre, Luis Cláudio Dias da Rocha, ex-Varig, deixou-me entender que deveria operar o coração. Nasci com uma válvula aórtica bicúspide, quando o normal, na maioria dos seres humanos, ela é tricúspide, que significa três folhetos ou membranas que auxiliam na absorção/expulsão do sangue durante o ciclo sístole/diástole. Isto foi por mim descoberto em meados da década de 80, havia a ciência do Cemal que me monitorava e sempre tive o cartão em dia, como, curiosamente, ainda está. É claro que daqui a alguns meses retornarei aos médicos da Aeronáutica com o relato da cirurgia e os respectivos exames para ouvir deles o laudo quanto ao futuro. O diagnóstico era de viver com esta diferença e, provavelmente, vir a desencarnar por outro motivo, mas quis o destino que a ordem fosse invertida. Fiquei novamente sem chão!!!

Começamos os preparativos, com diversos exames e visitas a médicos, incluindo o cirurgião que fez a solicitacão com urgência à Unimed da cirurgia de troca valvar com procedimento de Bental. Vinte e dois dias após termos dado entrada no trâmite junto ao plano de saúde, eles ainda estavam “avaliando“ a situação. R$ 5.300 foi o custo da confecção de nova ação judicial contra os mesmos, agregado à Antecipação de Tutela dada em vinte e quatro horas por uma juíza, incluindo todo o material cirúrgico (e até mesmo uma cola biológica, bioglue, que, apesar de necessária, a Unimed sempre negava, trazendo um custo adicional de, mais ou menos, cinco mil reais.

No dia 21 de junho fui operado pelo Dr. Edson Magalhães Nunes, excelente profissional e pessoa no Hospital São Lucas, no Rio. Por volta do meio-dia fui para o quarto e após o procedimento de tricotomia (raspagem de grande parte dos pelos do corpo) recebi um Dormonid sublingual, “acordando” ainda em coma induzido lá pelas 20h, tendo ainda assim sido capaz de reconhecer a minha mulher e a minha mãe, ao meu lado na Unidade Coronariana. Somente na manhã seguinte tive a real sensação de ter sido atropelado e serrado, como diz meu Compadre (“atropelamento assistido“). Curiosamente, em função da bateria de analgésicos que tomava, minha maior queixa não era a dor do peito aberto e sim a absoluta incapacidade de sentir o ar “entrando“ em meus pulmões, levando-me às vezes a crises de ansiedade pela mínima quantidade (era assim que eu sentia) daquilo que mais necessitamos para viver e não nos damos conta.

Após três noites na Unidade Cardio-Intensiva, fui transferido para o quarto. Começaram aí as “intercorrências” que mudariam o cenário. Logo no dia seguinte tive, uma vez mais, uma Taquicardia Supra Ventricular, que fez minha mulher pular o balcão aonde ficavam as enfermeiras, uma vez que o médico de plantão naquele andar simplesmente não chegava. Um dos cardiologistas da equipe do cirurgião foi acionado (era bem cedo, por volta das 6h da manhã) e conseguiu a façanha de chegar ao local apenas dois minutos após a plantonista.

Foram cinquenta minutos de agonia, com cento e oitenta e oito batimentos por minuto, que fizeram-me sentir o que coloquialmente chamamos de “experiência extracorpórea”. Saí do meu corpo e ascendi, vendo aquele grupo de pessoas debatendo sobre o que fazer, esperando o rapaz da maca no intuito de transportar-me de volta à UCI. Depois deste tempo, que pareceu-me a eternidade, foi feita a cardio reversão e pude ter meu coração de volta aos 60/70 bpm. Definiu-se então que eu precisaria fazer um procedimento de Ablação (cauterização) dos “pontos“ que geravam aquele curto-circuito, disparando a arritmia. Marcou-se inicialmente para dali a sete dias, durante este período meu coração comportou-se bem (medicado) e, por insistência minha, retornei ao quarto para cumprir aquele período de espera em condições mais confortáveis pois, onde estava, quase nada podia ser feito, por uma questão óbvia de regras, uma vez que eu estava puncionado e monitorado vinte e quatro horas por dia. 

Passei dois dias agradáveis no quarto, quando então tive uma “bacteremia“. Ao sair do chuveiro comecei a tremer e não havia jeito de parar de sentir frio e calafrios profundos. Cinco ou seis pessoas do hospital tentaram me segurar, no intuito de aquecer-me com vários cobertores, sem sucesso. Uma vez mais retornei à UCI e, além do diagnóstico de infecção urinária e edema das partes genitais, comprovou-se através de ecocardiograma a incidência de derrame no pericárdio e na pleura. Na manhã seguinte eu estava de volta ao centro cirúrgico para nova sedação total e incisão no externo para a colocação de um dreno. Em três dias saíu o equivalente a 400/500ml de líquido, que era a principal causa daquela sensação de não respirar. Para o combate a esta infecção fui puncionado na veia jugular esquerda, tive monitoramento “online” da frequência cardíaca através de catéter na aorta radial esquerda (ambos inseridos com leve anestesia local e pontos cirúrgicos para que não houvesse o perigo de movimento dos mesmos). O tal edema no pênis e saco escrotal foi parcialmente resolvido à galega, tendo o urologista “puxado” as partes para os seus devidos lugares. Isto rendeu-me outra viagem na qual estive próximo à Lua. Era a única e indicada maneira de lidar com o caso.

Foram mais cinco dias aguardando a ablação, que foi feita em centro cirúrgico, com anestesia geral. A meta era mapear os tais pontos que causavam o “disparo“ do coração e cauterizá-los, sendo que para tal foi inserido um catéter na veia femoral e outro na veia jugular, ambos do lado direito. Duas horas depois estava de volta à UCI, com a sensação de, uma vez mais, ter sido vítima de uma “trombada“ de frente. Recebi alta hospitalar no dia seguinte, após vinte dias internado.

Venho me recuperando lenta e gradualmente.

Hoje tirei os pontos restantes e obtive autorizacão para começar caminhadas de trinta/quarenta minutos, apesar de continuar tomando extensa lista de remédios.

Durante todo o período em que estive no São Lucas, afora o sério episódio da taquicardia e da inação da médica plantonista e das enfermeiras daquele andar, tive o privilégio de ser assistido por profissionais de primeira linha e de estar instalado numa Unidade Intensiva absolutamente bem equipada.

Foram dias muito difíceis que trouxeram-me ainda mais para perto do Altíssimo. Ainda hoje tenho dificuldade de falar sobre os vários episódios de dor profunda que vivenciei, daí a escolha pela escrita.

O que já era uma certeza foi, ainda mais, massificado por tudo isto: Somente uma vida digna e na senda do Amor e da Caridade vale VERDADEIRAMENTE a pena. É o que humildemente quero passar para vocês, apesar de saber que é desta forma que vocês, a quem escrevo, vivem. Ao passar momentos limítrofes entre esta vida material e a (verdadeira) vida espiritual, percebe-se quais são as verdadeiras riquezas que o ser humano deve desfrutar neste plano e quão fugazes as posses e cargos que tanto almejamos ao longo da vida. 

Agradeço ao Pai o privilégio de ter a meu lado pessoas como a minha Esposa, minha Mãe, Padastro, Pai, Cunhado, Sogra, Filho, incluindo os “peludos“, Parentes e, aos poucos, porém verdadeiros Amigos. Todos estiveram ao meu lado dando-me a essência vital à continuação da vida.

Peço ao Criador que lhes dê o livramento das dores e que continue mostrando-lhes a Seara do bem.

Sonho em um dia estar de volta aos céus deste belo planeta, e cruzar ou mesmo ter a sorte de voar com alguns de vocês.

Os próximos meses são de recuperação e, somente no começo de 2013 terei uma definição sobre a carreira que tanto amo.

Agradeço de coração a atenção dispensada, na esperança de que estas longas e enfadonhas linhas possam trazer-lhes algum benefício.

Que Deus os abençoe,
Texto: Carlos Mol Pimentel, 17 de julho de 2012
Edição: JP

Em junho de 2002, este editor, já às vésperas da aposentadoria, conheceu o comandante Carlos Mol, num voo para Madrid. Eis as fotos:

4 comentários:

  1. Que relato emocionante, que isso sirva de lição para todos nós.
    Desejo ao Cmte uma boa recuperação e que volte a voar neste imenso céu azul que ele tanto ama. Felicidades e saúde sempre. Abs

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  2. Realmente me emocionei com o relato, que sua recuperação seja total para que possa nos ensinar mais um pouco sobre a verdadeira vida. Paz e luz.

    Ana Santana

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  3. Estou torcendo por você Mol. Apesar de tudo o que você está passando, fiquei feliz de saber notícias suas. Tenho certeza que sairá vencedor. Saúde para você e sua família. Saudades e abraços.

    Fernando Dias

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  4. Como ele está atualmente?

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