quarta-feira, 25 de julho de 2012

Já nos esquecemos que ia ser difícil?

José Sócrates e Teixeira dos Santos, foto: Ricardo Oliveira/GPM
Paulo Lopes Marcelo
Um ano volvido, à beira de um Verão quente, há balanços que já podem ser feitos. Mas para isso vale a pena lembrar de onde partimos e onde chegámos.
De uma situação de emergência, a um passo da bancarrota, é justo reconhecer que o Governo está a conseguir inverter a trajectória dos últimos anos, reduzindo a despesa pública e o peso do Estado na economia. Por pressão externa, é verdade, mas com o mérito de cumprir fielmente uma agenda de reformas estruturais que tem permitido que Portugal comece a ser visto com outros olhos lá fora. A descida das taxas de juro aí está para o comprovar, tal como as exportações, que permitiram a primeira balança comercial positiva desde a II Guerra Mundial.
Pode isto ser feito sem dor? Alguns dizem que sim, esquecendo porventura o que nos trouxe até aqui. A memória é curta e as opiniões mudam depressa. Ainda há poucos meses a ladainha era "vivemos acima das possibilidades", “é preciso mudar de vida”, mas agora, à medida que o cinto aperta, as mesmas vozes dizem que se está a ir longe demais. Alguns ventos mudam à medida que é o nosso grupo a sofrer com os cortes.
Nem poderia ser de outro modo, o sofrimento é resistência à mudança. Mas o mais curioso é que são aqueles que nos trouxeram até aqui os primeiros a vacilar. O PS vive um dilema permanente entre a fidelidade a um programa com a sua assinatura e as críticas oportunistas à austeridade. Uma posição demagógica porque os socialistas sabem que teriam de aplicar a mesma receita se fossem governo. Sabem que o problema não está resolvido, longe disso, e não podemos alargar o cinto ou começar a distribuir dinheiro, como se fez no passado, com os resultados conhecidos.
Por mais que custe a crise não acabou. Apesar das reformas feitas (arrendamento, mercado laboral, licenciamento industrial...), continuamos com um problema da competitividade, com reflexos graves nos desemprego, a justiça lenta, o Estado gordo, os impostos excessivos. Mas é justo reconhecer que o Governo tem lutado pela sustentabilidade. Prova disso são as reacções generalizadas, desde médicos, militares, professores, acabando nos pilotos da TAP. O que mostra coragem em enfrentar algumas vacas sagradas. Ou alguém acredita que o ministro da saúde tem uma especial embirração pelos médicos? Ou que se levanta de manhã a pensar qual o serviço de urgência vai encerrar nesse dia?
A maior parte destas reacções são legítimas, mas o que é preciso ver é se o interesse colectivo - em especial das novas gerações escravizadas pela dívida - deve prevalecer sobre os interesses particulares, por mais poderosos que sejam ou com mais acesso à comunicação social. Ou será que os maquinistas da CP têm um direito acrescido a horas extraordinárias só porque conseguem parar os comboios durante meses? Se não mudamos o nosso futuro será tão curto como a nossa memória.
Título e Texto: Paulo Marcelo, Jurista, Diário Económico, 24-7-2012

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