terça-feira, 5 de novembro de 2019

[Aparecido rasga o verbo] Entre comadres

Aparecido Raimundo de Souza

MAURA E ANITA, AS DUAS AMIGAS inseparáveis tomam refrigerantes e conversam animadamente enquanto seus respectivos esposos no barbeiro ao lado, cortam os cabelos.

Maura
- Você já notou as semelhanças entre nossos companheiros e nossos cachorros?
Anita
- Por certo, Maura. Os dois fazem suas necessidades fisiológicas em qualquer lugar e geralmente nunca se limpam direito. Pior é que se deitam no meio de nós e ainda acham ruim se reclamamos do cheiro estranho que impregna o ar. Um saco, amiga.

Maura
- Verdade Anita. Sem contar que são extremamente folgados o que faz com que ocupem espaço demais na cama na hora de dormirmos. Se acaso pretendemos partir para o bem bom, sabe como, né?, fazendo aquele amor no capricho para tirarmos o estresse, minha nossa! Um inferno. Geralmente, no outro dia, pela manhã, acordo com dores nas costas.
Anita
- E eu nas partes baixas.
Maura
- Às vezes penso seriamente em dar um jeito de me livrar do sujeito...
Anita
- Pretende se separar do Claudiano, Maura?

Maura
- Não, amiga Anita. Do Pimpão, nosso cachorro.
Anita
- Eu fui mais longe que você. Percebi que os dois têm medo, um horror quase irracional do ventilador de teto em funcionamento.
Maura
- Engraçado. Lá em casa o Claudiano quer ver o diabo e foge apavorado quando ponho alguma coisa para bater no liquidificador. Pimpão, então, segue pelo mesmo caminho. Chega a ser engraçado...
Anita
- E você alguma vez pensou em descobrir a causa desses traumas? 

Maura
- Claro. Tive um papo aberto com o Claudiano e ele me revelou que a coisa vem desde a infância. O pai dele, seu Carlos Lyra, meu sogro, quando Claudiano era pequeno, vivia falando que se ele fizesse alguma travessura, colocaria a mão dele para ser cortada junto com todos os dedos dentro do liquidificador...
Anita
- Credo em cruz! Que maldade. E o infeliz do Pimpão?
Maura.
- Tomou com um liquidificar no meio da cabeça, quando corria atrás de uma bola. Chegou a fazer um galo enorme na boca...
Anita
- Na boca?

Maura
- No focinho...
Anita
- Eu percebi também que o Abel age como nosso cachorro. Nem ele nem o Leão dizem o que os está incomodando. Fico injuriada com esse silêncio. Tem hora que me dá vontade subir pelas paredes. 
Maura
- Já reparou que nenhum dos dois nos enaltece quando pintamos as unhas ou compramos um sapato novo?

Anita
- Tirou as palavras da minha boca, amiga Maura. O Abel e o Leão não conseguem entender o que eu sinto aqui por dentro quando vejo o marido da Elisangela, a nossa vizinha porta com porta, morador no mesmo andar que o nosso, seja saindo ou chegando do trabalho.
Maura (espantadíssima com a revelação bomba da amiga), pergunta, curiosa:
- E cá entre nós, Anita, me segreda ou vou me morder de curiosidade. Morre aqui. O que você sente quando topa com o marido da Elisangela?
Anita
- Tesão, amiga Maura. Puro tesão. Vontade louca de... Esquece. Deixa pra lá. Aí vem o Abel e o Claudiano. Melhor mudarmos de assunto...

Maura, seguindo o conselho da amiga, beija o rosto de Claudiano. Em gesto igual Anita faz o mesmo com Abel. Em seguida, desconversa:
Anita
- Que tal irmos agora, os quatro ao restaurante perto daqui? Estou com uma fome de fazer inveja a qualquer elefante. Aproveitamos e concluímos a nossa conversa de levarmos as crianças ao shopping nesse final de semana. O que me diz?

Foram.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do Rio de Janeiro. 5-11-2019

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