sexta-feira, 13 de novembro de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Desassossego aperreado

Aparecido Raimundo de Souza 

O RAPAZ ESTAVA doido de pedra para entrar no banheiro e usar a privada. Nesta agonia atroz e mortificante, se dobrava, desesperado, se contorcia de um lado e de outro, fazendo uma série de caretas inusitadas e chocantes, seguida, claro, de uma agitação descomunal. Se assemelhava, grosso modo, a um ser querendo respirar e na hora fatídica lhe faltar a facilidade auspiciosa de um nariz com orifícios salvadores. 

Para piorar seu quadro humilhante e vexatório, havia um só sanitário com uma latrina disponível. A fila contava com três criaturas à frente, antes que ele tivesse admissão definitiva. Eu estava no mesmo banheiro, porém, ao lado, usando a banda destinada aos mictórios. 

Tenho, por norma, uma conduta que sigo desde que me entendo por gente. A regulamentação, ao pé da letra, de não fazer uso de banheiros públicos, a não ser o de minha casa. Fora do meu quadrado, somente o básico, ou como as pessoas costumam dizer: o ‘número um’. 

O ‘dois’, aconteça o que acontecer, unicamente em caso extremo, ainda assim, numa situação de emergência crítica, onde eu não tenha, de nenhuma forma, como adiar ou prever seu final. Naquele pega, me larga, me solta, me deixa que eu presenciava, o que seria o próximo a ingressar, bateu, meio enfezado: 
- Ei, amigo, vai demorar? 

O assenhoreador da moita, resmungou alguma coisa e, por fim, avisou que logo a desocuparia: ‘Cinco minutos’. 
Os cinco minutos se passaram e os dois encabeçantes que pretendiam conquistar o trono do descarrego, voltaram a dar sinais de vida, agora com mais afoiteza e veemência: 
- E ai, mano. Dá pra ser? 
- Calma, pessoal. Estou acabando... 

O ‘estou acabando’, se dilatou numa prolongação bastante ampliada. O terceiro, que se curvava, seguia a sua sina numa severidade de sintomas estranhos. Mordia os lábios, enroscado na própria infelicidade de uma dor desgranhenta que o atormentava. Apavorado e suando em bicas, dava sinais de que, em breve, teria um piripaque. 

Parecia não, teria, de fato, um desarranjo, se o infeliz que se delongava, grudado na cloaca não botasse a mão na consciência e pensasse um pouquinho só em seus semelhantes. Neste trilhar, pois, nada do sujeito desobstruir a retreta. De repente, o segundo e o terceiro, começaram a esmurrar a porta, literalmente: 
- Cara, sai daí agora ou vamos tirar você na marra. 'Qualé, mano!'. 
- Calma, gente. Estou saindo... Falta só me limpar... 

No interregno seguinte, pela prognose que se formava no rosto do atormentado, agora mais que nunca, se revirando quase sem fôlego, sobre o dantesco da tribulação que o acometia, de forma, eu percebia, eu sentia, cada vez mais inquietante e desonrosa, degradante e pejorativa, estava, a bem da verdade, às raias de cair numa afasia. 

Dito e feito. Infelizmente a sua ausência de sorte não aguentou a chegada do minuto seguinte, tampouco o trambolhão abrasado. Resumindo, o episódio: fez tudo ali mesmo, num espetáculo inesquecível e único. Botou para fora, às vistas de todos, o azedume do intestino liberando, com o bolo mal digerido, o opróbrio que o tirava do estado de seriedade. 

Um cheiro acre, de coisas podres e estragadas, estuporada e fétida tomou conta do pedaço. Eu havia acabado o meu xixi e poderia ter dado o fora. Entretanto, a curiosidade doentia de ver no que daria a desgraça alheia, liguei o aparelho celular e comecei a filmar a cena, me prendendo ao chão, como se tivesse apalermado com o pretume que ficara grudado no triangulo da cueca do infeliz, colado aos ladrilhos, incapacitado de dar um passo indo cuidar das minhas obrigações mais prementes. 

Pois bem. As duas primeiras criaturas, o sangue fervendo nas ventas, diante do inesperado do rapaz (agora todo borrado e cheirando a fezes), não se aguentaram a segurar mais as adversidades desditosas que acabaram de assistir ao vivo e a cores. Abespinhados e furiosos, se encheram de razão. Partiram para o ataque. 

Foram para cima do ocupante desconhecido, não só pela demora, como quero crer, levados pela solidariedade ao pobre rapazola que, não tendo como se aturar, vazou os bofes, monopolizando os ares do recinto, tornando o ambiente insuportavelmente constrangedor em face da sua incapacidade de se segurar, metendo o pé no freio, um tempinho a mais. 

Apesar de ouvirmos a descarga sendo acionada várias vezes, os dois que seriam os iminentes, se escudaram no tudo ou nada. Velozes nas intenções, colocaram, aos pontapés, o postigo abaixo, os gonzos à mostra, arreganhados em susto balburdiado, porém, divorciados e estuprados em face dos sopapos recebidos. Neste momento, entretanto, o incrível, o assombroso, o estupefaciente e inesperado. 

La dentro, nas coxias, em uso do aparelho dejetor, não havia ninguém. Vivalma se fazia presente. Não se distinguia, igualmente, outra saída, nem janela, ou sequer um basculante, nem coisa alguma por onde alguém acuado, pudesse escapar. Mercê deste fuzuê, assustados e espavoridos, todos queimaram o chão em desabalada carreira (inclusive eu), voando às doidivanas do acaso. 

O mais apavorante: a porta rebentada das dobradiças, aos saltos, se levantou do chão onde caíra. Ato contínuo, pinoteando, apopleticamente desembestada, se colocou atrás de nós. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, 13-11-2020

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