sexta-feira, 14 de maio de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Subsolo infinito

Aparecido Raimundo de Souza

‘Quem de fato sonha que morre, regressa mais forte ao voltar à viver’.
Everton Alves em seu livro ‘Antes da Tragédia’.


MUDEI MEUS HÁBITOS da noite para o dia. Fiz isto, confesso, de forma radical. Claro que não desconjuntei só as minhas maneiras, inverti também, meus costumes e mexi nas usanças do dia a dia. Alterei o cotidiano, como dizem os antigos, ‘da água para o vinho’. Foi uma reviravolta rápida e rasteira, assim como o fechar de portas e janelas diante de um temporal inesperado que se avizinha.

De repente, eu que vivia intensamente cada minuto da minha existência, que dormia duas ou três horas por noite, que amanhecia em farras com os amigos —, ora tomando cerveja pelos bares e botecos das redondezas —, ora envolvido com vadias em busca de sexo fácil e promíscuo, sem que esperasse por este salto brusco, me vi assim, do nada, tolhido, impedido, paralisado, sem saída, preso como um inativo, às portas do desconhecido, do obscuro, como se tivesse sido agarrado por fortes mãos de um ser misterioso que surgiu dos quintos e, sem que esperasse, se postou diante do meu caminho me impedindo seguir adiante.

Eu que beijava bocas de gostos e salivas diferentes, que dormia em camas as mais diversas, que trocava as mundanas de bordeis, como de roupas, que jogava bola com os moleques da Sá Ferreira, que pegava praia no Arpoador e, a tarde, caminhava com a turma de conhecidos da Barata Ribeiro, de um extremo a outro pelo calçadão da Avenida Atlântica, agora estou aqui, deitado feito um babaca, os olhos perdidos no inútil do nada, neste lugar estranho e sem ventilação, imundo e fétido, vendo as horas passarem, o dia nascer e morrer, a escuridão entre um e outro ir e voltar sem que nada de novo ou de anormal aconteça.

Meus vizinhos, estes, coitados, parecem um bando de fantasmas errantes assustados com a própria estupidez. Para se ter uma ideia, o sujeito do meu lado direito reclama das cachaças que não poderá mais beber. O morador do lado esquerdo, buzina o tempo todo em meus ouvidos à desdita de ter perdido a perna num acidente de moto na Avenida Brasil. A que está logo atrás de mim é uma jovem de vinte poucos anos (linda e gostosa, nunca vi igual) e, apesar de muito nova e imatura, passa a semana inteirinha se lamentando pelas mágoas que o marido lhe causou e das dores de cabeça que teve com ele, por causa das ‘transformistas’ que arranjou pelos corredores chamativos da 'Galeria Alaska...'.

O inquilino da frente é uma bicha assumida. Saiu do armário pouco antes de passar à condição de falecido. Pegou AIDS do companheiro, com quem morou três anos e meio e, pelas proezas que me conta, a criatura, ainda agora, parece não ser flor que se possa cheirar. Chato são os seus ‘desmunhecos’, o que faz dele um sem vida insuportável. Já não quero falar dos residentes que estão em quadras mais abaixo. Na verdade, cada um destes meus prezados que dividem este campo, não têm lá muitas opções de existência. Por esta razão, as particularidades de cada um, servem de padrão único para os demais.

Resumindo: somos uma imensa família de despojos navegando no mesmo barco, ou melhor dito, dividindo igual recinto e, dentro dele, à procura de um porto seguro onde possamos descansar a exaustão que nos definha o esqueleto e, de contrapeso, corrói as nossas carnes até os fundilhos das carcaças. No entanto, às vezes, me ponho a pensar com meus botões: ontem, minha vida era boa, apesar do trabalho cansativo, dos perrengues que passava no ir e vir para à empresa. Meu Deus, aqueles ônibus lotados, com pessoas fedendo a suores acumulados! Cidadãos gritando, reclamando impropérios, outros fumando ou se queixando da sorte, sem mencionarem os salários de merda, as fantasias e cobiças que pretendiam realizar mas nunca que sobrava um centavo para fazer um cego cantar.

Pois é: hoje estou aqui, esquecido, rejeitado, abandonado, deposto ao léu. Virei pó na voragem da frioleira mais inapta. Ontem — ontem, eu podia ver a galera, olhar o céu azul, andar na chuva, sentir o vento, desfrutar a beleza das flores, me inebriar com o cantar dos passarinhos... Ontem eu podia abraçar meus filhos, beijar meus netos, sair com eles para comer pipocas, algodão doce e tomar refrigerantes na pracinha do Lido. Não faz muito, passava a mão na namorada e partia para uma seção de cinema no Roxy, logo ali, na Rua Bolivar.

De outra feita, saia a visitar meus parentes, muito embora fosse um pouco rejeitado pela família, todavia, mesmo me sentido solitário, no meio dos meus pares, algo me enchia de prazer e regozijava meu coração de alegrias. Apesar de viver com a solidão colada nos pés e um punhado de tristezas pesando na aba do meu chapéu, ia vivendo, ia tocando, ia aprendendo e ‘empurrando para a barriga’. Lembro nitidamente que havia uma luz muito fraca, lá longe, quase nanica.

Apesar de distante e apartada, divorciada e esvaecida, esta luz se revestia de uma expectativa bucólica, se resguardava de uma esperança imorredoura e, por vezes, quando à vontade de acabar com a existência medíocre apertava, ou me acossavam teorias macabras e mirabolantes, como dar um tiro de misericórdia na cabeça, ela se fazia forte e robusta e me mostrava uma nova direção bailando no horizonte. Bem recordo, esta luz tênue, quase a se esvair em pesadas negruras, parecia ter o dom (e, de fato, tinha) de fazer algo surreal surgir assim, do nada e, como num passe de mágica, transformar tudo em derredor de mim, num suntuoso e indescritível clarão divinal.

Esta cintilação, por seu turno, batia em meu rosto como uma promessa de dias melhores. No entanto, hoje, bem, hoje, não vejo mais esta luz. Meus dias são eternamente corriqueiros e iguais. Não há futuro, não há presente, tampouco inexiste amanhã. Na verdade, não há exatamente nada. Nada, dentro de um oco elevado ao quadrado que opere o milagre de fazer ficar tudo redondo. O grande caso, o inquestionável, o imutável, é que estou morto, enterrado numa cova do cemitério do Catumbi.

Ao meu lado, sepulturas e jazigos carneiros e tumbas, com velhos exânimes apodrecendo as horas, esperando, como eu, o portento piedoso de retornar à agitação antiga, de curtir novamente o mar intérmino, de rever o céu azul, de sentir o vento sibilando, de contemplar os pássaros... talvez... sentar em frente à praia de Copacabana e agradecer ao Pai, pelo fato de ainda não estar com sete palmos de terra por cima dos costados. Galardoar, igualmente, por compreender que tudo que aqui falei e escrevi, não passou de um sonho apenas...

Uma quimera tetricamente macabra, um desviar de ideias e coisas medonhas... um futuro terrível que, embora certo, dentro de um incerto, não queria, ou melhor dito (não anseio), não pretendo, chegue jamais, à minha vez de partir. Ou no pior dos mundos: quando isto acontecer, que eu não esteja por aqui, para ver e presenciar o que me espera além, sei lá, para onde e, sobretudo, para quê!

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do Sítio Shangri-La - ES/MG, 14-5-2021

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