sexta-feira, 30 de abril de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Deu branco

Aparecido Raimundo de Souza

NA CAÇA FERRENHA ÀS ELEIÇÕES
do novo síndico, o pai de um dos candidatos procurou pelo Sinsinato Perciano, morador de um dos inúmeros blocos que faziam parte do Condomínio das Garças de Arribação.
— Eu gostaria que o senhor — Como é mesmo seu nome?
— Sinsinato Perciano. Difícil esquecer. Basta lembrar das persianas.
Risos.
— Continuando, seu Sinsinato, eu falei com o Búfalo Pintado que conhece todo mundo por aqui e ele me deu seu nome...
— Conheco o Búfalo. Do que se trata?

— Irei direto ao ponto. Gostaria imensamente que o senhor desse uma forcinha à meu filho Chumbrego Cavalar. Ele é capitão da policia militar e vai batalhar para colocar segurança em todo o entorno de nossas residências. Também lutará para que os motoqueiros que fazem entrega de fast-food aqui dentro, deixem de entrar com suas motos e transitarem pelas vias destinadas exclusivamente aos moradores. Estes malucos não estão respeitando as áreas comuns. Meu filho igualmente acabará com a rapaziada que vem aqui pra dentro (oriunda de outros prédios), para usar drogas e fumar maconha. Sem falar que implantará uma nova portaria e cartão de identificação para cada morador. O que me diz?

— As propostas são boas. Aliás, excelentes.
— Então, seu Sinsinato, se topar, estamos aceitamos novas ideias.
— Como lhe acho?
— Moro no bloco dezoito, portaria ‘B’ apartamento trezentos e um.
— Então somos quase vizinhos. Eu moro no bloco dezessete, portaria ‘M’, apartamento duzentos e dois. Estou aqui sem cartão. Mas lhe dou minha palavra: ainda hoje, eu lhe procuro.
— Minha portaria, seu Sinsinato, não tem campainha nem interfone. O senhor tera que gritar meu nome.
— E qual é a sua graça?
— Portela. Basta trazer à mente uma das escolas de samba do Rio de Janeiro.

— OK. Lá pelas vinte horas, passo por lá, lhe chamo e deixo meu cartão com o senhor.
— Combinado. Não esqueça: não tenho campainha, nem interfone. É no gogó... Portela, Portela...

Aconteceram alguns imprevistos e Sinsinato Perciano se esqueceu de deixar o prometido. Faltando pouco para a meia noite, e lembrando do trato firmado, passou a mão num de seus cartões de visita e correu para a portaria do pai do candidato. Em lá chegando, ao olhar para o cafofo buscado, notou que a luz da sala do terceiro andar se conservava acesa. Não tendo, realmente como acessar o pavimento (ningúem, aquela hora, entrava ou saia), resolveu abrir a cantoria convocando o pai do competidor à vaga de síndico. Deu um branco.

Sinsinato deslembrou o nome do cidadão. Sabia que o patronímico fazia menção a uma escola de samba do Rio de Janeiro. Mas qual? Teve uma ideia. Soltou a voz com vontade e determinação: 
— Seu Mangueira? Ô seu Mangueira?
Nada.
— Seu São Cremente?
Nada.
— Seu Unidos do Viradouro?
Apareceu um rosto furioso na janela do dormitório do primeiro andar.
— Engraçadinho, vai amolar ‘os porco’. Isto são horas de vir latir na minha beira?
— Desculpe, amigo. Foi mal...

Sinsinato Perciano deu um tempo. Recomeçou:
— Seu Beija-Flor?
Nada.
— Seu Estácio de Sá?
Nada.
— Seu Império Serrano?
Nenhuma resposta.
— Seu Caprichosos de Pilares?
Nada.

O domiciliado do primeiro andar renovou seus protestos. Soltava, agora, fogo pelas ventas:
— Desgraçado, para de perturbar. Estou tentando dormir. Pra seu governo, eu chamei a polícia... O que me diz de ir ‘pentear macaco...?

A este, um segundo e um terceiro inquilino resolveram dar o ar da graça engrosando os reclames e os alaridos:
— ‘Amigo, vá para os quintos do inferno’ — disse o segundo.
— ‘O carnaval está longe’ —, vociferou o terceiro.
Sinsinato Perciano pensou em desistir da empreitada. Se desculpou com os deseducados, deu um novo tempo de dez minutos e mandou bala.
— Seu Chatuba de Mesquita?
Qual o quê! Nem sinal!
— Seu Unidos da Ilha do Governador, estou aqui... Trouxe meu cartão...

Mais uma penca de moradores brotou do nada, cada um deles soltando palavrões e impropérios os mais cabeludos:
— ‘Infeliz, filho de uma égua. Eu preciso de sossego. Vá uivar na casa da sua mãezinha...’.
— ‘Pelo visto, o diabo não veio, mandou seu secretário...’.

Encostou uma viatura do batalhão local. Fardados desceram armados até os dentes. O sargento que capitaneava a tropa, se aproximou e interceptou o gritador inveterado, justamente na hora em que ele voltava à carga.
— Seu Mocidade de Padre Miguel?
O sargento lhe deu um empurrão:
— Que é isto, amigo? O senhor está perturbando a vizinhança.

Os moradores, em côro uníssono, voltaram mais abespinhados que da primeira vez e, aproveitando a situação, reavivaram as chamas botando mais lenha na fogueira:
— ‘Seu policial, ele está vomitando o nome de todas as escolas de samba’.
— ‘Deve ser maluco. Leva este traste em cana’.
— ‘Pau nele...’.
Um dos policiais que fazia parte da guarnição, se aproximou:
— Sargento, esta aqui não é a portaria onde mora o capitão Chumbrego Cavalar?
— Sim, bem lembrado, oficial Proxeneta. Ele mora no terceiro.

Voltando de novo a encarar o Sinsinato Perciano:
— Ai, meu amigo, o que o senhor quer com o capitão Chumbrego Cavalar a esta hora? Já passa da meia noite!

Sinsinato Perciano, apavorado e antevendo uma possível viagem até a delegacia, no cofre da viatura, tentou ficar calmo. Escondendo a sua tremura, respondeu procurando trazer à tona uma calma minguada e uma tranquilidade acovardada bem longe de existirem dentro de seu medo cada vez mais pesado e mórbido.
— Com o capitão, nada. Nem conheço, nem nunca vi mais gordo. Com o pai dele, sim. Fiquei, hoje, pela parte da tarde, de entregar um cartão meu para ele entrar em contato. Ele quer que eu dê uma força ao filho, que está se candidatando à sindico.

O sargento meio à contragosto, coçou a orelha. Pensou, pensou, por fim, pegou o celular e ligou para o capitão. Por sorte, atendeu o pai dele:
— Seu Portela, boa noite. Desculpe incomodar a esta hora. Aqui é o sargento Brugesto. Estamos aqui embaixo. Se o senhor puder fazer a gentileza de chegar na sua janela... Tem um homem aqui na sua portaria querendo falar com sua pessoa. Disse que precisa lhe entregar um cartão... Negócio de síndico...

O Portela meteu a cabeça para fora e, olhando para baixo, reconheceu o Sinsinato Perciano.
— Boa noite, sargento Brugesto. Aliás, bom dia. Calma ai. Sei de quem se trata. É meu amigo. Vou botar as calças. Estava deitado, vendo um filme. Acabei dormindo. Só um minuto, por favor. Estou descendo...

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do Sítio Shangri-La - ES/MG, 30-4-2021

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