terça-feira, 20 de abril de 2021

Nenhuma civilização persiste sem símbolos religiosos

O Decálogo em “seis” leis

Carlos Aurélio

Obra de Spagnoletto, 1636, foto: José de Ribera

Há tempos, numa dessas conversas diletantes entre amigos que terminam sérias, um deles disse-me: “Pois, tu crês em Deus e nele buscas o Bem, mas, desculpa, tem mais valor o ateu ou o agnóstico, desde que queira o Bem, evidentemente. Há mais mérito em querer o Bem por ele mesmo do que agradar a Deus, exista ou não. Não havendo salvação eterna não se espera ser pago pelo bem que se ama e faz.”

Asserção inteligente. A moral dominante em sua melhor versão anda por aqui.

O Ocidente como civilização assenta em três pilares que o Papa Bento XVI bem distinguiu: a religião judaico-cristão, a filosofia grega e o direito romano.

Desde há vinte séculos que o pensamento da Grécia e a lei de Roma receberam a fecundação do espírito cristão em particulares interpelações e relações. Assim se fez a Europa.

Todavia, o iluminismo da Revolução Francesa interrompeu essa tríade, alienou o centro do triângulo onde habitava Deus, ou melhor, reduziu Deus a uma referência mental, ora adjacente, ora tolerada. Ofuscada pela luz da razão, apagou a fé.

A moral daí advinda cindiu o Decálogo, reduziu-o aos apelos de cidadania e os ditos direitos humanos que aliás, só poderiam ter nascido numa civilização de matriz cristã, ganharam autonomia saindo da Casa do Pai.

Neste exílio estamos afastados do remoto Sinai e da voz de Deus. Os direitos humanos deveriam ser, antes de mais, deveres de quem se sabe criatura querida e amada, digna da imagem e semelhança do Criador.

A moral revolucionária funda-se em humanismo exclusivista, exclui Deus e é, por isso, a mais sutilmente escravagista. Querer ser livre sem Deus é tornar-se escravo de si mesmo e dos homens, pois há sempre um lugar de transcendência que a imanência totalitária preenche.

Nenhuma civilização persiste sem símbolos religiosos, nem que seja a demonização humano a inventá-los. Terra sem céu é coisa de toupeiras.

A prova patente da exclusão de Deus é que entre cristãos, batizados e crentes, mesmo os que rezam, poucos entre nós sabemos de cor os Dez Mandamentos. Não os sabemos de cor porque os excluímos do coração. Vale bem o tempo, ao menos agora, passá-los debaixo dos olhos.

1º Adorar a Deus e amá-Lo sobre todas as coisas;

2º Não usar o Santo Nome de Deus em vão;

3º Santificar os Domingos e festas de guarda;

4º Honrar pai e mãe (e os outros legítimos superiores);

5º Não matar (nem causar dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo);

6º Guardar castidade nas palavras e nas obras;

7º Não furtar (nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo);

8º Não levantar falsos testemunhos (nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo),

9º Guardar castidade nos pensamentos e desejos;

10º Não cobiçar as coisas alheias.

Os Mandamentos do Sinai são dez “palavras” (Dt 10:4) ou deveres nos quais habita o elo entre terra e céu, entre homens e Deus. Gravados em duas pedras abertas formam entre si e eticamente uma cruz: os três primeiros levam à haste vertical, os seis últimos à trave horizontal e o quarto é o seu cruzamento. Não honrar Pai e Mãe é começar a perder o sentido do céu.

Relendo os Dez Mandamentos inscritos pela “Mão de Deus” (a mão manda ou ordena) logo se percebe que os três primeiros se orientam verticalmente a Deus: adorá-lo acima de qualquer outro propósito na vida, não usar o seu Nome como coisa manipulável, santificá-lo, isto é, separá-lo da mundanidade.

Os outros sete ensinam a justa relação terrena e horizontal, o nosso comportamento mútuo, sendo que o quarto, não por acaso, faz de charneira, isto é, dá-se nele o encontro que do mais alto da terra sobe aos céus: o Pai e a Mãe simbolizam o ponto culminante da realização humana, a conjugação do amor que dá frutos, seja pelo matrimônio conduzindo os filhos a Deus, seja pelo sacramento da ordenação, espiritualmente similar. Daí, chamarmos Padre ao sacerdote, porque Pai espiritual, Madre à Mãe superiora entre irmãs para Deus.

Reparemos: mais do que amar o verbo é honrar Pai e Mãe, amor espiritual, pois a honradez devida pressupõe a dignidade que jamais pode decair em baixo prosaísmo.

Os pais refletem Deus na igreja da família. Exemplo simples: uma discordância colérica pode cair em feios insultos entre amigos, colegas ou outras camaradagens horizontais, mas nunca deve tocar a dignidade vertical pela qual honramos os Pais ou superiores que sabemos legítimos. Isso, jamais!

A Revolução Francesa introduziu na História a categoria social da ruptura que se exige definitiva. Insubmissões e revoltas sempre existiram, algumas bem legítimas repondo paz e justiça, mas, é bom de ver, não equivalem a revoluções que, aliás, nunca reformam ou corrigem, apenas destroem.

O povo, porque trabalha para poder viver, não faz revoluções, guerras sim. A revolução demora tempo, é coisa de intelectuais ou de gente com rendimentos, de revolucionários profissionais que não precisam de trabalhar.

Veja-se com exatidão as personagens que chefiaram a Revolução Francesa ou todas as de cariz comunista: não há capitalistas burgueses na primeira, operários ou camponeses nas segundas.

A mente revolucionária diviniza uma corrente de progresso indefinido a que chama utopia e que a história futura confirmará. Absurda mentira! Por definição, a utopia não tem lugar e a história, da qual não podemos sair, não nos dá a justificação dos maus meios para se atingirem bons fins, até porque estes, por utópicos, nunca se atingem.

Comunismo e nazismo persistem hoje por essa razão, para trás foram enganados, coisas que correram mal! O politicamente correto nasce daqui, é a política correta ajustada à atualização revolucionária, a boa cidadania obrigatória e totalitária.

A ideologia de gênero, a agenda LGBT, é a versão eficiente e limpa da guilhotina moderna, uma nova Praça da “Concórdia” que asfixia o mundo!

Voltemos aos três pilares do Ocidente. A filosofia grega, Platão e Aristóteles, há séculos que a modernidade dela se separou até à lógica analítica, irrealismo consumado.

O primado do direito que, desde Roma, nunca prescindira do princípio religioso, há muito que decaiu em mero contrato social.

Quanto ao terceiro pilar, uma visão apressada aceitará o Decálogo cristão como que plasmado em cidadania. Todavia, como demonstrado, tal asserção foi paulatinamente revogada pelo espírito revolucionário que impregna a vida atual.

Anulados os três primeiros mandamentos ficaram resquícios dos outros, os necessários à boa ordem moral e social: Deus é referência particular de que a sociedade prescinde, um humanismo sem transcendência dirige o sentido progressivo da História.

Os ditos mandamentos sociais servem hoje um pós-cristianismo analgésico, sem dor ou sacrifício, sem dogmas nem doutrina. Chegamos à fase crucial de apagarmos o quarto mandamento, bastam seis! Agora já não é dever honrar Pai e Mãe, podemos só tê-los como amigos.

E, depois, a demoníaca agenda da ideologia de gênero: a aniquilação da família, o ódio explícito às palavras fundacionais (pai e mãe), as inversões desconstrutivistas (infantilismo, igualitarismo educativo, relativismo espiritual).

Tudo somado e diminuído, parece restar a Igreja Católica sobre a qual, garantiu Cristo, as portas do inferno não prevalecerão. Todavia, inúmeros padres, tanto esquecem que são pais espirituais como omitem os três primeiros mandamentos.

Dizem e repetem que basta ouvir o grito do pobre e do próximo, o da terra e o da natureza. Claro, e isso sempre fez a santidade da igreja, o que deixamos de ouvir foi o clamor pela salvação das almas.

O homem só tem esta vida terrena? Deixou de haver vida eterna e cidade de Deus? Venceu a revolução francesa na cidade dos homens?

O Decálogo conhece-se no amor a Jesus Cristo que, aliás, o reduziu a duas leis: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro dos mandamentos. E o segundo é semelhante ao primeiro: amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

Reparemos, sem o primeiro que é o maior, o segundo mandamento perde o sentido como água derramada na areia. Só amo verdadeiramente o meu próximo se tudo fizer, até dar a vida, para que ele conheça o amor a Deus e a sua misericórdia. ”O meu Reino não é deste mundo”, assegurou Jesus a Pilatos. De que serve amar o próximo na justificação do aborto, da eutanásia, nos desvarios sexuais, no relativismo e no pecado, se nisso ele perder a sua alma?

Na conversa diletante que acabou séria, tendo inteligência, faltou ao meu amigo a fé de um coração inteligente, assim pediu Salomão.

Sem Deus o mérito de amar não é absolutamente real, falta-lhe a graça do Alto, fica pelo sentimento humanista e a filantropia social nos quais, por norma, a vaidade ceifa o amor.

Título e Texto: Carlos Aurélio, o Diabo, nº 2310, 9-4-2021
Digitação: JP, 20-4-2021

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