sábado, 24 de abril de 2021

Foi para isto que eles desfizeram o 25 de Abril

Quero que eles peguem no cortejo, que além de ideologicamente repulsivo é uma foleirada estética, e o levem para longe, onde eu não tenha de ver os cravos nas lapelas ou ouvir as Grândolas da praxe

Alberto Gonçalves

O episódio é conhecido. A Iniciativa Liberal (IL) pediu a uma “comissão organizadora” do 25 de Abril licença para desfilar na data, junto do corso carnavalesco habitual. A “comissão organizadora” recusou, invocando a Covid, que tem as costas cada vez mais largas à medida que a frente encolhe. A IL não se ficou e promete desfilar sozinha, à frente, atrás ou ao lado do corso. O partido Livre, que resumidamente não existe, cedeu dois lugares à IL para acesso a uma rua pública. Não sei, e não me interessa, se a IL aceitou. Uma pessoa comete o erro de achar que as recorrentes figuras perpetradas pelo prof. Marcelo e pelo dr. Costa, a pretextos diversos, são o expoente do ridículo. Mas, no Portugal atual, o ridículo não poupa ninguém.

A bem dizer, nunca poupou. Ao despachar a relativa imobilidade do Estado Novo, o golpe de Estado de 25 de Abril de 1974 criou uma série de possibilidades distintas, que protagonistas sortidos se esforçaram por aproveitar a gosto. De facto, as portas que Abril abriu foram muitas, e poucas foram civilizadas. Até 25 de Novembro de 1975, a porta principal dava para o vasto e ruidoso salão do totalitarismo de esquerda. Havia quem o preferisse de aroma soviético, quem se encantasse com o chinês, quem ambicionasse o cubano e quem naturalmente sonhasse com o albanês (não me recordo de um partido sobretudo inspirado pela Coreia do Norte, lacuna que decerto desequilibrou os debates intelectuais da época).

Estas subtilezas fascinantes concordavam no essencial: a submissão do país a uma ditadura bastante pior que a anterior. Após ano e meio de palhaçadas indignas da Nicarágua, um grupo de militares menos propenso a exotismos iniciou o esboço de um regime democrático. Porém, nas décadas seguintes, as celebrações de “Abril” celebraram as palhaçadas e não a democracia. Embora se tenham ambientado ao novo sistema, prosperado à sua custa e, ao que se vê agora, em boa parte tomado conta dele, os palhaços guardaram sempre a nostalgia face ao que esse sistema podia ter sido, e sempre reservaram o direito de admissão ao culto. PSD e CDS jamais o integraram e só recentemente o PS, que já mal se distingue do BE, é aceite sem suspeitas. Em suma, o 25 de Abril que a tradição comemora é a tentativa de implantação do comunismo nesta pontinha periférica da Europa.

Ocorrem-me três dúvidas. Porque é que a que a IL julga ter de informar a tal “comissão organizadora” para festejar o 25 de Abril? Porque é que a IL pretendia festejar o 25 de Abril ao lado de reconhecidos inimigos do liberalismo? Porque é que a IL faz questão de festejar o 25 de Abril? Na versão benigna, acredito que a IL acredite no carácter ecuménico da efeméride, o qual de resto faleceu depressa, ou na manhã em que Cunhal, recebido por Soares e possuído por Lenine, regressou para ensinar o bolchevismo à pátria. Na versão sombria, é possível que a IL genuinamente se sinta confortável na companhia da Associação 25 de Abril, dos Resistentes Antifascistas Portugueses, do Movimento Pelos Direitos do Povo Palestino, pelos Jovens do Bloco, pela Renovação Comunista, pela Juventude Socialista, pela CGTP e pelo entulho que calha. Em qualquer dos casos, os senhores da IL são tontos ou fazem-se?

Na passeata de Domingo não haverá vestígio de amor à liberdade. Haverá, pelo contrário e como o episódio demonstrou, o sectarismo próprio dos fanáticos. Os donos do 25 de Abril não vedaram a pândega à IL por acaso: caso pudessem, e já faltou mais, impediriam a IL de existir. A IL e todos os que, por tique ou ignorância, não apreciam a opressão do indivíduo às mãos de um Estado esclarecido e violento. Se a ideia é exaltar a democracia, descer a avenida com semelhantes bandos seria igual a subi-la de braço dado com o Violador de Telheiras – em nome da igualdade de género. Ninguém, na posse do seu juízo, desejará intimidades com o Violador de Telheiras. Nem com os leninistas de “Abril”: os leninistas querem distância de nós e nós queremos maior distância deles. Pelo menos eu quero.

Quero que eles peguem no cortejo, que além de ideologicamente repulsivo é uma foleirada estética, e o levem para longe, onde eu não tenha de ver os cravos nas lapelas ou ouvir as Grândolas da praxe. Nunca me passou pela cabeça perturbar as taras de revolucionários petrificados em 1917, delinquentes em 1974 e perigosos em 2021. A linha vermelha que a IL diz traçar a propósito do Chega, que não manda em nada, eu tracei-a em menino e moço entre mim e uma trupe que chegou a mandar imenso e anda com apetites para repetir a dose.

Na perspectiva de um democrata, os méritos do “dia inicial, inteiro e limpo” esgotaram-se praticamente no momento em que se enterrou o “salazarismo”. Houve outros méritos? Se calhar, e nem falo no fim da corrupção, do nepotismo e da pobreza, desaparecidos no mesmo instante. Afinal, é graças ao 25 de Abril que podemos usar isqueiro sem licença, manifestarmo-nos sem pedir autorização, frequentar ajuntamentos sem incorrer num crime, conviver com amigos sem que apareça a polícia, entrar e sair de casa de madrugada sem prestar conta às autoridades, atravessar fronteiras sem interrogatórios, andar na rua sem receio nem máscara, comer no carro sem multa etc. É, não é?

Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 24-4-2021

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