terça-feira, 20 de abril de 2021

[Aparecido rasga o verbo] A parte da história que forma o defunto

Aparecido Raimundo de Souza 

O TELEFONE TOCA E O FUNCIONÁRIO
que atende um freguês (sozinho aquela hora, quase onze horas de um domingo ensolarado), pede licença a ele e sai correndo, em direção ao caixa, onde fica o aparelho. Do outro lado, um sujeito de voz rouca procura desesperadamente por um tal de João.
— Aqui não tem nenhum João, meu amigo.
— Não é do bar do velho Libório?
— Sim.
— Buraco do Prefeito Centrípeta, número quinze?
— O endereço confere. Mas esta pessoa não existe por aqui.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Que esquisito!...

— O que o prezado acha esquisito?
— O fato de não encontrar o João. Ele sempre frequentou o bar do velho Libório... Ainda mais hoje, domingo....
— Eu sou o único empregado do seu Libório e nunca ouvi falar neste tal de João. Conheço toda a clientela dele.
— Há quanto tempo trabalha para seu patrão?
— Seis anos e exatos vinte e cinco dias.
— Como é seu nome, por obséquio?
— Salaminho...
— Que coincidência. Foi este o nome que o João mencionou. Salaminho. Estou estranhando você, tanto tempo com o velho Libório me dizer que não conhece o João. Não acredito...

Salaminho, com aquela conversa fora de esquadro desconfia. Começa a achar que o sujeito, do outro lado da linha, está tirando sarro e fazendo hora com a sua santa paciência. Em pleno domingo, e aquela hora, o movimento é nenhum. Tenta manter o papo numa boa. Quer ver até onde a coisa consegue chegar.
— Para dizer a verdade, repetindo o que disse, nunca ouvi falar. E nem seu Libório fez menção à algum assíduo com este nome. João... João... Realmente, o prezado deve ter se equivocado.
— De forma alguma. Jamais! Liguei para o lugar certo. Bar do velho Libório. O único boteco do bairro. Procuro pelo João. Aliás, o João me disse que estaria ai refrescando a cuca em companhia de uma ‘geladinha’, no capricho. Descreveu até a roupa que estaria usando: camisa azul, bermuda jeans e sandálias havaianas.
— Sinto muito, aqui não tem nenhum João.
— Se você está falando...

Salaminho resolve ir além, tendo em vista que o desconhecido declara seu nome.
— Desculpa a curiosidade. Já que ligou, para que o amigo está caçando este tal de João?
— Não há o que desculpar. A curiosidade é nata no ser humano. Por outro lado, não vejo mal nenhum em lhe contar. Ando na cola do João, para saber se é verdade o que me narrou ontem, à hora em que trocávamos impressões. Queria mais pormenores de uma situação inusitada que me relatou. Procurar pôr a coisa em pratos limpos, se e que me entende...
— Uma conversa...?
— Sim. Ele comentou, por alto, mas eu juro a você que fiquei pasmo. E continuo, para seu governo, de queixo caído, ainda mais agora que falo diretamente com o personagem que o João mencionou...
— O João... Espera aí. Deixa ver se entendi. Este João falou a meu respeito?

O estrangeiro se faz meio restritivo.
— Sim. Existe algum outro Salaminho trabalhando com o velho Libório?
— Claro que não...
— A princípio, eu não levei muita fé no que o João discorreu sobre o que aconteceu entre vocês. Por outro lado, ele foi tão firme nas palavras, tão veemente... Tão... Como diria, real e sincero, que acabei ficando com pulgas na orelha.
— Já que a coisa é comigo e envolve a minha pessoa, por favor, se abra. Seja o que for, lhe garanto, morre aqui. O que este João falou sobre mim?
— Melhor não. Você poderá ficar chateado, brabo, nunca se sabe.
— De forma alguma.
— Tem certeza?
— Dou a minha palavra de honra. Por favor, sou todo ouvidos.

— O João me disse que foi até ai, ontem à noite, sábado, acompanhado com três amigos. No salão, alguns gatos pingados. O Libório não estava. Ai ele e o trio, aproveitou a ‘deixa’. Você então foi levado discretamente lá para os fundos do estabelecimento, onde ficam os estoques dos refrigerantes e os sanitários. Me corrija, se eu estiver errado: o reservado dos homens tem a porta branca, e o das mulheres, lilás. Correto?
— Perfeito... Mas...
— Então Salaminho, como pode ver, não estou mentindo nem inventando...
—... Continue...
— O João me garantiu, com todas as letras, que ele e os amigos trancaram você no banheiro das mulheres —, imagine, que coisa horrível —, arrancaram todas as suas roupas, colocaram a cueca que você usava na sua boca, selaram com uma fita adesiva, para que não emitisse nenhum tipo de som...

Faz uma breve pausa e continua:
— Em seguida, lhe desceram o sarrafo. Encheram o seu esqueleto (desculpe o termo) de porradas, sem dó, nem piedade. Segundo o que me falou o João, além de terem deixado a sua pele mais vermelha que molho de tomate de restaurante francês, terminada a coça, a sua carcaça (palavras dele, pelo amor de Deus) ficou tão quebrada, tão quebrada, quanto um saco de arroz de terceira. E para fechar com chave de ouro, enfiaram a sua cabeça numa privada que alguém usara e se esquecera de dar descarga.
— Ah, filho da...
— Calma, meu querido. Fica frio.
— Como posso ficar frio diante do que acabou de me contar?
— Amigo, me escuta. Foca no que vou dizer: tranquilidade. Tudo se resolve.

A ligação, neste ponto, é sumariamente interrompida. Salaminho permanece por alguns instantes com o auscultador na mão, trêmulo e profundamente nervoso. Volta à realidade, quando o moço, debruçado na bancada, solicita que lhe seja trazida a ‘saideira’. Ao atendê-lo, Salaminho dá uma espiada geral e discreta. Se detém momentaneamente neste único ocupante. O sujeito veste uma camisa azul. A camisa bate. Usa uma bermuda que também bate, e, nos pés, trás um par de Havaianas. Tudo bate com a descrição do ignoto da ligação. Abespinhado, fora de si, completamente transtornado, o sangue a lhe ferver nas veias... Salaminho pensa rápido e... Abre o freezer vertical e passa a mão numa ‘gelada’. Ao se voltar, e caminhar até o freguês, transporta, consigo, o pedido solicitado na mão esquerda e, na outra, o revolver trinta e oito municiado até os dentes que seu Libório mantém guardado numa gaveta debaixo do caixa. Inopinadamente uma série de estampidos quebram o tranquilo do ambiente.

O infeliz que consome o restante do fundo do receptáculo, cai para trás, numa espécie de empurrão violento e pesado e se espatifa entre mesas e cadeiras, sem vida. Por azar de Salaminho, uma viatura da polícia militar cruza o Buraco do Prefeito Centrípeta justo naquele momento crucial. Alertados pelos clamores de socorro dos transeuntes que circundam pela calçada, os fardados, em meio ao escarcéu que se forma, param e entram correndo no bar do velho Libório. Sem muito trabalho, prendem, em flagrante, o trêmulo e desnorteado do Salaminho, ainda com o revolver em punho. Em diligências feitas, se descobre, que o forasteiro que ali se encontrava, nada tinha a ver com o caso que Salaminho relatou ao delegado. Tampouco a vítima se chamava João. O nome do pobre coitado, um tal de Juraci da Silva nada mais que um pedreiro, trabalhava no aumento de um puxadinho que seu Libório resolvera fazer, em seu outro estabelecimento, ou seja, na padaria, do outro lado da avenida.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do Sítio Shangri-La - ES/MG, 20-4-2021

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