sexta-feira, 9 de abril de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Elas são boas assim: nuas e cruas

Aparecido Raimundo de Souza

Para meu grande amigo, o escritor Rubem Fonseca (In memorian), que dias antes de seu falecimento, me concedeu uma entrevista em seu apartamento no Rio de Janeiro e me presenteou com seu livro “A Coleira do Cão” . Este texto é uma paródia à ele.

TÃO LOGO ME SEPAREI da última companheira, passei numa papelaria e comprei um caderninho onde escrevia os nomes das mulheres que foram para a cama comigo. Quando estava casado eu não tinha nenhum caderninho, a minha mulher era muito possessiva e as suas crises de ciúme, além de longas, pareciam mais teatrais que condizentes com a verdade. Ela rasgava as minhas roupas novas. Eu não dava a menor importância à isso. Logo depois ela voltava atrás, passava a mão em mim e me levava para comprar tudo novo.

Eu escondia de Gioconda a existência das outras mulheres que povoavam o meu mundo tresloucado. Ainda não tinha caderninho naquela época, mas já ia para a cama com outras. O ciúme doentio de Gioconda vinha sempre causado por um gesto inocente da minha parte, como olhar uma dona que passava perto da nossa mesa no restaurante, ou rebolando no calçadão da Avenida Atlântica. Às vezes, num mero exercício especulativo, eu imaginava o que ela faria se soubesse que eu devorava outras mulheres, ainda que com os olhos cheios de desejos pecaminosos.

Mas eu não corria riscos. Caderninho de endereços, cartas, retratos, essas coisas clandestinas sempre são descobertas. Por que me separei dela? Talvez porque não aguentasse mais ter que usar as roupas da “última moda” que a Gioconda comprava para mim. Durante algum tempo eu achava graça em mim mesmo enfiado naqueles paramentos. Tenho senso de humor, como todo sujeito preguiçoso. Me lembro de um jantar, presentes as habituais figurinhas que se enfeitam com esmero para essas ocasiões, quando uma das mulheres, uma ruiva bonita, de fechar o comércio, elogiou os meus trajes.

Eu disse que Gioconda os havia escolhido. A ruiva se virou para o marido, um advogado vestido formalmente que suava pelos cotovelos apesar do ar refrigerado, e lhe disse que ele devia seguir o meu exemplo. O resto da noite, os casais presentes — havia profissionais liberais, empresários, escritores, jornalistas, até mesmo uma artista plástica, a maioria trajada conforme os ditames estilísticos da época — discutiram se as mulheres deviam ou não escolher a roupa que os maridos usavam.

Foi um debate acalorado e extenso, o advogado falastrão, que não gostava de mim, foi um dos mais eloquentes. No dia seguinte, empacotei minhas roupas velhas e alguns livros, os de Gabriel García Máques e Fernando Sabino, e mudei de casa. Minha ex-mulher era tão ingênua que rasgou todas as roupas novas, que eu deixara no apartamento, pensando que se vingava de mim, e contratou o advogado paspalhão que suava no jantar para tirar o meu couro, mas ele conseguiu menos do que ela queria. Por minha vez, eu consegui a ruivinha, a mulher dele, que fechava o comércio. De fato, ela fechou o meu.

Minha união com Gioconda havia durado treze anos, dois dias e oito horas, alimentada pela inércia, essa qualidade passiva que faz o sujeito resistir, não importa a magnitude da escala do cantor Richter, aos rotineiros abalos sísmicos de todo casamento. Sou um indolente. Mas a minha preguiça nunca interferiu na minha motivação de conquistar e possuir as mulheres. Só não quero é casar novamente. Jamais. Na vida tudo é motivação. É uma energia psíquica, como dizem os estudiosos, uma tensão que põe em movimento o organismo humano, determinando o nosso comportamento.

Às vezes eu penso que, no meu caso, é também uma maldição. Que mulheres eu queria conquistar? Famosas? Não me interessavam. Uma mulher famosa, não importa a origem da sua celebridade, costuma ter mais defeitos que atrativos, por mais bonita que seja. Ricas? Zero motivo. Cultas? Zero motivo. Elegantes? Isso é interessante, mas não basta — evidentemente não estou falando de roupas, elegância é outra coisa.

Esportivas? Pra quê, pra correr comigo na praia com um daqueles medidores de ritmo cardíaco atado no peito? Zero, evidentemente. Eu queria mulheres bonitas e bem-humoradas. De preferência, de dezoito a vinte e cinco. Só isso. É claro que se fosse um pouquinho feia mas tivesse um corpo muito bonito, tipo a Patrícia Abravanel Faria, filha do Silvio Santos,  ela entrava no caderninho. E faria. Aliás, o corpo bonito se fazia mais importante do que o rosto bonito. Que dificuldades eu encontrava para conseguir registrar tudo depois, no meu caderninho?

Eu queria mulheres bonitas, mas às vezes acontecia que a mulher bonita por azar também se mostrava inteligente. Teoricamente, uma mulher inteligente perceberia logo que eu era... Era não, sou um mulherengo inveterado. Teoricamente. Mas, na prática, elas são ainda mais pacóvias do que as burras. Como, por exemplo, a penúltima, chamada Érica, que entrou no meu caderninho. Antes de prosseguir, devo dizer que gosto de pegar, pra comer, a mulher de hoje, no dia seguinte aquele em que a conheço, já que no mesmo dia é um açodamento que deve ser evitado: “a pressa é inimiga da imperfeição”.

Este, aliás, é um dos meus clichês favoritos, não me incomoda usar lugares-comuns, são sempre a concepção clara de uma realidade, ainda que gastos pelo abuso. Mas, como dizia, no segundo encontro com a Érica eu, como de costume, sugeri irmos para a cama.
— Você não acha que devemos esperar o tempo certo?
Tenho sempre um bom clichê na manga.
— Boire sans soif et faire l’amour en tout temps, madame, il n’y a que ça qui nous distingue des autres bêtes. Beaumarchais, Mariage de Figaro —, respondi.

Esqueci de dizer à Érica que sei falar francês, qualquer mandrião consegue aprender francês. Érica, jovem demais, não conhecia esse chavão centenário nem o autor da peça, apenas a ópera de Mozart, sabia um pouco de francês, mas como se mostrara razoavelmente inteligente, entendeu que eu dissera uma verdade: “o que nos diferencia dos animais é que bebemos quando não sentimos sede e fazemos amor a qualquer momento”. Faz parte da natureza humana, da nossa essência.

Então, Érica percebeu que devia seguir seus mais puros instintos e foi para a cama comigo. Pude pôr o nome dela no caderninho, com uma breve nota sobre as suas características principais. Podia contar outros casos, inúmeros, porém sinto que estou me tornando prolixo. Mas não posso deixar de falar de Andressa. Um exemplo de caso difícil. Andressa era filha única de novos-ricos — nessa esfera social ninguém dá à uma filha nomes como Maria.

Ela evitou ir para a horizontal comigo no primeiro dia, no segundo, no terceiro e até mesmo — incrível, não? — no quarto dia. E olha que eu morava no quinto...

— É assim que você vê as mulheres? Que você me vê? Como um objeto sexual? —, ela perguntou, quando da minha última tentativa. Protestei com veemência, disse que “caíra de quatro”, atraído pelos seus atributos físicos, morais e mentais, pela sua personalidade como um todo.

Senti que minha afirmativa categórica não a convencera. Ela ainda tinha fortes dúvidas a meu respeito, se eu merecia ou não a sua confiança. Para um indolente como eu, essa dificuldade poderia ser desestimulante. Mas, como disse, a minha motivação, ou maldição, se mostrava tão forte e inquebrantável quanto a de Sísifo. Sísifo para quem não sabe, foi aquele que sisi... Consegui, com muito esforço, convencê-la a se encontrar comigo, mais uma vez, no meu apartamento. Eu morava na Barata Ribeiro, numero 200.

Nesse dia crítico, esqueci sobre a mesa da sala o caderninho com os nomes das donzelas, em cuja capa vermelha estava escrito: “As mulheres que amei”. E aconteceu o que não podia deixar de acontecer. Andressa achou a merda do caderninho e pegou-o, estava aparente demais, com a sua capa gritante. As mulheres são curiosas, como sabemos, e essas coisas clandestinas sempre são descobertas por elas. Azar de quem não sabe disso!

— “As mulheres que amei” —, disse Andressa, lendo a capa do caderninho. Eu estava perto. Corri e arranquei o caderninho vermelho das suas mãos.
— Desculpe” —, eu disse, nervoso —, “mas este caderninho contém coisas que eu não gostaria que você lesse. Desculpe.
— Por quê? O que tem nele, além dos nomes?
— Bem...
— O que mais?

Coloquei o caderninho no bolso e juntei as mãos, como numa prece, no melhor estilo de um italiano suplicante:
— Por favor, não me peça para ler esse caderninho!
— “Nomes de mulheres...” repetiu Andressa, com desprezo na voz. “E o que mais contém essa coisa, que eu não posso ler?”
Cocei o lóbulo da orelha e passei as mãos sobre a cabeça e me mantive calado. Além dos nomes, havia no caderninho uma breve anotação sobre as particularidades de cada criatura que se deitava comigo.

Eu não conseguia esconder meu constrangimento, creio mesmo que fiquei ruborizado.
— Anda, fala logo. O que tem nele, além dos nomes?
— As... Ah... Características... De cada uma delas...
— Que coisa mais sórdida. Você anota num caderninho as obscenidades que pratica com as mulheres que diz ter amado?
— Não é nada disso...

Andressa pegou a sua bolsa, que deixara sobre uma cadeira.
— Nunca pensei que alguém pudesse ser tão canalha.
Quando ela estava na porta, pronta para sair, eu a segurei. Tirei o caderninho do bolso.
— Pode ler. Por favor, não vá embora...
Ela parou, indecisa…
— Não quero ler essa porcaria. Enfia no... Enfia no pescoço em Frances... Já que você gosta tanto de usar essa lingua...
— Agora você tem que ler. Depois de todas essas coisas horríveis que disse de mim, mereço que pelo menos este meu pedido seja aceito, me dá uma chance de provar que sou um homem de caráter. Eu te amo.

Esfreguei os olhos, como alguém à beira das lágrimas.
— Assim como amou as dezenas de mulheres do seu caderninho?
— Leia, estou implorando.
Entreguei o caderninho à Andressa. Ela hesitou um pouco. Entretanto, começou a ler, e o seu rosto, aos poucos, foi demonstrando surpresa. Lentamente a sua carinha fechada se vestiu de alegria e contentamento. Caminhou para o centro da sala e pôs a bolsa de volta sobre a cadeira.
— São apenas cinco nomes —, disse, finalmente.

— Leia o que está escrito, eu disse com certa insistência.
— Já li. Me desculpe —, disse ela fazendo um trejeito de arrependida..
— Só desculpo se você ler o que está aí em voz alta.
Andressa leu:
— “Marta, gosta de catar as pulgas dos gatos e de assistir ao pôr do sol pelada da minha varanda. Os vizinhos de frente só faltam pular de suas sacadas. Sílvia, se preocupa com formigas. Não pode ver uma, quer matar. Luíza, adora o humorismo cético de Luiz Fernando Veríssimo. Renata, canta as músicas de Agnaldo Timóteo melhor do que ninguém...”.

Fez uma pequena pausa. Continuou:
— “Lourdes, tem uma linda coleção de cuecas box. Jura de pés juntos que não pertencem a nenhum de seus ex. São apenas essas cinco?
— Agora, seis, com você, que vai encerrar esse caderninho para sempre.
— Quem é Marília Mendonça?
— Uma cantora que sempre se dá mal em seus relacionamentos. Você já ouviu “Ela é problema seu?”.
— Não. Mas deixa prá lá. Você me desculpa?
— Claro. A culpa do mal-entendido foi toda minha.
— O meu nome ainda não está no caderninho. Você vai escrever o quê?

Tirei o caderninho da sua mão. Escrevi: “Andressa. Sofisticada, generosa, inteligente, linda como uma princesa de histórias de fada. Lembra a Branca de Neve e os Sete Anões sem os Sete Anões, claro...”.
Andressa leu e releu o que eu havia escrito para ela. Riu com vontade e me abraçou, carinhosamente. Fomos para a cama. Passou a noite comigo no chão. A droga da cama, por azar, se quebrou, assim que começamos a balançar os esqueletos.

Enquanto fazíamos sexo, ela me chamou de “meu garanhão de Padre Miguel várias vezes”. De manhã, quando foi embora, peguei o caderninho de nomes que ela deixara sobre a mesa e o coloquei numa gaveta fechada à chave onde estava o outro caderninho, o verdadeiro, de discreta capa cinza, o que continha, resumidamente, as peculiaridades reais e os nomes das dezenas de mulheres que eu trouxera para o meu cafofo.

O de capa vermelha, que Andressa lera, uma falsificação barata que eu astutamente preparara para aquela empreitada difícil. Cinco dias! Com a minha melhor caligrafia, anotei, no caderninho verdadeiro:
“Andressa. Obcecada por pizza de mussarela. Adora refrigerante sem gelo. Bebe com força. Chega a virar os olhinhos. De resto, linda, sem celulite, usa calcinhas fio dental e quando está para me fazer ver estrelas, grita, eufórica: “Eu vi Jesus, eu vi Jesus...

Coloquei um ponto final assim: “Andressa é maravilhosa, perfeita, uma amante inimitável. Vê Jesus mas não sabe quem é Marília Mendonça”. Nesse dia, quando sai para o trabalho, o seu Miguel, porteiro, me entregou um envelope azul com um bilhetinho em letra vermelha. A letra de quem escrevera era impecável. Dizia: ”Seu Aparecido, bom dia. Procure fazer menos barulho quando estiver com as suas sirigaitas. Esta noite, o senhor não me deixou dormir”. Vinha assinado por uma beldade, Marizinha, a moradora provocantemente sensual do apartamento abaixo do meu.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do sítio Shangri-La – Pequiá, divisa do Espírito Santo com Minas Gerais. 9-4-2021

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