domingo, 2 de maio de 2021

[As danações de Carina] Nada é difícil quando temos a vontade de vencer


Carina Bratt  

ÀS VEZES ME PONHO a pensar em coisas consideradas difíceis. Bem complexas mesmo, quase temerárias e impossíveis. Visto por outro prisma: propósitos totalmente impraticáveis. Engarrafar colunas de fumaça para vender como souvenirs na Vinte e Cinco de Março, seria uma delas. Isto apenas como começo de conversa... Beijar o rosto do sol? Morder as bochechas da lua? Enxugar uma pedra de gelo sem molhar a toalha? Não descartaria, jamais nenhuma destas possibilidades. 

Igualmente, trancar uma gaveta repleta de quinquilharias e jogar a chave dentro? Dar um soco na perna do vento quando ele estivesse fazendo a curva? Ir, num domingo, até um jardim zoológico, cuspir no focinho de um leão furioso e, em seguida, entregar a ele, um lencinho de seda perfumado, para que se limpasse seguido de um belo pedido de desculpas? Será que ele ficaria zangado? A propósito: zoológicos ainda existem?  

Perco um tempo enorme com estas e outras loucuras. Devo estar ficando pirada! A coisa não para por aqui. Me quedo, insatisfeita e sem resposta, tipo seria difícil, ou inaudito, apagar a luz da lampadinha de dentro da geladeira antes de fechar a porta? Me livrar da calcinha sem tocar na jeans que estou usando? Segurar um avião na cabeceira da pista prestes a alçar voo?  

Andar por cima do mar sem molhar meus pés, ou pior, sem afundar? Despojar as meias dos pés sem carecer me livrar dos sapatos? Pular de cabeça do Viaduto do Chá, no centro de São Paulo e, antes de me esborrachar, lá embaixo, no chão de cimento, conseguir tomar o chá e não deixar que a xícara se quebre em mil pedacinhos?  

Será que eu lograria fazer com que o Roberto Carlos cantasse Jesus Cristo completamente pelado e, ainda por cima, com as mãos nos bolsos e, de contrapeso, se olhando no espelho? Meu Deus!... O que poderia ser, outrossim custoso e ímprobo, na minha concepção extravagante e dementada? Tento pensar. Raciocinar friamente. Entrar pela tela do telefone celular na hora em que estivesse falado com meu namorado, sair do outro lado da linha e ‘tascar’ um beijo gostoso nos lábios dele?  

Meu amado ficaria perplexado? Sairia correndo? O Viaduto do Chá não é mais o mesmo. Faz tempo! O senhor que servia xícaras de um chá saboroso e feito na hora, partiu recentemente vitimado pela Covid-19... Já sei! Atinei com uma coisa fácil que não me daria nenhum trabalho. Entornar, de uma só vez, em plena Avenida Paulista, uma batida de automóvel num simples copo de plástico descartável...  

Acredito que na minha neurastenia conseguisse fazer um bule de ‘pôcafé’ ter Fé suficiente para se ajoelhar diante do coador e rezar um Pai Nosso à Santa Arábica ou uma Ave Maria à São Conilon. Fantasio sonhos engraçados, típicos da minha ‘espalhafatez’. Pretendo realizá-los, a bem da verdade, antes de bater com as doze. Por exemplo: ao virar defunta fresca, quero ter entrado umas trocentas vezes na casa da Branca de Neve sem importunar os Sete Anões.  

Almejo viajar mais rápida que a velocidade da luz, sem apagar a lâmpada. Conseguir, no mesmo norte, a proeza de fazer com que um cadeirante se levante de seu assento e saia desabalado e, de lambuja, levando, nas costas, a cadeira que o privava de ser feliz... Encontrar Judas e lhe entregar as botas perdidas e o machado de Assis confiar à uma instituição de caridade que o leiloie e, com o dinheiro arrecadado, compre alimentos para crianças carentes. Amigas, por favor, me perdoem.  

Me perdoem, de coração. Trouxe à baila este rol de ‘bobeiras’, simplesmente para dizer e destacar o seguinte: se tivermos um apetite aguçado de vontade e Fiança-ávida; perseverança resoluta e arrojada fidúcia em nós mesmas; salpicadas de pedacinhos de tino e perícia; misturadas à segurança esmerada naquilo que temos e alimentamos na mente; se formos inventivas e criativas; tudo nos será possível. Acreditem, não existem almejos e aspirações impossíveis.  

Se acreditarmos piamente no jargão 'sermos capazes', nos conscientizarmos que fomos feitas de barro coeso e engravidado de lama e insumos resistente e que podemos, por conta, conseguirmos tudo, tudo, ainda que este ‘TUDO’ pareça improvável ou fora de propósito, alcançaremos a Vitória. Aos olhos do Criador e aos anseios e engulhos de nossas quimeras, o inalcançável se tornará palpável. A noite ficará mais calma, o dia mais lindo, o pôr do sol mais radiante e, sobretudo, nos transformaremos na ponte elo-de-ligação sobre as águas procelosas que nos levará a um mundo melhor.  

E, dentro dele, nascerá um amanhã auspicioso e viril, de bom agouro, alvissareiro e logicamente sem dissabores. Amigas e leitoras, nunca se esqueçam: nós, mulheres, temos, nas mãos, o Poder pleno, a capacidade absoluta, cabal, exuberante e farta de intervertermos a nossa vidinha serena e acomodada, pacata e infeliz, em maravilhas indescritíveis e assombrosas, em deslumbres e estuporações celestiais.  

Basta termos a bússola do nosso destino voltada às virtudes vigorosas da Força de Vontade, bem ainda, a seiva e o dinamismo da perseverança e, claro, sermos, sobretudo, robustas e obstinadas, enérgicas e abrasadas, se contarmos com a visão beatificante de compormos uma espécie de fortaleza indestrutível ao nosso redor. TODAS AS COISAS, CREIAM, MINHAS AMIGAS E LEITORAS, TODAS AS COISAS NOS SERÃO FACTÍVEIS NA ETERNIDADE.  

Título e Texto: Carina Bratt, do sítio Shangri-La – ES/MG. 2-5-2021

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