domingo, 4 de abril de 2021

[As danações de Carina] Clec

Carina Bratt

Tentei, mais uma vez, me explicar. Saber coisas do tipo quem sou, de onde vim, para onde irei, qual a minha finalidade neste mundo de loucos, doidos e birutas, além de mim? Não consegui!

Concluí, de novo, que é difícil me explicar, ou melhor, é impossível definir uma mulher (qualquer mulher). Seria como pegar estrelas num céu bonito em pleno meio-dia de sol intenso.

Como um avião abandonado aos seus 'ferrujos' cismar, de repente, e querer voar sem as asas. Alguém já viu, por aí, um avião voando sem asas, ou mesmo um carro de passeio saindo da garagem sem as rodas?

Assim é a difícil e intrincada tarefa de me explicar, ou de tentar esmiuçar pormenorizando o sexo feminino. O belo oposto, o frágil que nos torna a rainha de todas as sensibilidades... E nos faz robustas e indestrutíveis.

A melhor coisa que Deus colocou na Terra não se mede com palavras, não se dimensiona com pequenas coisas pegas aqui e ali. Tentei (juro que tentei) me explicar. Qual o quê! No meu quarto, à hora em que pulo da cama, e fico de frente para o espelho.

Talvez hoje, final de semana, quarentenada em meu quadrado, eu consiga. Me ponho e me vejo despida das coisas materiais: pijama, calcinha, touca no cabelo, o som baixinho nos fones de ouvido...

Enfim, desleixada e sem as superficialidades dos produtos de beleza adquiridos nos passeios pelas lojas chamativas dos shoppings. Nua, diante do espelho, sem nada cobrindo meu corpo, percebo que a vida me veste de cores variadas.

Num piscar de olhos, ela me cobre, inteira, de uma Felicidade diferente, de uma Alegria ímpar e de um Espírito jovial, livre e leve. Cada dia descubro um fato novo nas minhas investidas em querer descobrir de onde vim e para onde a vida me levará.

Desta última, por exemplo, me vi diante de um acordo assinado com meu ‘Eu’ interior. Nem me lembrava mais dele. Tão cheio de cláusulas e parágrafos difíceis, no final, ainda que visualmente, entendi que não me era, ou melhor, não me é permitido revelar o que sou, para onde vou e o que vim fazer. Raios! Melhor deixar esta coisa quieta...

A frieza da minha decepção aquece meu estado de constrangimento. Me sinto uma maçã ferida, cortada por lâminas frias, me estilhaçando dos pés à cabeça. Todavia, algo maior me junta os pedacinhos e me reinventa, me recria, me refaz.

No varal da área de serviço, as minhas roupas de uso diário ainda se acham molhadas. Esperam o sol e o vento para secarem completamente da umidade da derradeira lavagem que fiz.

A noite escura como breu, a mesma companheira que ainda a pouco se fazia presente, passou, a mão em seus cacarecos e saiu pela janela da sala. Saltou desembestada, num galope sem cavalo e, feito uma tresloucada, sem se despedir.

Parecia apressada com o novo dia que se aproximava. Danada! Deixa quando ela voltar, darei o troco. De novo, mais uma vez, incansável, retorno ao meu quarto e tento me explicar. Não adianta. Para que insistir? 

A história é a mesma, sempre será: porém, quem sabe, desta vez... O acaso me ajude. Ou um diabinho bonzinho me dê mais sorte. Esta teimosia ainda me deixará em maus lençóis. Nada. Em vão. O inexplicável me tolhe. 

Contudo, algo novo me espanta. Sim, algo novo me faz ficar arrepiada. Meus desejos adormecidos se desamarram das algemas. Meus medos rompem as cordas, meu coração acelera as batidas.

O sol, que deveria estar lá na minha varanda secando meus panos de cobrir o bumbum, brinca de esconde-esconde com um sorriso largo e maroto que se forma em meu rosto.

Afasto as cortinas até o canto e deixo que a claridade dele invada meu quarto e se deite na minha cama. Me debruço no peitoril e espio. 

Indiferente, lá no alto, bem lá em cima, além do sol posto que se aconchegou, o Infinito coberto por ralas nuvens de algodão, me mostram, me fazem ver, em toda a sua formosura e esplendor, a imensidão do meu AGORA.

E, com ele, o meu AGORA, Uau! Elegantemente vestido de ‘JÁ’, gritando à altura medonha, a decisão plena do meu próximo voo.

Título e Texto: Carina Bratt, do sítio Shangri-La – ES/MG. 4-4-2021

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Ponto cego 

2 comentários:

  1. Mulher se define como um helicóptero cujo motor tem como combustível o amor.
    As vezes o amor faz para o rotor, e ele cai rodopiando ao chão fazendo um pouso duro. Consertado alça voo de novo às vezes com outro combustível, sa usar o mesmo novamente vai ao chão vitimando-a.
    Minha definição de solidão é melhor que certas companhias, nunca devemos ficar baixo do nível da pirraça.
    Para achar o ninho da égua e aguentar o sorobado, ainda dará para um bom caldo.
    Amarrei o bode...

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  2. A mulher não se define. Já nasce definida e dona de si mesma e de seus sonhos e quimeras. Meus sonhos, por exemplo, são pequenos barquinhos adormecidos que levantaram âncoras. Veio a noite, veio o dia e, num abraço tresloucado se atracaram todos de volta, no meu cais. Euzinha fiquei no porto apregoando os versos de um poema torto ancorado desde sempre, dentro de mim. No tocante a 'solidão', meu dez de redação sobre o tema, não desceu da mesa do professor de Português: definição, sem definição; o que é solidão em uma palavra; loucura! Amor? Estar em paz com o mundo. Pensei em mudar o que havia escrito, mas percebi que era tarde demais. As formigas que rondavam a mesa do professor, eram as mesmas.
    Carina
    Ca
    do Sítio Shangri-La - Divisa ES/MG.

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