sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Um retrato de nós

Henrique Pereira dos Santos

Isto é uma fotografia do debate entre Costa e Rio, no momento em que Costa, para demonstrar que disse ao eleitorado que iria fazer a geringonça, mostra a capa do Expresso anterior às eleições.

Costa sabe que esta capa não o cita a ele (mas a fontes anônimas), sabe que este título é da responsabilidade do jornal e dos jornalistas, e sabe perfeitamente que em lado nenhum disse, publicamente, que se perdesse, iria fazer a geringonça.

Aliás, mesmo depois das eleições andou numas reuniões com a PAF das quais saía sempre a dizer que Passos Coelho não apresentava propostas nenhumas a que pudesse dar resposta para apoiar um governo da coligação que ganhou as eleições.

Ontem, no debate, disse claramente que entendia que se perdesse era porque o eleitorado fazia uma leitura negativa da sua atuação, e, portanto, ir-se-ia embora, embora não tenha explicado por que razão esse raciocínio não tinha sido válido em 2015.

Tudo isto define bem Costa (mais até que a mentira de dizer que Neeleman faliu em 2020 e fechou as suas empresas, como teria fechado a TAP se o governo não a tivesse nacionalizado outra vez), mas não é Costa que me interessa neste post.

Esta capa do Expresso resultou de uma boleia que Costa deu a uma jornalista do Expresso durante a campanha, em que lhe disse que faria a geringonça, lhe disse que se quisesse podia publicar essa informação, mas que ele, Costa, nunca a confirmaria.

Isto é uma forma, feia, mas legítima, de Costa condicionar jornalistas, dando um exclusivo sumarento, em troca da não revelação da fonte.

O problema é quando jornalistas e jornais como o Expresso aceitam quebrar as regras da sua profissão, a citação de fontes anónimas sem ser por razões plausíveis de segurança e risco para a fonte, regras essas que existem exatamente para limitar a capacidade de fontes interessadas plantarem informação que lhes interessa, sem assumir responsabilidades por isso.

Esta é a primeira imagem desagradável de nós que resulta da fotografia que está no princípio do post: uma imprensa que se deixa encadear pela necessidade de publicar o que ninguém publica, acabando a ser manipulada por um político experiente no assunto.

No entanto, o mais desagradável não é essa primeira imagem de nós, enquanto sociedade, o mais desagradável é que tudo isto é do domínio público e, mesmo assim, Costa continua a poder exibir esta capa de jornal como prova de que sempre disse ao eleitorado que iria fazer a geringonça, como se a simples necessidade de recorrer a esta prova não fosse a demonstração de que de facto, na campanha, não disse o que iria fazer se perdesse as eleições, mas a esquerda tivesse maioria no parlamento.

Somos nós que apreciamos mais a "habilidade" de Costa dá mostras, que o que significa o facto de uma pessoa mentir ao seu eleitorado (não a mim, que não votei nele, mas aos outros, aos que votaram nele) com o objetivo de não o assustar, para ter oportunidade e tempo para fazer passar a ideia de um modelo de governo que nunca quis apresentar ao eleitorado porque suspeitava que isso prejudicaria a votação - em termos mais substanciais, porque tinha a percepção de que não era isso em que o eleitorado votaria.

Costa é o que é, mas o que é verdadeiramente deprimente é nós sermos o que somos.

Título, Imagem e Texto: Henrique Pereira dos Santos, Corta-fitas, 14-1-2022

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